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Efeméride do dia: Entre o encantamento e o pressentimeno: chuvas de estrelas e auroras boreais

Chuva de meteoros

23 de Agosto de 1883
5ª-feira. À noite foi visto nesta cidade, atravessando o horizonte, um meteoro luminoso, com um chama fulgurantíssima que por tempo de alguns segundos derramou sobre nós um esplêndido clarão.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 172 v.)
Nos tempos modernos, o homem comum foi perdendo o hábito de olhar o céu. A iluminação artificial nocturna das nossas cidades, ofuscando o brilho das estrelas e de outros corpos celestes, retirou aos habitantes das cidades o prazer de observar o céu estrelado e identificar as constelações, as fases da lua, os eclipses, a passagem dos cometas, as estrelas cadentes e outros fenómenos celestes mais ou menos comuns. Não era assim no passado, no tempo em que os homens tinham pouco mais do que a luz da lua para lhes iluminar as noites. Nesses tempos, prevalecia a crença de que os fenómenos celestes determinavam a vida dos homens, despertando, geralmente, sentimentos de medo e de impotência.
Em de Agosto de 1883, caiu sobre estas terras uma vaga de calor. Escreveu-se no Religião e Pátria:
Tem feito um calor verdadeiramente tropical: a gente esmagada sob o peso duma atmosfera abrasadora, debalde procura um oásis de frescura no meio deste ardentíssimo Saará.
No dia 23, a cidade amanheceu com um desastre: um pavoroso incêndio, deflagrou numa casa na Senhora da luz, em Creixomil, onde só estavam duas crianças, a mais velha das quais com três anos (os pais haviam saído para trabalhar no campo). Disse-se que o incêndio teria sido ateado pela criança mais velha, que teria uma caixa de fósforos à mão, atingindo o enxergão onde estava a outra criança, ainda de peito, que a custo seria retirada das chamas, sendo levada para o Hospital da Misericórdia, com queimaduras graves. Não sobreviveria.
Quando, nessa mesma noite, provocado por uma brincadeira de crianças, foi avistado no céu um meteoro luminosos, com uma chama fulgurantíssima, não faltou quem o visse como o anúncio de mais tragédias que estariam para acontecer.
No dia 27 de Novembro de 1885, as gentes de Guimarães observaram no céu um memorável espectáculo cósmico, com uma chuva de meteoros a tracejar o firmamento com os seus rastos luminosos, que suscitou encantamento e despertou pressentimentos funestos. O Religião e Pátria descreveu o prodígio no dia seguinte:
Ontem à noite presenciou-se nesta cidade um curiosíssimo fenómeno meteorológico. Foi uma formosíssima chuva de estrelas cadentes, ou bólides, que se cruzavam com intenso rasto luminoso em toda a abóbada celeste.
Não faltaram comentos populares, nem os sustos de alguma desgraça iminente.
Em todas as janelas e ruas se viam grupos alongando o pescoço para o céu para presenciarem o fenómeno.
Nesse mesmo dia, 28 de Novembro de 1885, acontecia a desgraça que a chuva de estrelas da véspera parecia prenunciar. O jornal O Comércio de Guimarães, num suplemento publicado na madrugada do dia 29, noticiava uma afronta com uma dimensão de que não havia memória em Guimarães:
Os procuradores à junta geral por esta cidade foram ontem vítimas em Braga, da mais brutal selvajaria, de que só por um acaso feliz saíram incólumes.
Em plena cidade, à hora do dia e sem a mais pequena intervenção da autoridade, quando regressavam em carro para Guimarães, foram apupados e apedrejados aos gritos de — morra Guimarães — por uma multidão imensa composta de mais de 2.000 pessoas.
E o Religião e Pátria abriria a descrição da ocorrência do dia 28 com um brado:
Um facto inaudito, um atentado de que não há exemplo na história dos povos civilizados, acaba de levantar uma barreira incomensurável entre esta cidade e concelho e a capital do distrito.
Estava aberto a manifestação mais aguda da rivalidade brácaro-vimaranense, que se prolongaria pelo ano de 1886 e que, entre outras consequências, determinaria o fim do último governo de Fontes Pereira de Melo. Foi antecedido por uma chuva de estrelas premonitória.
Embora sejam fenómenos raros nestas paragens, em Guimarães também há notícia de auroras boreais, belas e ameaçadoras.
No dia 7 de Janeiro de 1831, os sinos das torres de Guimarães tocaram a fogo. Ao longe, do lado do Norte, levantava-se um fumo vermelho. Aqueles eram tempos de guerra civil e os voluntários realistas, apoiantes de D. Miguel, logo se levantaram em armas. Vinham aí os constitucionais, dizia-se. Afinal, soube-se depois, era uma aurora boreal.
Uma outra aurora boreal foi avistada, despertando velhos medos, na noite  de 23 de Outubro de 1870. Escreveu-se no Imparcial:
Aurora boreal  Às 8 e meia horas da noite viu-se ao norte de Guimarães este fenómeno, pouco vulgar no nosso país, que encheu de pânico o povo sempre atreito a explicar tudo pelo sobrenatural.
O fenómeno repetir-se-ia no dia 4 de Janeiro de 1885, como se lê em O Comércio de Guimarães do dia seguinte:

Ontem ao anoitecer apareceu no nosso horizonte uma bonita aurora boreal, que durou cerca de 3 horas e meia.

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