15 de dezembro de 2013

Da Penha



Quem hoje de Guimarães olha a Penha não vê o mesmo que viu quem a olhou no último quartel do século XIX. Onde hoje vemos um manto verde, via-se então uma paisagem inóspita, revestida de granito. No entanto, não faltava quem lhe cantasse as belezas, ajudando a preencher a mitografia da montanha que se debruça sobre Guimarães. De todos os poetas, terá sido Bráulio Caldas aquele que melhor a cantou. Enquanto não arranjo tempo para escrever sobre a biografia da serra contada por Esser Jorge, aqui fica uma balada em prosa que Bráulio dedicou à Penha.

Bráulio Caldas (1861-1905)

A pastora dos cantares
I
Lá no alto da Penha, no píncaro mais esguio da serra, que parece pendurado no céu, por um véu de nuvenzitas brancas feitas de gotas de orvalho e raios de luz, a pastora dos cantares vestida de madressilvas e coroada de folhas de hera, fresca e robusta, rosada como os morangos, loura como os trigais, levanta-se com a aurora, abre os grandes olhos azuis languidamente, cora e empalidece mesmo como a aurora no horizonte, lá no alto da Penha, no píncaro mais esguio da serra, que parece pendurado no céu, por um véu de nuvenzitas brancas, feitas de gotas de orvalho e de raios de luz.
II
Quando a cotovia em espirais ligeiras esvoaça pelas alturas, como que a pedir ao azul luz, muita luz, vibrando um inefável concerto matutino em dueto com a estrela da manhã, ela contempla a paisagem da terra, feita de maciços de verdura, e vai banhar-se nas tinas de cristal que as pérolas de orvalho formam nos estofos de musgo e nas folhitas das ervas, e cumprimenta as borboletas e os répteis que lhe respondem na sua linguagem rude, sorve os perfumes das flores agrestes que vivem lá pelas urzes dos montes; e depois de rezar a oração da manhã pelas contas que a fonte cristaliza, destiando-as do seio da rocha, saúda entusiasticamente a natureza inteira, enviando-lhe um canto fresco e luminoso como o som metálico de um clarim, lá quando a cotovia em espirais ligeiras esvoaça pelas alturas, como que pedindo ao azul luz, muita luz, vibrando um inefável concerto matutino em dueto com a estrela da manhã.
III
Depois à tarde, quando as cores sombrias e pálidas do crepúsculo se esbatem pelos outeiros e o sol como uma enorme águia de oiro, morrendo pelo espaço sacode, nuns estrebuchamentos moribundos as suas asas rutilantes pulverizando de oiro os topos das montanhas, ela, a pastora dos cantares, recostada dolentemente na macia rede de verde-escuro, baixa o rosto entristecido e interrogando os seus leais companheiros, os animaizitos do monte, e as flores dos vales e as rochas de granito, e os gemidos da fonte, e as brisas que perpassam e conta-lhes a história triste de uns amores passados, extintos por uns caprichos ligeiros do namorado, e, arquejando-lhe o peito com volúpia e saudade, soluça melancolicamente e comove as florzitas e as águas e os vassalos do seu palácio e até as próprias rochas, lá pela tarde quando as cores sombrias e pálidas do crepúsculo se esbatem pelos outeiros e o sol como uma enorme águia de oiro, morrendo pelo espaço, sacode nuns estrebuchamentos moribundos as suas asas rutilantes, pulverizando de oiro os topos das montanhas.
IV
Mas quando a escuridão passa a aguada lucubre pela tela do espaço e as aves da noite, vigilantes como o pensamento, gemem um miserere de mágoas nos ramos dos pinheiros, lá pela quebrada das serras, ela, despedindo-se com a oração da noite do tecto azul cravado de pregos de prata, recolhe-se à sua alcova cavada nas rochas, aquela gruta sombria, medonha e bela, arquitectada em colunas toscas de granito, que parecem gigantes negros abraçados num amplexo de paz, e na sombra e na tristeza, deita-se e dorme tranquilamente; ora sonhando umas fantasias orientais, ou sensações voluptuosas quando a lua coa um raio pálido e morno pelas florestas da gruta; ora sonhando um pesadelo horrível e majestoso, quando a orquestra da tempestade açoita a floresta e a penedia, em acórdãos de desespero, lá quando a escuridão passa uma aguada lúgubre pela tela do espaço, e as aves da noite, vigilantes como o pensamento, soluçam um miserere de mágoas nos ramos dos pinheiros, lá pelas quebradas da serra.
V
Uns chamam-lhe a pastora dos cantares, outros a rainha dos bosques, outros a poesia bucólica e eu chamo-lhe a minha amada, àquela que lá no alto da Penha, no píncaro mais esguio da serra namora e canta a natureza, os encantos agrestes das colinas, a solidão das grutas, os gemidos das fontes, os matizes das flores, as ramagens das florestas, as searas dos campos, e ri com a alvorada, e suspira com a tarde e entristeço com a noite e canta e canta... ora faz adormecer a alma em sonhos de delícias, ora a faz voar, voar... em asas de luz pelo espaço fora... uns chamam-lhe a pastora dos cantares, outros a rainha dos bosques, outros a poesia bucólica; e eu chamo-lhe a minha amada.
Caldas de Vizela — Agosto — 1887.

Bráulio Caldas.
Aurora da Penha, n.º único, Guimarães, 29 de Agosto de 1887, p. 11
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