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Dos efeitos de andar de carruagem quando só se tem para o jumento

A Tesoura de Guimarães, n.º 100, 28 de Agosto de 1857

Quando, no Verão de 1857, se começou a discutir o traçado da Linha do Minho, que ligaria o Porto à Galiza da via-férrea, o redactor principal do jornal A Tesoura de Guimarães, José Inácio de Abreu Vieira, deu conta das suas reservas à prioridade no investimento no transporte por carril de ferro, num país onde faltavam as infraestruturas rodoviárias. Escrevia na edição do dia 21 de Agosto:

Desejamos com ansiedade ver os rios encanados e navegáveis, e as suas barras livres, e desembaraçadas para a franca passagem desses armazéns, casas, palácios, e castelos flutuantes; e, com mágoa, não vemos mais do que dilatadas correntes cheias de baixos, e cachopos, com portos obstruídos! Qual será o motivo? — Todos respondem: não há meios para obras tão dispendiosas.
Desejaríamos depois disto boas estradas de ferro, prata, ou ouro, se as nossas possibilidades o permitissem, e os nossos interesses reais o demandassem, preferindo-as sempre no terreno, em que faltasse outro meio de cómoda e rápida comunicação.

No dia 25, ao divulgar a representação que a Câmara de Guimarães dirigiu ao rei, em que alertava para a conveniência de se derivar daquela linha um ramal, que tocando nesta mesma cidade siga depois pelos concelhos de Braga, Esposende, e Barcelos, escrevia:

De resto, tanto a ela nos não opomos, que até a aconselhamos. Se devemos pagar, e é “vantajoso”, um caminho-de-ferro do Porto a Vigo, de melhor vontade pagaremos, e mais vantajoso será ao comércio em geral, que as vilas e cidades do interior se comuniquem rapidamente com as vilas, e cidades marítimas, e que por esta forma se nos dê no espaço de anos, uma estrada tal, que ponha o Porto, Vila do Conde, Póvoa do Varzim, Santo Tirso, Guimarães, Braga, Barcelos, Esposende, Viana, Caminha, Valença, Monção e Melgaço tão próximas umas das outras, que sejam todas elas consideradas uma, e a mesma cidade; fazendo-se desta sorte um caminho verdadeiramente comercial para a província do, Minho, e não uma via de comunicação entre Vigo e o Porto mais própria para tomar banhos do ar do mar, do que para promover os menores interesses da província.

Perante os que lhe estranhavam a aparente contradição entre o que defendera no dia 21 e o que escrevera no dia 25, José Inácio respondeu no dia 28, com uma história que é uma parábola aos custos que resultam do endividamento com investimentos que estão para lá daquilo que é comportável. Aqui fica, até porque continua a servir como uma luva ao Portugal de hoje:


