9 de maio de 2013

"O Palhaço", por Raul Brandão (3)



O Palhaço

A sua vida misteriosa e errante, dera-lhe aspectos e linhas, que todo sabiam exprimir: canduras e vícios, a lama e as perversões mais ignóbeis das cidades e o olhar terno das virgens... Tinha tics, olhares em gume, gestos simples que bastavam para sugerir desgraças, mágoas, a miséria da vida e tudo o que fere as almas sensíveis. Dir-se-ia que ele vivera de tudo e tudo conhecera: já fôra cocheiro, mendigo e director de bancos poderosos, poeta e príncipe, bandido na Calábria, e porventura amado por uma linda mulher, que de paixão se finara. Cá fora, finda a noite de circo era mudo, duma tristeza abandonada, destas tristezas em que parece que a gente se dilui, e absorto dobrava-se à beira da sua alma, como na margem dum lago negro.
Apenas, porém, entrava na arena, enorme! esquelético, calvo e metade vestido de branco, metade de púrpura — assim tivesse atravessado um rio de sangue ou a vida — logo a sua figura se transformava, e nunca clown soubera exprimir como ele o lado grotesco da desgraça, a amargura do riso. Ia à Morte e desconjuntava-a: entortava-lhe as pernas, punha-lhe a foice à banda e descobria-lhe a calva. Dir-se-ia que o seu riso era feito da experiência da vida e que esse palhaço fôra construído da lama de todos os vícios e das lágrimas de todas as amarguras...
Quando ele entrou na arena ainda Lucília, com um triste sorriso trabalhava no trapézio, a meio do circo. Era uma figura de doença e de sofrimento a desconjuntar-se, vestida de gaze verde na cúpula do circo. Sorria. A cada trabalho parava, agradecia em beijos atirados à multidão indiferente e gasta, que queria mais, sem lhe dar palmas, àvida de perigos e de sensações fortes. Desceu a corda sem uma palma, saiu, com o mesmo resignado sorriso na boca, dando o impressão duma pobre criatura despedida, corrida, tendo agora de, no frio e na lama, ir trabalhar exposta no riso duro das praças, nas grandes cidades...
Que se sabia da vida do palhaço? Apenas terminado o seu trabalho desaparecia mudo, sem um sorriso, e toda a noite ou todo o dia o passava no covil da casa de hóspedes, a tecer ideias e a sonhar... O bico aguçara-se-lhe, mais salientes os maxilares, mais funda a ruga que lhe cortava a face e duas ou três mechas de cabelo no crânio  davam-lhe como nunca uma expressão de mascara pícara e sinistra. A sua figura ossuda tomara maiores angulosidades  feitios desengraçados e torcidos. Bebia-lhe para se esquecer. Encontrou por acaso algum de vocês um homem que aflija como um remorso? Um velho que sintetize uma vida cheia de ilusões a princípio, depois batido e escarnecido, que dê a dúvida, medo de sonhar e vontade de só pensar no Oiro e na vida prática?... Tem-se um arrepio: pensa-se decerto: a minha quimera despedaçar-se-á como a dele e terei eu um fim de vida, por muito querer sonhar, de vilipêndio, e, o que é pior, sem ilusão?...
Assim de toda a sua quimera antiga, de todo o sonho que lhe esbraseava as noites, lhe varria as tristezas, aquilo restava. Em vez de ser um grande actor que interpretasse duma maneira única, a Miséria, a Morte e o Amor, era apenas um palhaço de circo... Caída na lama a sua quimera parecia grotesca.
Raul Brandão.
O Micróbio, n.º 38, 18 de Abril de 1895, p. 102
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