2 de setembro de 2013

Efeméride do dia. A Tesoura de Guimarães

Cabeçalho do primeiro número de A Tesoura de Guiamrães

2 de Setembro de 1856
Terça-feira.- Saiu o 1.º n.º de "A Tesoura de Guimarães", periódico político, instrutivo e noticioso, sendo o seu principal redactor José Inácio de Abreu Vieira; foi impresso na tipografia de Francisco José Monteiro, na rua Caldeiroa, nº 32, sendo aí o escritório da redacção. Era bi-semanal - terças e sextas feiras. O nº 134, o 1º nº que se publicou em Janeiro em 1858, já foi impresso na Tipografia Vimaranense de "A Tesoura", rua Donães nº 13, sendo a redacção em casa do redactor, ao Arco de S. Francisco, porque aquela tipografia passou a imprimir o"Berço da Monarquia". A tipografia mudou para a casa nº 48 da rua Nova do Muro, onde já foi impresso o nº 207. Em 28 de Janeiro de 1859, como nº 241, no qual declarou interrupção no jornal, por a tipografia ter novo possuidor que a exigia forçosamente para cumprimento de contrato por ele feito.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 223.)

O primeiro jornal de Guimarães chamava-se O Azemel Vimaranense. Foi fundado por José de Sousa Bandeira e publicou-se entre os anos de 1822 e 1823. Passariam mais de três décadas até que, em Guimarães, surgisse um novo empreendimento jornalístico, A Tesoura de Guimarães, cujo primeiro número saius à rua no dia 2 de Setembro de 1856. Apresentava-se como um periódico político, instrutivo e noticioso, publicando-se às terças e às sextas-feiras. José Inácio de Abreu Vieira era o seu redactor principal.
O seu título remete para um dos produtos da indústria vimaranense que, na altura, davam fama a esta terra, a tesoura, e prometia cortar a direito. Anunciava-se como um periódico político, defensor de um modelo de governo monárquico-representativo e da Carta Constitucional, isenta de sofismas, e tão pura como saiu das mãos do seu Autor, por ser este o caminho mais seguro para o progresso intelectual e material, sem o qual não pode dar-se verdadeira civilização absolutamente necessária para a felicidade das nações.
Havia muito tempo que se falava da necessidade de se voltar a editar um jornal em Guimarães. Em meados da década de 1850, foi anunciado o projecto da Tesoura de Guimarães. Foi distribuído um prospecto em que se esclarecia que o novo periódico avançaria assim que tivesse encontrado um número de assinantes suficiente para a cobertura das despesas.
Porém, quando foi lançado, esse número ainda não tinha sido encontrado. José Inácio de Abreu Vieira explica porquê:

Dissemos: que este Periódico seria publicado = logo que tivesse número suficiente de assinaturas, que cobrissem as despesas = mas, se esperássemos que se verificasse esta circunstancia, muito tínhamos que esperar.
O nobre e o plebeu; o rico e o pobre; o literato e o leigo; tudo lamentava a falta duma imprensa; a falta dum Periódico nesta cidade. Tudo lamentava; mas ninguém fazia um esforço para pôr termo às lamentaçõe. Chegou a resolução; apareceu o prospecto; anunciou-se a publicação dum tão desejado periódico pelo diminuto preço de 2$400 rs. Por ano, 1$300 réis por semestre, e 720 réis por trimestre — terminou esse ansioso, e unânime desejo; acabou o geral entusiasmo— Uns querem saber, quem são os redactores; outros não gostam do título, querem seja substituído por outro pomposo; como = O Berço da Monarquia, ou semelhante = outros temem o corte da tesoura; outros, enfim, mas estes são mui raros, acham a instituição supérflua; porque tendo de ser publicado duas vezes por semana, dará notícias atrasadas.
O desejo de todos era a imprensa; era o periódico; e não que este, ou aquele, fosse redactor. Cumprimos a Lei. Aí está o nome do redactor principal, isto é, do responsável; o resto que importa? pelo dedo se conhece o gigante, pelo dedo se conhecerá o pigmeu, ou, pelos seus frutos os conhecereis. Pela mesma forma nunca ouvimos, se fizesse questão do nome. Temos conhecido dois Periódicos nesta cidade: um denominava-se — O Azemel outro = O Artilheiro*.
O título de condutor de macho, ou mula de carga, azémola, não é dos mais pomposos; e o Artilheiro, com as suas bombas. que estoiravam nas trombas, não impunha medo a pessoa alguma.
Para contentar o número mais pequeno diremos: que as vantagens dum Periódico não estão encerradas na parte noticiosa. Se todos assim pensassem, voltaríamos ao tempo da Gazeta de Lisboa, e com ficariam satisfeitos todos os ânimos; mas Valença, Viana, Braga, Porto, Aveiro, Lamego, Videu, Coimbra, Leiria, Santarém e Setúbal têm um, e mais, periódicos, e em todas estas Cidades e Vilas se recebem folhas de Lisboa com notícias, e, nem por isso, se julgam supérfluos os seus periódicos, nem Guimarães o julga pelo voto quase unânime dos seus habitantes, e dos Concelhos vizinhos, cujos interesses são idênticos.
O comércio, com poucas excepções, tem assinado; muitos artistas, apenas com meios para a decente subsistência, já assinaram; a principal nobreza assinou; e se muitos cavalheiros, e. ricos proprietários ainda o não fizeram, não é isto devido ao espírito de oposiçao, nem pronunciamento contra a utilidade da medida.
Não há número suficiente de assinaturas, que cubram as despesas; e como há-de havê-las? queriam os homens da Empresa, que os habitantes desta cidade e Concelho viessem à redacção dar os seus nomes e declarações? quantos deles nem sequer viram um Prospecto? Não sabemos nós de sobejo como se promovem tais assinaturas? Quem as tem solicitado em Vila Nova de Famelicão, Barcelos, Viana do Castelo, Caminha, Valença, Monção, Melgaço, e Ponte de Lima?
Além disto, a Tesoura de Guimarães só deve ser lida na Província do Minho? Imprimiram-se os Prospectos para se acharem fechados em uma gaveta? Porque j pio ultrapassam eles o Tâmega, o Douro, o Mondego, Tejo e a Serra de Monchique? porque não ultrapassam o Grande Oceano, além do qual se acham vantajosamente estabelecidos tantos dos nossos conterrâneos, sempre ansiosos por terem notícias do lugar em que nasceram, que às vezes têm relação com suas próprias famílias e bens?
Não há assinaturas suficientes; e querem havê-las deitados na cama ou encostados no canapé, abanando-se com o leque para mitigarem o calor?! Não se pescam trutas a barbas enxutas. Sem que os meios sejam postos, não podem conseguir-se os fins.
Se, postos os meios, os fins não corresponderem, diverso será nosso modo de falar; por agora dizemos: que a Empresa não podia por mais tempo ter o publico em expectativa, sabendo, como sabe, que a maior parte dos obstáculos que encontrou, depois mesmo de resolvida a publicação do Periódico, foi devida à sua inactividade.

