1 de maio de 2013

"A noite de S. João" - um texto esquecido de Raul Brandão

Raul Brandão

A obra literária de Raul Brandão ocupa um lugar singular na história da literatura portuguesa do século XX. Jacinto Prado Coelho, medindo o significado da escrita brandoniana na literatura portuguesa classifica o escritor como um “um expoente e um grande percursor”. No entanto, a obra de Raul Brandão não tem merecido a atenção que a sua importância justifica, porque se trata de um autor da primeira linha da literatura em português do último século. Daí que todas as notícias acerca da publicação da obra de Brandão são sempre boas notícias. É esse o caso da obra A Pedra ainda espera dar flor, organizada por Vasco Rosa (Quetzal, 2013), onde se reúnem quase 130 textos que Raul Brandão foi publicando dispersamente ao longo de quatro décadas (1891-1930), alguns deles há muito esquecidos e inacessíveis para o comum dos leitores. Trata-se, nas palavras do responsável pela recolha e organização desta publicação, do resultado de uma segunda “campanha arqueológica em papéis velhos e frágeis” (da primeira, resultara a publicação, em 2006, dos textos dispersos de Raul Brandão em dois volumes, Lume sob cinzas e Paisagem com figuras), que acrescenta meia centena de textos aos anteriormente coligidos.

Nos trabalhos de “arqueologia literária” sucede como nos trabalhos da arqueologia propriamente dita: fica sempre alguma coisa por escavar. Para além dos textos dispersos que integram a obra de Vasco Rosa, conheço outros dois que não merecem ficar esquecidos.

O primeiro, foi publicado em 1896, na revista A LeituraMagazine Literário e é uma história de amores não correspondidos e de traição cujo desfecho trágico decorre na noite de S. João, num ambiente facilmente identificável com o Minho, onde a noite de 23 para 24 de Junho tem, na tradição popular, uma dimensão mágica de natureza propiciatória, carregada de sortilégios, esconjuros e adivinhações, em boa parte associados ao amor, ao namoro e à procura de casamento.

Aqui fica narrativa de Raul Brandão:


Noite de S. João

Tudo na Serra é triste e grande. Dá a impressão do Atlântico. Homens e árvores são sombrios e fortes. As raízes agarram-se de rijo à terra para resistirem à tempestade - o coração das criaturas é férreo. As casas dos pastores alapardam-se entre os penedos, protegidas do sul. As mulheres têm na fisionomia a serena gravidade de quem está habituado a encarar perigos, e as próprias raparigas se amam é a valer e para toda a vida: têm a singeleza das criaturas primitivas, e muitas vezes pensei, ao vê-las descer a Montanha, aos pares, de mãos dadas, olhos ingénuos, a cantar numa toada embaladora e triste:

