18 de julho de 2013

Frei Domingos Pedreira, por João de Meira

Terreiro da Misericórdia, no início do séc. XX. À direita, em primeiro plano, a Casa dos Coutos.

Não fora a vida ter-lhe sido tão curta, seria de esperar que João de Meira desenvolvesse os seus estudos históricos, ajudando a iluminar esse tempo tão mal conhecido da primeira metade de oitocentos. Havia recolhido materiais e testemunhos com esse propósito, mas faltou-lhe o tempo para os trabalhar como prometia. No entanto, publicou alguns textos que nos permitem esclarecer alguns episódios desses tempos de pouco brandos costumes. Aqui fica um deles, onde, a propósito da Revolução de Setembro, nos fala de um dos clérigos vimaranenses que naqueles tempos se destacavam por pelas malfeitorias a que se dedicavam, frei Domingos Pedreira.
Vale a pena ler.

Revolução de Setembro
Passa o aniversário de uma época da nossa história que não é ocioso rememorar; vai fazer 66 anos que a guarda nacional e o povo obrigaram a rainha a revogar a Carta de D. Pedro e a proclamar de novo a velha Constituição de 1822.
Chamou-se a isso “Revolução de Setembro” e assim foi lançada à margem essa Carta, origem de uma guerra civil, que fora em Guimarães aclamada e jurada com grandes festas em 31 de Julho de 1826, reaclamada em 1 de Junho de 1828 e terceira vez jurada na presença do general comandante da divisão de operações do norte do Douro, Barão do Pico de Celeiro, em 28 de Março de 1834.
Esta revolução, realizada com uma facilidade e uma presteza que espantou os vencedores, não significava, ao que parece, a.grande força destes, mas a podridão e o decaimento das coisas vencidas. Dois anos de sistema constitucional e de Carta traziam a maioria dos políticos desgostosos e desapontados. O governo, a que presidia Terceira, sentia-se abalado e mal seguro. Nas câmaras, Manuel e José Passos, Rodrigues Sampaio, Costa Cabral, José Estêvão e outros faziam-lhe uma oposição veemente, uma luta tão acesa que ele teve de dissolvê-las e fazer novas eleições.
Por quase todo o reino andava um fermento de revolta que era o último arranco da liberdade moribunda; mas aqui em Guimarães o Setembrismo tinha poucos amigos e, fora alguns miguelistas, como o Domingos Cardoso de Macedo, capitão-mor no tempo do absolutismo e o Gaspar Leite, do Cano, que em Dezembro de 1836 foi preso em uma quinta ao pé de Limdoso por se achar envolvido numa sedição, todos eram cartistas ou “chamorros” como os outros lhes chamavam.
E, a propósito, lembra-nos agora um episódio daquele tempo, que vamos contar.
Sucedeu ele em 1838, governando os setembristas sob presidência do Marques de Sá da Bandeira.
O reino atravessava então esse período agitado que só veio terminar depois de 1851. Dois anos atrás, dera-se a revolução de Setembro e a Belenzada; um ano antes a sedição dos Marechais,
Naquele mesmo ano de 1838, em Lisboa, ao recolher a procissão de “Corpus Christi”, houve tumultos graves provocados pelo partido da “Montanha”. Costa Cabral, acompanhado de Silva Carvalho, salvou-se então num trem à desfilada, disparando as pistolas sobre a multidão, e Sá da Bandeira deveu a vida à condecoração contra que se embotou a baioneta que lhe enviaram ao peito.
Em Braga, no mês de Junho, por uma questão de décimas, o povo sublevara-se, não conseguindo contê-lo o administrador interino Marques Murta, enfiado de pavor, e sendo necessário publicar a Câmara um bando anunciando que imediatamente representaria à rainha para que diminuísse o peso dos tributos. O cónego Montalverne, perseguido, escapou por uma unha negra.
