7 de maio de 2013

"O Palhaço", por Raul Brandão (1)







O Palhaço

Rompeu a sinfonia, numa música hílare e doida, onde as notas pareciam sedas rasgadas, uivos dolorosos, esgares de alegria súbito mudados em raivas e rugidos... A multidão, toda em volta da arena enfarinhada, parecia ter enlouquecido — mar de cabeças a ferver. O gás assobiava em leques de luz, borboletas de fogo na púrpura do circo, onde as colunatas brancas e finas subiam, sustentando quase por milagre a abóbada do tecto.
Apenas o primeiro compasso da música brotou, que as mulheres, todas vestidas de escarlate, louras, fardées, tomaram um e outro lado da rampa e dois criados, de casaca, e laço branco, hirtos, vieram pentear a arena. Houve um sussurro, quando Arabela e Sroit, leves, dum único gracioso salto, apareceram no meio da arena, vestidos de gaze clara e transparente onde flores pareciam feridas vivas, a sangrar... O cavalo todo negro, escumante, trazido por um palafreneiro, aos corcovões de fúria, chegou — e logo ela, de um pulo, apareceu de pé sobre a sela, na gracilidade e no triunfo da sua beleza fina e graciosa, de loura. Rompeu o galope, arrancou o cavalo numa correria doida em volta da arena, a cabeça em onda, o focinho negro quase a tocar-lhe as patas, babado e raivoso. Na galopada apanhou-o Sroit e enlaçou Arabela, erguendo-a, segurando-a nos seus braços, onde os músculos eram uma harmonia, sem o mínimo esforço, como quem segura uma pena. A música em golfadas luminosas, dizia um triunfo de Amor, subia hilare, para súbito se apagar como uma fonte que se estanca. As palmas, marteladas rijas, despedaçam de secas risadas de ventania, estrugiram, quando eles caíram súbito aniquilados sobre a sela do cavalo... A música ia então a passo, vagarosa e parecia que uma brisa fresca entrara no circo, trazendo da caixa o cheiro a cavalariça, a suor e a pele orvalhada de mulher...
A esse tempo o palhaço, tendo acabado de riscar a boca de vermelhão e de empoar toda a calva, luzidia como uma bola de bilhar, espreitou de cima, do corrimão. O circo visto do alto alucinava: batido da claridade, com o gás a esfuziar raivoso, parecia mover-se, rodopiar, afundar-se, com a maré de cabeças da multidão a ferver, o galope do cavalo que agora recomeçava, a música que enervava, ventania de raiva a soprar.
Já Arabela e Sroit se retiravam, voltando a agradeci, com requebros tão finos, que dir-se-ia, servirem-lhe as gazes feridas de escarlate dos vestidos, de asas leves.
Odília então, postos os arames, num momento de descanso, apareceu, sangrando sob a luz dos reflectores. Vinha de cetim branco, leite estancado, e até os cabelos que ela usava empoados dir-se-iam cortados numa pétala de camélia — velha imagem, mas eterna verdade.
Somente, a fazer destaque, em todo aquele poema branco, o guarda-sol, que lhe servia de maromba, era inteiramente negro, com estranhas flores púrpuras.
A fanfarra tocava então não sei que música, tecido de um vago anseio, fugidia e estática por vezes. Só os reflectores brancos a batiam diluindo-a em branco, enxurradas de branco e de leite, sobre a sua figurinha grácil, pálida como uma morta.
Avançou no arame, a passos curtos e leves de ave, movendo sobre a cabeça, a nódoa negra, nanquim, do pára-sol onde as flores pareciam esvoaçar num enxame.

(continua)
Raul Brandão.


O Micróbio, n.º 35, 21 de Março de 1895, pp. 78-79

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