30 de abril de 2013

Pregões a S. Nicolau (55): 1901 (aditamento)

Tímpano gótico da catedral gótica de Colmar (França), representando S. Nicolau.


Na última página do Bando Escolástico de 1901, escrito por Arnaldo Pereira e declamado por João Oliveira Bastos, aparece um poema com uma “conversa” entre autor e declamador, em que o primeiro quer saber do acolhimento da sua obra. Ficou de fora, por esquecimento, quando aqui publicamos aquele pregão, falha que agora se corrige.

Caro João, responde: O bando?... foi impresso?
Não?... Quê?! Foi?... É boa!… extraordinário!
E o que disse o Sampaio?... o Bráulio?!... Fala, peço.
E o Albano Belino? e o padre comissário?...

Recitaste? E que tal?... Correu regularmente...
Isso era de prever... pois não?!... Eu logo vi…
Que dizes?... Muito com?! Não oiço... Estás contente?!
Gostaram dele?!... quê?! Repete... não ouvi...

Palmas?! Um parabém?! Pois quê!... deram-se palmas?!...
Então caiu em graça... Não?! Que dizes? Hein?
— Valha-me S. Tiago! Olha lá se me acalmas...
Fala mais alto e claro... Ah! agora oiço bem…

Acharam muito bomassuntos palpitantes,
Um chiste muito fino, um chiste aristocrata,
Deste que só se encontra em mesa de estudante
E é servido à farta em cálices de prata...

Mas isso, meu João, é caso de arrebique...
São homens para fazer de mim... comendador...
E eu que não possuo um fato muito chic,
Visto que devo o outro ainda ao mercador.

Hein?! Que tal? Imagina, eu, feito conselheiro,
E tu... marquês ou... bispo.., Hein? que dizes? Servia
E, — o que é muito melhor — ganhando bom dinheiro,
Para... pregar um cão ali, ao Maria...

Eu não sei... mas afirmo — e disto eu encho o lábio —
Que dava em sacristão, se o padre fosse… madre…
Mas espera... que é mister saber um sábio?
Inédito, é claro — um sábio que não ladre...

Não saber coisa alguma? Olha que espiga torta!
Com isso não contava; é um grande contratempo!...
Bem! Serei deputado... o círculo pouco importa;
O que eu quero, isso sim, é que isto rime em empo...

Ainda que... não sei... mas talvez que um ministro
Faça melhor figura e ganhe mais dinheiro;
Porque além do ordenado assente no registro.
Se ele é homem honrado e o braço é bem ligeiro...

Depois não é preciso a gente ter talento:
— Mais burro, mais feliz... É certo, é sem remissa...
Está decidido, sim. Vou ver o parlamento.
Montado como um rei na pasta da justiça!

E tu?... que queres ser tu?... Polícia? Deputado?
Par do Reino? barão?... Escolhe! é grande a lista:
Visconde ou sapateiro. Ou bispo... sem bispado...
Ou regedor, ou duque... ou cónego, ou dentista...

Em que pensas?! Responde! O quê?! Não queres ser nada?
Hein? Bruto como o Ó, rico como um judeu...
Tu és tolo, dia... Espera, camarada
Talvez tenhas razão... Sim! O tolo sou eu!

Ser bruto e ter dinheiro!... Há lá coisa melhor?!...
Já não quero mais nada... Agora... espera lá...
Burros somos já nós... e a massa, que é o pior?
Homem! tu não a tens?!... Que dizes!... Não a há?!...

Olha que espiga esta, ó João! e que remate!
Ora não termos nós as tais loiras... cantantes...
Bem! Fiquemos então, embora isso nos mate,
Sem massa, como sempre — e burros, como dantes!...

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1 comentários:

Colchões DORMEMORY - Jorge Carvalho disse...

Tão atual mesmo que passados estes 112, não, não é numero de emergência são 112 anos.