O primeiro número da Tesoura abria com um longo texto intitulado A Política, em que explicava os principais modelos de governo existentes: o Monárquico, o Aristocrático e o Democrático ou Republicano.
Sobre o governo Monárquico:
O Monárquico, propriamente assim chamado, é despótico ou absoluto.
O Governo Despótico é o governo da ignorância; da tirania; é o que põe os homens a par dos brutos. O Monarca despótico reina e governa conforme a sua única vontade, segundo os seus apetites. A lei é o seu querer, a execução dela o seu capricho. Debaixo dum tal governo ninguém pode contar com a sua humildade, com a sua cega obediência, com o fruto do seu trabalho; a liberdade do cidadão vassalo, sua fortuna; sua honra, e sua vida está, sem o menor obstáculo, à disposição do Monarca, que é despótico.
Sobre o governo aristocrático:
O Governo Aristocrático não é exclusivamente dum Soberano ou Chefe Político, nele tomam parte os Nobres, e os que exercem os principais cargos do Estado ou República. Concedemos, que este governo seja preferível à da monarquia pura; mas nem por isso desejamos, homem do povo que somos, viver sujeito a ele.
Sobre o governo democrático:
O Governo Democrático, vulgarmente chamado Republicano, esse papão dos inocentes e dos Herodes, é o mais conforme com a razão, e seria o mais próprio para reger e governar os homens dum Estado, ou Nação, se porventura estes homens tivessem instrução e virtude; se porventura não existissem Soberanos, ou a sua existência fosse uma tradição.
Entra no número dos impossíveis a organização duma Nação de sábios; e ainda mais impossível é o mudar a natureza, ou inclinação do homem.
Analisados as diferentes variantes destes três modelos de governo, o articulista da Tesoura de Guimarães apresenta aquela que considera ser a melhor solução para a governação do país:
a Monarquia representativa, na qual o Rei reine e não governe; na qual o supremo poder esteja na lei, cuja conveniência e organização seja dependente tanto do Monarca, como das duas classes da Nação – Nobreza e Povo – de tal forma que a Nobreza, na qual se compreende o Clero, delibere de per si; o Povo delibere de per si; sendo nulas ambas as deliberações, quando não sejam conformes; ou quando, ainda que o sejam, não tenham a sanção e confirmação do Rei.
Nunca deixando de assumir a sua vertente noticiosa, a Tesoura será sempre uma publicação de carácter essencialmente político. A partir da segunda metade de 1858, começa a ser dado como afecto ao Partido Regenerador. No n.º 207, de 1 de Outubro de 1858, o jornal respondia-se aos que o chamavam regenerador:
Jornais regeneradores! Não foi esse o nome, que recebemos no baptismo, nem vemos no contemporâneo jurisdição para poder crismar-nos; contudo não vemos também obstáculo a que se chame regenerador a um jornal cartista; porque, pondo de parte o acto adicional nunca vimos, que a Carta fosse melhor executada do que no tempo do governo regenerador.
No dia 28 de Janeiro de 1859, uma nota inserida na última das quatro páginas de A Tesoura de Gumarães, anunciava-se a interrupção da sua publicação, por razões que se prendiam com a passagem da propriedade da tipografia onde era impresso para um novo possuidor. A suspensão duraria até que o jornal estivesse habilitado com nova tipografia.
A suspensão seria definitiva. Naquele dia, com o número 241, terminava uma das mais interessantes experiências jornalísticas vimaranenses.

* O Artilheiro, que tinha como redactor o principal mentor do Azemel Vimaranense, José de Sousa Bandeira, não era um jornal de Guimarães, mas sim do Porto.


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