3 de maio de 2013

"A Cidade", por Raul Brandão (1)

Raul Brandão
Em meados de 1894, começou a publicar-se em Lisboa um periódico com o título O Micróbio -Semanário de Caricaturas. Cada número tinha 8 páginas, seguindo o modelo do seu contemporâneo O António Maria, de Rafael Bordalo Pinheiro. O seu conteúdo era assegurado por dois redactores artísticos, Celso Hermínio e Augusto Pina, que produziam as caricaturas e outras ilustrações, e por um redactor literário, Tito Martins. A partir do n.º 30, de 7 de Fevereiro de 1895, passa a contar com a colaboração de Raul Brandão, cujos textos, ilustrados por Celso Hermínio, ocuparão a sexta e a sétima páginas de quase todos os números que se publicariam. Infelizmente, esta colaboração não foi muito extensa, já que o Micróbio desapareceu subitamente com o seu número 39, de Maio de 1895.

Brandão assinou dois textos, repartidos por sete edições da revista, com os títulos A Cidade e O Palhaço. 

Nestes textos encontrámos personagens de A Morte do Palhaço, e alguns trechos que, com alterações, Raul Brandão incluirá naquela obra. No último número que saiu dos prelos, há um texto não assinado, com o título Titi, que é também de Raul Brandão.
O ilustrador, Celso Hermínio, tinha sido, como Brandão ainda o era, militar. Abandonou o exército por ter participado, enquanto membro do Regimento de Caçadores 9, na revolta republicana do 31 de Janeiro.
Aqui se começam a publicar os textos "microbianos"de Raul Brandão, com as respectivas ilustrações de Celso Hermínio.



A Cidade


A noite na cidade encantava-o com os seus aspectos dolorosos e imprevistos. Tudo o que de dia é anguloso e duro, logo que a noite se dilui, e a meia tinta, onde as figuras aparecem, dá toques de sonho à cidade lôbrega e tortuosa. Os becos que surgem súbito, como bueiros rasgados para o interior dos bairros viciosos, as covas das escadas cheias de mistério e onde se não entra sem terror, os tipos que só de noite aparecem, rentes às muralhas, envoltos na sombra, tímidos ou doidos, a esconder vícios, lágrimas, crimes e canduras de alma, encantavam no e davam-lhe nas noites febris e de insónia, a sensação dum galope através dum sonho. As figuras não se fixavam bem e toda a multidão se escoava no seu crânio com um ruído de Mar, linhas tortuosas, olhares, esboços apenas, com riscos mal definidos e um ou outro aspecto cavado mais fundo.

Havia muitos meses que ele não punha os pés na rua. Depois de ter arrastado o enlameado manto púrpura da sua ambição e do seu sonho pelas casas de hóspedes, de onde era escorraçado e batido, fixara-se num covil e aí remoera meses as suas ideias negras sobre a existência. Assim, nessa noite de lama e de bêbados, as coisas e as figuras tomavam para ele feitios dolorosos e imprevistos… Certo vocês todos têm sentido que as coisas como as pessoas nos são agressivas ou simpáticas. Assim certos sítios afligem, torcem os nervos, dão ambição ou repousam. A humanidade, que por ali tem passado, tocado, deixando-lhes lágrimas ou risos, deu-lhes feição, individualidade, tornou-as más, viciosas como velhas ardidas ou alegres e com bondade. Nunca vocês sentiram, num dia abeberado de azul, em Maio, necessidade de abraçar uma velha árvore e não perceberam acaso que até a pedra onde nos sentamos, quando pequenos, a ver o Sol descer sobre o mar largo, nos conhece e tem alma?...

Assim ele nessa noite de lama, os nervos afinados por meses de clausura e pelo tecer da sua quimera, via tudo sob tintas de pesadelo. Tinha a visão da dor humana que a essa hora faria sofrer tanta gente e ais de todos os doentes vinham em rebanhos até aos seus ouvidos e as lágrimas de todos os que choravam-lhe incendiavam a alma — chuva de estrelas cadentes na noite negra e funda.

As paredes não lhe eram diques: a sua percepção ia até ao fundo das casas buscar os que sofriam e até ao fundo das almas tirar para luz a miséria, o vício e o crime. Ao galope passavam por dentro do seu crânio  em imagens mordidas de delírio, as velhas sequiosas de amor, que com os dedos descarnados e febris agatanhavam para si restos de mocidade. Vi as que passavam, de olhares luzentes, dolorosas e escarnecidas e na sua alma, de aguçados os nervos, sentia como elas a raiva de querer viver, de ainda ser moças, e amargura das rugas e do escárnio dos que têm vinte anos. Ao galope passava a maré dos grotescos, daqueles que escondem uma doença, que uma ideia risível devasta os impotentes, os que não têm a piedade de ninguém, atirados para a vida e calcados pela Vida e num tropel de raiva, os ambiciosos, que caminham rentes às paredes, de unhas cravadas na sua quimera, botas rotas, pés frios e feridos, o cérebro em brasa…

E assim as casas, as paredes e as coisas, de ouvir tanto grito, de se sentirem palpadas por mãos febris e cravadas por unhas de ambiciosos, tomavam naquela noite formas de delírio e tinham vozes, embebidas de ambição, de tédio, de dor ou de ferocidade de sonhar. Era um murmúrio indefinido, um ambiente nervoso que a sua sensibilidade recolhia e traduzia depois em ideias duma amargura tecida de rancor. Já ele no seu covil tinha tido a mesma emoção de agora a primeira vez que ali dormira. Pusera-se a pensar ao ver-se frio, o coração premido e vontade de chorar não sabia porquê, como se uma parte do seu ser tivesse sido aniquilada ou uma escarlate quimera fosse para sempre perdida: Que de desgraçados de tanto sonhar puseram em brasa estas paredes negras? Que de ambições aqui nascidas não foram despedaçadas e aí estão mortas pelos cantos da casa?... Estas paredes, que estremeceram com a dor ou se aqueceram com o sonho de outros, não serão para mim agressivas, por ser muito diferente o quimérico ideal que eu construo?... E havia vozes, abortos de ideias, fetos de concepções invisíveis e suspensas pelo tecto, como teias de aranha caídas e abandonadas...
(continua)
Raul Brandão, O Micróbio, n.º 30, 7 de Fevereiro de 1895, pp. 38-39
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