Se é melindroso e difícil o falar e, ainda mais, o escrever na presença de homens de instrução e de saber, não é menos melindroso o falar e escrever perante aqueles que, tendo-se aplicado ao estudo com leviandade, não chegaram a esclarecer o seu entendimento a ponto de distinguirem e poderem apartar o bom do mau, ou mesmo de compreenderem o que se afirma, ou se nega, quando esta afirmativa, ou negativa deixe de ser exprimida pura e simplesmente, pelos advérbios: = Sim — ou — Não =.
É com estes que vamos hoje ocupar-nos, visto que acabamos de descer da cadeira em que nos havíamos sentado para dar uma lição de instrução primária, pedindo por isso desculpa aos nossos leitores assinantes, que não tendo coisa alguma com as nossas obras de misericórdia, faltar-lhes-á a paciência com a repetição de nossas lições — Os argumentos serão inúteis; e então, recorrendo ao exemplo, conseguiremos o fim reunindo ao útil o agradável.
Eis uma história.
No tempo em que o lugar das Taipas tinha o nome de Dornelas e não, como hoje tem, de Caldelas, existia ali um pequeno proprietário que, sendo viúvo, tinha ficado usufrutuário dos bens de sua finada mulher, com poderes de cortar, contrair dívidas, hipotecar etc. (menos de vender) e juntamente tutor de cinco filhos menores, que tivera daquele matrimónio, o mais velho dos quais tinha 24 anos e o mais novo 15, pertencendo os dois mais novos ao sexo feminino.
O nosso proprietário, conquanto fosse de sangue nobre, não tinha suficientes meios de ostentar sua nobreza, mas antes lhe era necessário e a seus filhos exercerem ocupações mecânicas para viverem livres de privações. Suas pequenas propriedades eram situadas em distância umas das outras, todas um pouco desviadas da estrada entre Guimarães e Braga. Sendo-lhe difícil cuidar na sua cultura em tais distâncias deu, para habitar e granjear, debaixo de sua mediata autoridade, uma delas a cada um de seus filhos varões, reservando para si e suas filhas a mais importante delas, aonde ainda se via o escudo de suas armas, situada no dito lugar de Dornelas.
Um dia, foi obrigado a ir a Guimarães e, em seguida, a Braga; e em ambas estas grandes povoações viu coisas que o admiraram e entre estas algumas carruagens, tendo o cuidado de indagar de quem eram e o uso que delas se fazia e podia fazer.
Entregue a estas meditações, reuniu, sem saber ainda o que era governo constitucional, todos os seus filhos, e lhes dirigiu estas palavras:
“Mal posso já visitar os nossos bens, tão separados uns dos outros, e ainda menos cuidar dos negócios, que daqui em diante me chamam continuadamente ora a Guimarães, ora a Braga, — vi nesta cidade e naquela antiquíssima vila o modo como pessoas de sangue menos ilustre que o nosso vão de um lugar para o outro com grande velocidade, sem se fatigarem, porque vão assentados, sem se molharem com a chuva, porque vão abrigados, metidos em um cubículo colocado sobre quatro rodas, puxado por dois, ou quatro, cavalos, ou machos, a que chamam carruagem. É este um excelente modo de caminhar, que estou resolvido a adoptar não só para minha comodidade, mas também para a vossa, porque escusais assim recear fadigas de caminhos e as irregularidades do tempo.
“Demais tu, meu António, fazes chapéus de palha centeia; tu, meu Tomé, fazes carapuças de lã; tu, meu Manuel, fazes colheres de pau, e as raparigas tecem lenços de linho, que vendem aqui, como vós as vossas obras, por preço baixo, quando no tempo de banhos os doentes vêm procurar a saúde metidos nessas dornas de água enxofrada, podendo aliás ir as vossas manufacturas dentro dessa carruagem aos mercados do Braga e Guimarães, aonde em todo o tempo terão pronta e vantajosa venda. Como porém isto demanda despesas avultadas, não quero pôr em execução o meu intento, sem vos ouvir”.
Os dois filhos mais velhos disseram — “Que muito desejavam as suas comodidades, e mais ainda as de seu pai; porém que confrontando estas com as possibilidades da casa, viam não era conveniente obtê-las por tal meio.
