1 de setembro de 2013

Prantos de um cigarro High-Life


O fervor que os membros da Sociedade Anti-Fumista de Guimarães colocavam na sua causa deram origem a uma acesa discussão nas páginas dos jornais, onde não faltavam as notas do bom humor. O autor das Cartas dum anti-fumista, que durante algum tempo se publicaram em O Comércio de Guimarães, deu conta, na sua crónica de 30 de Setembro de 1904, dava conta de um bilhete postal ilustrado que lhe tinham mandado, que revela em quem o enviou, um espírito finamente engraçado, que sabe brincar sem ofender.

Representa o postal um infante de cuecas, fumando um enorme cigarro.
Acompanham-no duas quadras, das quais a primeira reza assim:

“Não se cansem, meus senhores,
Que por um anti-fumista
Surgem trinta fumadores
Como este que tem à vista.”

Embora não o postal não viesse assinado senão por um anti-fumista in herbis, não será muito difícil de adivinhar que os seus autores eram os irmãos João (as quadras) e José de Meira (a ilustração).

Da pena de João de Meira são também os versos com os Prantos de um cigarro High-Life, distribuídos num folheto não assinado, onde um cigarro se lamenta do abandono para que foi atirado pelos nove fundadores da Sociedade Anti-Fumista. Aqui fica.


PRANTOS DE UM CIGARRO HIGH-LIFE
Oferecidos à SOCIEDADE ANTI-FUMISTA
GUIMARÃES
6 DE DEZEMBRO DE 1904

Reverendo Roriz, que triste sorte,
Que amarga vida levo sem cessar,
Des’que a guerra cruel, guerra de morte,
Contra mim não acabas de pregar!

Que mal te fiz, que mal te fiz, diz lá ?
Para me ter’s um ódio assim tão louco?
Tinhas tosse e pigarro de manhã?
Só por isso, meu padre, era bem pouco.

E tu meu João Lopes, meu amigo,
Companheiro fiel de tantos anos,
Vinhas, há pouco, espairecer comigo,
Não cessas, hoje, de causar-me danos.

Jerónimo Sampaio, meus queixumes
Queira Deus, que o bom Deus jamais esqueça:
E por cada cigarro que não fumes,
Um cabelo te caia da cabeça!

António do Amaral, és inda moço,
Deixaste-me num’hora de folia.
Mas ainda hás-de ver o quanto posso.
Pra cá virás, p'ra cá virás um dia!

Quem te viu, padre Amândio, e quem te vê!!!
Já tanto me aborreces e me enjoas,
Que voltando um instante à minha fé,
Logo dás de penitência cinco c’roas!

Freitas Costa Soares e Padre Abílio,
Alferes Brito e os mais da associação.
Vós que me condenaste a longo exílio
Um momento, arranjai de compaixão,

Tende pena de rnim, triste cigarro
Que a todos vós mer’ci já confiança
E que bem penso que outra vez a agarro:
É essa pelomenos minha esp‘rança.

E agora terminando, ingrata gente.
Ouvi as queixas e não deis cavaco!
Dum cigarro que busca docemente,
Anti-fumistas, dar-vos p‘ra tabaco!!!



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