Numa caminha de funcho...
O meu amor quer dormir

deparar com mulheres duma outra idade arredada, dos tempos idos e simples.
Por duas vezes já que eu me refugiara na Serra: no rude Inverno de noventa e quatro e na Primavera do ano seguinte. Sempre que acontecia a vida despedaçar-me o coração e os nervos, as Montanhas apareciam-me como um eremitério, um lugar de paz e de felicidade. A velha casa secular desmorona-se: a tempestade tem-na enegrecido e derrocado, a ventania abalado as portas como um salteador: apenas duas ou três salas e a grande cozinha são ainda habitáveis. É triste aquilo, mas sereno. Não irrita: a melancolia que sai das velhas coisas vem amortecida e repousa-nos. Acontecia-me de inverno ficar horas e horas a cismar, vendo arder na lareira troncos de árvore. O João, calado, dr olhos tristes postos em mim, sentava-se do outro lado do lar e acendia, por vezes, o cachimbo com um tição. Fora ia um ruído de Mar. E as horas seguiam-se mortas: apenas a minha imaginação, presa no lume, construía lindos sonhos de ouro como o fogo, e que por fim, qual o seco tronco, se reduziam a cinzas frias. Uma águia, a debater-se no temporal, gritava, ou o vento arrancava com fúria os castanheiros dos píncaros...
Este João era um homem calado e rígido. Palavras poucas, fortes sentimentos arreigados e um grande coração. Era pastor: nos meses de verão perdia-se na Serra com os rebanhos, numa vida livre e misteriosa. Sabia o nome de todas as estrelas e as tocas dos montes, onde é bom dormir. Na sua língua pitoresca e rude dizia-me, por vezes, admiráveis coisas: como a Serra é bela e grande, como as Montanhas têm coração e como a vida livre, perdida pelas cristas, semanas sem se ver vivalma, o enchia de emoção e de ideias, que lhe faziam medo. Punha-se então a falar sozinho e surpreendia-se a repetir coisas em que nunca pensara — ou então cantava, tolhido pelo luar com lágrimas nos olhos. Era um poeta. No luar de Agosto acontecia-lhe ter, na bruma luarosa das Montanhas, visões: lindas criaturas a caminharem, pálidas como lírios, velhos de enormes barbas a flutuar, com risos doidos… Era valente como poucos, e, por vezes, depois de matar a tiro lobos que o perseguiam, defendera-se do resto da alcateia a faca de mato.
A Primavera vinha e a terra estremecia vivificada, amorosa, coberta de flores como uma noiva. Os velhos cadáveres, o pó dos antigos guerreiros e o cérebro dos grandes poetas estremeciam: corações de amantes, corpos de bandidos e de tiranos, perdidos nas idades longínquas, há mil séculos enterrados, desfeitos em partículas, trepavam na seiva das árvores, cantavam amorosamente nas flores dum espinheiro ou eram simples cardos florindo à beira dos caminhos. Ela é o berço e a tumba. As civilizações misteriosas das idades passadas e os ressequidos corpos dos mendigos, dela saem e lá vão por fim bater. Somente, como num cadinho, ela trata-os, depois, com a mesma dura indiferença: — reis ou monstros são indistintamente nuvem no céu ou ouro na asa dum insecto.
Nos crepúsculos tristes ela parece dizer-nos; —Toda a criatura viva, tudo o que existe, de mim sai, caldeado do mesmo barro, vivificado pela mesma química incessante. — A própria Terra representa na Primavera a imagem dum berço florido e alegre, no Inverno um caixão negro e triste como a morte.
Embora o homem curvado sue, sofra, berre de dor ou ria de escárnio — ela, gelada, despedaça civilizações e corpos para lhes dar novas formas. Uma transformação apenas Julieta é agora decerto flor nalgum lilazeiro e o rei Lear, de grandes barbas de luar, velho cedro duma floresta de balada.
Nessa Primavera fui encontrá-lo amoroso. Como as árvores a sua alma florira. A mesma emoção que fazia estremecer as Montanhas e toucarem-se de frágeis botões as sebes dos córregos, lhe apressara o pulsar do coração. O João estava triste e passava o dia a suspirar. Era um mistério idêntico ao que ao mesmo tempo abala a Serra e os cardos humildes.
Dava-lhe o amor para ser mudo. Ficava horas sem palavra ou então refugiava-se nos picos a falar sozinho diante dela tremia e olhava-a como um cão.
As noites de luar na floresta são feéricas. A lua tece mistérios em volta das árvores. Há claridades fantásticas, poalha de nuvens pousadas entre troncos. E nessas noites o João andava erradio a cantar ou a procurar lírios que são — quem o nega? — pedaços de luar materializado. Com Abril deu em buscar nas árvores a primeira flor para lhe oferecer. Toda a floresta tem um pasmo: sente-se os velhos troncos ranger, as raízes sôfregas estalarem, o húmus, a vida, o amor, galgarem nas veias da Montanha que parece inchar. A primeira flor! a primeira flor que rebenta delicada e pequenina, nascida num tronco negro que tem séculos!... É miúda e ténue — e parece um sol. Toda a Serra, quando ela aparece, fica estática, se banha dum grande rio de ternura. Há alarido nos pequenos bichos: os grilos, os saltões verdes, berram: — Aí vem a Primavera? aí vem o sol!... — Era essa flor que ele queria atirar ao seio de Rosinha, a ver se lhe fazia estremecer o coração petrificado.