“Que uma carruagem custava muito dinheiro; que era depois mister comprar cavalos, ou machos; tomar criados, pagar grandes soldadas a estes, e sustentar estes e aqueles. Que para isto era indispensável tomar dinheiro a juros, que nunca poderiam ser pagos com os lucros da exportação de suas manufacturas, pois que se naquele lugar se vendiam por baixo preço, por mais baixo se venderiam nas grandes povoações, aonde havia muito quem comprasse, mas ainda mais quem trabalhasse, e com mais perfeição, que em Dornelas. Que, se seu pai não podia andar a pé, se comprasse um jumento e, para se não molhar, uma capa de oleado. Que o jumento era de pouco valor, e parco sustento, não demandando criados para o seu tratamento. Que no mesmo jumento se podiam levar as manufacturas, e que, se estas dessem lucros suficientes, se compraria um macho, dois ou três, e por fim a carruagem, ou ficaria simplesmente o jumento para a comodidade de seu pai, quando se não tirassem lucros proporcionados, e que desta sorte se conservariam os poucos bens, que tinham.”
O filho mais novo, unido às meninas, foi de opinião contrária e, todos juntos, apuparam os dois mais velhos, dizendo-lhes: que eles pertenciam a outro sangue de plebeus, negando-se à ostentação da nobreza e às comodidades daquele que era tido por seu pai, e a quem deviam a educação, e a vida. — A carruagem não foi mais objecto da dúvida.
Vieram franceses, vieram ingleses, vieram ir espanhóis. Todos queriam contratar a carruagem, que por fim foi encomendada àquele que por ela pediu preço mais elevado. Contraíram-se empréstimos, hipotecaram-se os prédios, e... ei-la aí a rodar para Brag, e Guimarães, para a igreja, para os vizinhos, e para as propriedades, menos para aquelas em que habitavam os dois filhos mais velhos. Vendo aqueles o desprezo com que eram tratados, elevaram uma representação a seu pai, na qual lhe expunham: que deram o seu parecer, reprovando a carruagem, porque desejavam a seu pai uma comodidade duradoura, livre de todo o risco, que anda sempre anexo aos grandes acontecimentos, e a seus irmãos um interesse seguro à sua indústria, sem receio de perderem os poucos bens que seus passados lhes transmitiram; uma vez, porém, que seus conselhos foram desprezados e tudo foi entregue à eventualidade, seria duplicada injustiça negarem-lhes também a eles representantes as comodidades transitórias de que os outros se utilizavam com o sacrifício da futura subsistência deles representantes, concluindo por pedir, que a carruagem rodasse igualmente para suas casas.
O pai leu a representação perante os filhos mais novos que, batendo as palpas, disseram. — Nada, nada. Isso é uma contradição. A carruagem não oferecia vantagens e agora querem a carruagem! contradição, contradição. Eram dois impostores. Não devem ser atendidos. — O pai, porém, fez o que entendeu, e todos metidos na carruagem levaram as suas manufacturas a Braga e Guimarães.
Expostas nos mercados, nem sequer para elas olhavam. — Os chapéus de palha centeia ficaram sem valor, à vista dos de palha de arroz e de junco de Itália; as carapuças negras, à vista das alvas de algodão e daquelas de variadas cores das fábricas estrangeiras; as colheres de pau, à vista das de prata e daquelas de casquinha e metal príncipe vindas do estrangeiro; e os lenços de linho, à vista dos de cassa finíssima e dos de seda espanhola e francesa. — Tornaram na carruagem para Dornelas, a fim de serem ali vendidas no tempo dos banhos nas dornas.
Mas o caso foi outro. Os criados de farda que, por mais peritos, eram franceses, ingleses, alemães e russos, não iam vez alguma a Braga e Guimarães que não levassem para Dornelas os bolsos e assentos da carruagem cheios de chapéus, carapuças, colheres e lenços e, no tempo dos banhos, abriram uma loja destas e outras manufacturas estrangeiras, que tiraram todo o valor às dos nobres imprudentes. — Os juros do dinheiro deixaram de ser pagos; venderam-se os machos; despediram-se os criados, e a carruagem ficou às moscas. — Vieram as penhoras; e, quando se quis comprar o jumento e a capa de encerado, já não havia com quê. — O pai morreu de paixão e os filhos foram para as cortes da Europa aprender a fazer chapéus, carapuças, colheres, e tecer lenços de seda.
Acabou-se a história. Agora, tirando do conto a moralidade, digam aqueles a quem nos dirigimos: se o segundo artigo do n.° 99 da Tesoura de Guimarães está em contradição, com o que havíamos dito sobre caminhos-de-ferro: e se estes são convenientes para na actualidade, levar as nossas mercadorias aos países estrangeiros?
José Inácio de Abreu Vieira.

A Tesoura de Guimarães, 28 de Agosto de 1857

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