Em Guimarães, pela mesma ocasião, davam-se também tumultos por causa de contribuições vexatórias. A Câmara esbanjava os rendimentos, onerava os contribuintes e gastava cem mil réis em pintar o mono de pedra que estava sobre a Alfândega, quando a despesa de meia moeda feita com ele seria já uma exorbitância.
Pouco antes, o regimento, que era o 18 de Infantaria, sublevava-se em parte, dando vivas ao major e morras ao coronel José Teixeira de Mesquita (que veio a ser Barão das Lajes) em frente de sua casa no largo da Misericórdia. Fora necessário um acto de coragem para o domar e o capitão Peixoto expôs a vida quando no Campo da Feira, à frente da sua companhia, que se negava a obedecer-lhe, clamou: —“Ou marcham, ou mato-os e matam-me!” O Barão de Almargem, correndo à pressa da sua quinta de Caneiros, chegou quando já não era preciso.
Sete foram varados ao rufar do tambor, amarrados às oliveiras que ficam por cima do quartel, e com tal crueza que os algozes revezavam-se cansados. Um que era cabo morreu na Santa Casa e quatro estiveram às portas da morte.
As quadrilhas infestavam o país de sul a norte.
Na Gralheira, o padre Manuel Correia, de Cutelo, capitaneava uma horda que fuzilou dois homens ligados pelas costas um ao outro, entre o choro aflito da família.
Em Castelo de Paiva, um bando armado assaltou a cadeia, libertando um preso e assassinando o regedor.
No lugar da Madalena, na estrada de Vizela, um marchante era preso e roubado à hora do dia.
Andava assim o país quando isto se deu.
Naquele tempo o largo da Oliveira ainda conservava a sua fisionomia antiga com três renques de casas alpendradas sobre toscas colunas de pedra. O edifício da Câmara, a norte assentava sobre arcos em ogiva, coroado de ameias com a sineira ao meio e o relógio de sol a um canto; ao nascente fazia ressalto a torre quadrangular. Em frente da igreja erguia-se o padrão de Nossa Senhora da Vitória com o velho cruzeiro vindo da Normandia e num polígono de granito florescia a oliveira sagrada, miraculosamente reverdecida, que o brasão da vila representa.
Junto aos Paços do Concelho, na fachada do poente, era a hospedaria da Joana dos pastéis, a Joaninha da tradição e dos romances do Camilo. Cavalos tropeavam constantemente sob o alpendre, chegados de longe, ou retiravam para a alquilaria do Gaitas, do lado de baixo do Toural.
Através dos arcos da Câmara via-se a praça do Peixe e capela de S. Tiago onde, segundo a tradição, o santo apóstolo disse missa.
Nesse dia uns homens de aspecto suspeito e chapéu desabado enchiam o largo. Eram soldados do 18 vestidos à paisana e discípulos do Pinto Basto e do João Paulo Cordeiro, prontos a acudir ao grito de “Olaré!” desancando a facção contrária.
Era um domingo, o quarto de Agosto, que nesse ano de 1838 caiu a 26. Os portadores das actas das eleições de senadores e deputados, que se haviam realizado quinze dia antes em Famalicão, Basto e Vieira chegavam aos Paços do concelho, onde se devia fazer o apuramento. Eram 11 horas da manhã quando entrou o presidente da Câmara José Correia de Oliveira Mendes que, na conformidade da lei de 9 dea Abril de I838, artigos 57, 41 e § único-do mesmo, propôs a mesa por três vezes e sendo sempre rejeitada, fez proceder à sua eleição por escrutínio secreto.
Ao meio-dia suspendeu-se o apuramento e foram todos jantar. O presidente da Câmara, que era cirurgião, andou em visitas até às quatro da tarde, hora a que de novo se reuniram.