A Rosinha desdenhava-o. Não compreendia aquele amor que não se desentranhava em palavras doidas, ditas ao ouvido; nem aquele moço que passava horas a fitá-la de olhos humildes. O João nem dançava nas eiras, nem nas esfolhadas, quando há luar e os corações palpitam. Não imaginava que aquele homem probo e férreo, austero quase, seria capaz de matar por causa dela. A esse tempo o seu coração pertencia ao Fusca.
O Fusca era deveras uma criatura singular. Da pobre rebeca de serrano tirava sons e modas que endoideciam as pastorinhas trigueiras. A sua música fazia-as suspirar como o luar fantástico de Agosto, e aquele vadio, mal visto, desprezado pelos homens, pusera do seu lado todos os corações das mulheres. A rebeca velha tinha lá dentro sons de águas correntes, primaveras, sol, vozes da serra e amores despedaçados. Quantas vezes num casalinho arredado uma moça acordando na noite velha, ao ouvir a música simples e enternecida do Fusca, punha as mãos no coração e corava como se a enchessem de beijos!...
Raras vezes trabalhava. Encontravam-no à certa nos sítios solitários e tristes, tocando, esguio sonhador, ou perto dos casais onde viviam serranas bonitas. Morava com uma velha bruxa, numa lapa isolada. Ninguém por lá passava sem se benzer. A velha fazia filtros, encantos, com sapos e ervagens colhidas à meia-noite nos ermos.
Foi numa ocasião de zanga entre os dois que os pais de Rosinha a decidiram a casar-se com o João. Rosinha casou, sobretudo para se vingar do Fusca, preso então a certos olhos verdes...

Estremecia-a: tinha sempre para ela carinhos em flor, palavras ditas ao ouvido, baixinho, com medo de a magoar. As suas mãos calosas e enormes apenas ousavam tocar-lhe e vivia num enlevo, horas absorto, horas a cantar por montes e vales. Com o duro aço revolvia a terra ingrata e pedregosa: a sua mão afeita ao cajado de pastor, forcejava por se habituar à rabiça do arado. Apenas nas manhãs gélidas de inverno tomava a clavina e partia a estender com zagalotes um ou outro lobo esfaimado, que se atrevia a abeirar-se da aldeia. Muitas vezes me disse:
— Ouvir o seu nome, apenas o seu nome, é sentir cá dentro uma convulsão. Longe ou perto dela estou sempre a dizer, como numa reza: Rosinha! Rosinha!...
E nunca voltava para casa sem temer que tivesse acontecido algum desastre. Parece que previa uma catástrofe.
A Rosinha habituara-se assim a manejá-lo. Tinha a consciência da sua força. Com um sorriso desarmava a cólera do pastor, com uma palavra tornava inertes as suas mãos de hércules. Era linda, loura, com um sorriso pérfido e olhos gelados: pequenos cabelos frisados esvoaçavam-lhe no pescoço e nas fontes lisas.
Nem o respeitava já, nem o temia. Tinha mesmo um certo prazer em o afligir, em despedaçar o rude coração daquele homem feito duma só peça e que a adorava.
Gostava de lhe ver enclavinhar as mãos no peito, de o ver sacudido pela dor, de lhe resistir como uma frágil flor que se opusesse à queda duma montanha. Usava da sua força. As primeiras questões deram-se por causa da velha que vivia com o Fusca. O João não gostava de a encontrar na casa a conversar com a Rosinha.
— Lá está o agoiro da velha! — dizia ele ao dar com ela sentada na soleira da sua casa.
— Põe-me a velha na rua!
A Rosinha resistiu e o João, de cabeça curvada, amuou. Mas uma tarde que as encontrou a cochichar, atirou com um empurrão a velha para a rua. A Rosinha temeu-o, encolheu-se, chorou — e a velha, de fora, ganiu ameaças e infâmias.

