27 de março de 2013

Quando Guimarães ficou a ver o teatro a arder


Nos momentos de desgraça, as pessoas costumam dar mostras de grande solidariedade. Sendo uma regra universal, aplica-se de modo muito particular às gentes de Guimarães. Basta recordar o que aconteceu no grande incêndio que deflagrou, em 1869, no topo virado a Norte do Toural, ou, quase um século mais tarde, na reconstrução da tourada que fora consumida por um incêndio.
Na noite de 18 para 19 de Janeiro de 1841, Guimarães despertou com o alvoroço dos sinos a repicarem, tocando a incêndio. As chamas erguiam-se no céu para o lados do Campo da Feira, na rua das Pretas ou rua Nova de Vila Pouca. As gentes de Guimarães acorreram em peso ao local do sinistro, munidas do espírito de entreajuda de sempre. Porém, desta vez, não ajudaram a apagá-lo. Ficaram a ver arder.
Naquela noite, as chamas consumiram o Teatro de Vila Pouca que, segundo Alberto Vieira Braga, “funcionou lá em baixo, no Campo da Feira, na antiga Rua das Pretas, n.os 1, 3, 5, nas primeiras casas do bairro que fica ao lado do rio”, no local onde em finais do século XIX estava instalada uma loja de vinhos. Não se sabe ao certo quando foi inaugurada esta sala de espectáculos, mas sabe-se que já funcionava no início de 1835, como revela Alberto Vieira Braga, no seu estudo sobre o Teatro Vimaranense:
“No dia 23 de Fevereiro de 1835 vários estudantes desta vila representaram pela primeira vez no Teatro da rua das Pretas, propriedade do Conde de Vila Pouca, a tragédia o Tello  (deve estar por Othelo, célebre tragédia de Shakespeare)”.
O Barão de Vila Pouca, Rodrigo de Sousa da Silva Alcoforado, não era uma figura particularmente estimada entre os seus conterrâneos. Miguelista durante a Usurpação (ficou registo da sua viagem a Lisboa, em Setembro de 1828, para beijar a mão a D. Miguel, que havia pouco se proclamara rei absoluto de Portugal), foi comandante das milícias de Guimarães que combaterem do lado dos miguelistas durante a Guerra Civil. Com a vitória de D. Pedro, que devolveria o trono à sua filha D. Maria II, irá aparecer do lado dos vencedores, sendo uma das figuras mais proeminentes da Sociedade Patriótica Vimaranense. Como escreveu Pereira Lopes, eram manifestas “as poucas simpatias que nesta vila tinha o Barão de vila Pouca”. Vai daí, ninguém ajudou a salvar o seu teatro de um incêndio de origens mais do que suspeitas.

No seu diário, que o inestimável João Lopes de Faria transcreveu, o cónego Pereira Lopes registou o seguinte:
18 de Janeiro de 1841 - Na noite de hoje para amanhã foi incendiado o teatro desta vila por acinte, em consequência do Barão de Vila Pouca (senhor do teatro) o ter negado a uns curiosos que queriam repetir nele uma peça que poucos dias antes tinham apresentado em cena. Ao incêndio só acudiram os empregados da Bomba, pois os imensos habitantes da vila que se dirigiram para o sítio donde se dizia que era o fogo, logo que viram que era no teatro se conservaram meros espectadores, fazendo pouco caso de que o teatro ardesse, não porque eles em outros casos semelhantes não mostrassem energia em fazer cessar os estragos que sempre costuma fazer este devorador elemento quando se assenhora de qualquer edifício, mas pelas poucas simpatias que nesta vila tinha o Barão de vila Pouca, senhor do teatro, que foi vítima das chamas. Tudo que era combustível da casa do teatro ardeu, e só ao que se acudiu foi a que não ardessem as casas dos vizinhos que ficavam contíguas à mesma casa do teatro. 

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