No largo da Oliveira reapareceram logo os homens suspeitos e seriam 5 horas quando ao brado de — “Preparar!” soltado para o destacamento de infantaria 18 por José Vaz Lopes, chefe do estado-maior do Barão do Almargem e candidato setembrista a deputado, surdiu de um portal o egresso graciano Fr. Domingos Pedreira, ganindo o clássico — ”Leva arriba camaradas!”. Na mão direita brandia uma espada e debaixo do braço esquerdo trazia um clavinaço de pederneira, aperrado. Seguia-o António dose Soares, estudante de Coimbra em férias, filho de um negociante da rua da Fonte Nova, armado de um punhal.
Os dois dirigiram-se para a casa da Câmara, acompanhados de caceteiros, espancando quem encontravam na passagem, e os moradores do largo, aterrados, trancavam as portas, enviesando olhares receosos através das janelas meio-cerradas.
O egresso era muito temido. Filho de um taberneiro de Trás-dos-Oleiros que fora pedreiro (dali a sua alcunha) tinha uma crónica larga de distúrbios mesmo quando ainda estava no convento. Veio depois a morrer miseravelmente nas Caldas das Taipas em 1839, varado por um tiro que lhe deu um ferreiro dos Pontilhões, que andava numa estúrdia com outros e umas moças. O frade e uns companheiros saíram a tirar-lhas. Fugiram todos e o ferreiro retirava também, diante dos sarilhos e varrimentas do egresso, quando, encostado a uma parede, não podendo recuar mais, clamou ainda com uns restos de prudência:
— Tenha-se senhor padre Pedreira, tenha-se que nos desgraçamos!
O padre não se teve. E lá ficou morto com um tiro de bacamarte na tábua do peito, em ceroulas, que assim saíra da cama em busca da morte.
O estudante não era tão afamado, mas prometia e não enganavam as promessas, pois que em Abril de 1842 o encontrámos preso por se achar envolvido na morte de um tal padre João de Bastuços.
Quando estes dois entraram na Câmara, os mesários e os demais fugiram aterrados e houve-os que só pararam em S. Torcato, como os portadores das actas de Cabeceiras de Basto e Vieira, este último com bastante razão, pois lhe arrombaram os aposentos que tinha em Guimarães e rebuscaram tudo em sua procura. Frade e acólito, muito à vontade, tomaram a urna e com ela debaixo do braço vieram pela praça de S. Tiago e rua da Cadeia para o largo da Misericórdia, entrando no palacete dos Coutos onde morava o coronel Mesquita. Aí se juntou ao Pedreira o escrivão Valentim Moreira do Sá (inseparável do egresso que tinha em casa dele uma manceba) e os três depois de, para bem exprimir todo o seu ódio, picarem todos papéis com o punhal do Soares, os queimaram com fogo vindo de casa de Teotónio Ferreira da Cunha e Carvalho, boticário da Misericórdia e vereador da Câmara que, além da intervenção pacífica do lume cedido, acompanhou o destacamento do 18 em buscas a algumas casas e à igreja da Oliveira, onde se haviam refugiado uns poucos de “chamorros”, que foram espancados, bem como o dr. Francisco de Meireles Leite, da casa da Ramada, em Cabeceiras, candidato a deputado, que foi levado em braços da rua de Santa Maria.
Quando veio a noite, padre e estudante retiraram, contentes da façanha e os portadores das actas de longe, ainda não refeitos do susto, redigiram participações indignadas ao Administrador geral.
O governo, porém, não agradecido aos esforços dos seus sectários, mandou em portaria de 9 de Setembro proceder a novas eleições, em que venceu porque os cartistas se abstiveram.
Diante desta narrativa, onde há tiros, varapaus e punhais, a gente chega a sentir vontade de abraçar os homens do “Não te conheço” de há alguns anos, por não terem usado para connosco de modos tão fortemente persuasivos como estes de quem apregoava a liberdade como seu ideal e seu lema.
Tais são as contradições humanas!
João de Meira

Independente, 1.º ano, n.º 42, Guimarães, 7 de Setembro de 1902
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