*
*       *

Nessa noite de S. João haviam dito ao pastor que um lobo velho aparecera no cardil. Aquela fera era já lendária e de há muito que ela e o João se conheciam. Nas lareiras aviva-se a profunda melancolia dos serões, quando o vento desabrido ulula na serra e a chuva desaba às catadupas, com o terror desse lobo quase fantástico que vinha roubar os cabritos dentro dos cerrados. Dele se narravam prodígios. Aparecia e acompanhava os que se perdiam nos caminhos até os devorar. Era certo nos altos: nas noites álgidas de luar destacava-se a sua silhouette diabolina nos píncaros. Os olhos luziam-lhe entre os fraguedos à espreita — e nunca zagalote conseguira estendê-lo. As suas manhas eram célebres e, estarrecidos, os moços contavam baixinho, com medo de o ouvirem raspar nas portas, que ele escutava para depois se vingar dos que diziam mal dele.
Já o João por vezes lhe fizera esperas e o perseguira. Assim, quando, nessa noite de S. João, um pegureiro veio clamar rouco de terror:
— Olha o lobo velho! olha o lobo velho!...
Tomou da clavina e partiu. Eram umas antigas contas a ajustar. Lá para o fundo do vale ardiam as fogueiras. Raparigas cantavam e estava um luar de endoidecer. A Rosinha ficara em casa a seroar. O lobo havia de passar, acossado pelos gritos de alarme, por entre as fragas, ao lado da montanha: era aquele o seu caminho. Foi aí que o João se agachou resoluto, entre a esteva, de clavina aferrada, à espera. Abriu a faca. A penedia convulsionada dir-se-ia rolar em vagas rígidas para o abismo. Era um sítio ermo e bravio que o luar tingia de mistério. Nas sombras parecia alapardarem-se criaturas e por vezes ouvirem-se vozes ciciar. O coração do pastor batia sereno e forte. Estrelinhas brilhavam lá no alto e o espinhaço das serras alcantiladas crescia enevoado de luar. Do fundo do vale vinham gritos: a luzinha dum casal, uma fogueira, fê-lo pensar na Rosinha e no luar...
Havia uma boa hora que esperava, quando deu com um vulto encostado aos fraguedos. Era um tronco, era uma criatura?
— Olá!...
Mas nada mexia. Deslocou-se resoluto, seguro na clavina e na sua força de Hércules.
— Olha o raio da bruxa!...
A velha, curvada, arrimada ao bordão, esteve um pedaço a olhá-lo, sem palavra. Só os olhos lhe luziam de maldade. A princípio o João voltou-lhe as costas, mas pouco a pouco aquela criatura de pedra e muda impressionou-o.
— Que é que queres, bruxa? que vens aqui fazer?...
Ela teve um riso de escárnio e continuou a olhá-lo com ódio.
— Vai-te embora! Vai para o diabo que te carregue!
Então a velha, estendendo o braço, trágica, disse:
— Vai tu, vai tu e apressa-te. Olha a tua Rosinha que lá está com o Fusca!...
Ficou como se visse desabar a montanha, e, de súbito,correu para ela para a estrangular. A velha deitou a correr pela vertente, aos berros, a vomitar infâmias, rouca de cansaço.
— Vai ver! vai ver! A Rosinha! a tua Rosinha!...
Desceu então a correr, sufocado, a encosta. As pedras rolavam-lhe sob os pés e trazia na boca este grito: — Rosinha! Rosinha! — como se ela estivesse em perigo e ele a quisesse prevenir e salvar. Não raciocinava ainda. Tinha um torvelinho de lágrimas e de desespero represo lá dentro, e parecia-lhe uma galopada de cavalos a persegui-lo. Era o coração a bater-lhe. A velha havia parado e lá do alto insultava-o, atirando-lhe pedregulhos: ele porém cortava a direito através da noite e das árvores rígidas e negras como espectros de aflição. Torneou o caminho: deparou com a casa, e a porta abalou-se sob as pancadas formidáveis da clavina. Dentro um grito e logo a porta despedaçada, levada diante dos seus ombros de Hércules. Entreviu o vulto do Fusca, e a palidez, o terror de Rosinha, encostada à parede de olhos pasmados e a boca torcida de pavor. João encontrou enfim a palavra represa na garganta, que o sufocava e lhe fazia de quando em quando lançar as mãos às goelas num desespero:
— Ladrão ! ladrão!...
E desfechava-lhe a clavina em pleno peito.
A Rosinha, dum salto, doida de terror, foi cair aniquilada a um canto. Nem sequer a ferira. O sangue do Fusca é que alagava o sobrado. A Rosinha tombara desmaiada como um lírio cortado cerce.
De clavina nas mãos, sem ver nem ouvir, saiu para a rua para respirar sôfrego. A dor abanava-o, como a tempestade a um carvalho secular da floresta e outra vez tomou o caminho e se pôs a descer a montanha. Em cima a velha, na casa arredada, em vão se pusera a clamar. Todos em volta das fogueiras de S. João cantavam. Só o pastor despedaçado monologava, a agitar os braços na noite. Era a sua Rosinha! a sua Rosinha!... Nem sabia o que havia de fazer, nem o que havia de berrar, tão enorme lhe parecia, tão imerecida aquela desgraça. Era como se lhe tivessem arrancado o coração, para lho atirarem à lama.
É nesta época do ano que se queimam as fogueiras de S. João. As estrelas têm um brilho mais vivo e mais lindo. A cada canto luz a iluminação de uma cascata, humilde e simples, entre a verdura, com água a correr. Vozes frescas de raparigas cantavam ao desafio:

S. João adormeceu
Nas escadinhas do coro;
Deram as moças com ele
Depenicaram-no todo...

Quem há aí que não sentisse nessas noites pena de não ter uma namorada, de não lhe vêr arder na noite os olhos como fogueiras, de não berrar perdido de emoção:

Orvalheiras, orvalheiras, orvalheiras,
Viva o rancho das moças solteiras!?

Continuava o João a descer. Já a levada rugia entre os penedos a pique — e ele continuava a descer, banhado em lágrimas, sem a poder odiar por mais que quisesse. Tinha a sua imagem cravada no cérebro, a sorrir-lhe como na noite do seu noivado, como no dia em que procurara a primeira flor de toda a floresta para lhe atirar com ela...
O luar maravilhoso entornado sobre as árvores e sobre as cabeças das raparigas embebedava. S. João! S. João! berravam na aldeia. Como ela é linda! Vamos de mãos dadas, moreninha, a cantar por aí fora! Não te esqueças de ir à meia-noite deitar no copo de água fria os papéis com os nomes, a ver com qual tens de casar; não te esqueças, sobretudo, de não tirares os olhos de mim. Para o ano cantaremos:

Orvalhadas, orvalhadas, orvalhadas,
Viva o rancho das moças casadas!...

Nada bulia. O luar era fantástico, envolvia tudo como numa gaze — árvores e corações. Havia bruxas, moiros da Moirama, feitiçarias, um encanto maravilhoso e único. As montanhas tinham-se vestido de branco para o casamento e no escuro brilhavam luzes: até ele chegavam vozes argentinas, que o luar fazia mais bonitas, cantando:

Orvalhudas, orvalhudas, orvalhudas!...

Quantos beijos dados ou roubados então? quantas mãos a enlaçavam, quantos corações se prendiam para sempre. Era aquele o dia das raparigas solteiras, o tempo mais encantador de todo o ano. Quantas raparigas suspiravam! A mesma noite, amorosa, suspirava luar. Muitas virgens construíam o seu lindo sonho de amor. Em casa o bragal de linho estava pronto e arrecadado na arca. Só faltava o noivo. Era arranjá-lo nessa noite: prendê-lo com a luz dos teus olhos, enlaçá-lo de maneira que ele só viva para ti, trigueira!...

Começou o João a entrar no rio devagar, mas com o mesmo passo resoluto e decidido. As lágrimas desabavam-lhe sobre a água negra e revolta. O coração estalava-lhe de dor: na mão férrea apertava ainda maquinalmente a clavina. Já tinha água até ao pescoço, quando a boca se lhe abriu entre lágrimas, num sorriso dolorido e enternecedor — e disse baixinho para que só ele no mundo ouvisse:
— Rosinha! Rosinha!...
Depois mais nada. A água negra e revolta correu sobre a sua cabeça...

Julho de 96.
RAUL BRANDÃO.
In A Leitura,Tomo XVI, Lisboa- Rio de Janeiro, 1896, pp. 203-213


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