20 de fevereiro de 2013

O que fica do que passou



No refluxo da maré cheia, este é o tempo da vazante, o tempo de percebermos o que muda e o que permanece depois de um ano que, para Guimarães, foi pródigo e virtuoso. É certo que ainda não ganhámos suficiente distância para compreendermos a dimensão da mudança, já é claro que Guimarães reforçou e disseminou a sua imagem de cidade amiga da cultura, do património, da História e dos cidadãos.

Neste exercício que se vai fazendo à medida que se vai caminhando, tem sido curioso rever aquilo que escrevemos no tempo das incertezas, quando percebíamos que caminhávamos para o desastre que antevíamos e que, felizmente, soubemos evitar:

“Alguém que aterre repentinamente em Guimarães é capaz de demorar a perceber a dimensão cultural desta cidade, tendendo a subestimá-la. Nestes últimos dois anos, sobram-nos os exemplos dessa atitude. A pretexto da Capital Europeia da Cultura que aí vem, não faltou quem se atribuísse a si próprio a nobre missão de evangelização cultural deste território de bárbaros, encarregando-se de trazer as luzes da civilização aos brutos que viam em nós. E logo concluíram que, além de brutos, seríamos difíceis (“como é difícil trabalhar com esta gente”, iam murmurando por aí) e mal agradecidos, já que não nos ajoelhávamos perante a imensidão da sua sabedoria, nem elevávamos ao céu cânticos de congratulação e de reconhecimento pelo seu esforço inglório para nos ensinarem aquilo já sabíamos. Se há marca distintiva de Guimarães, é a que resulta da dimensão e da consistência da sua vida cultural. Que não vai começar amanhã, nem começou ontem. Esta é a terra de Martins Sarmento, de Alberto Sampaio, de João de Meira, de Raul Brandão, de Mário Cardoso, de Alberto Vieira Braga, de Santos Simões, de José de Guimarães. Não foi por acaso que Guimarães ganhou o direito ao título de Património Mundial, nem foi por obra dos novos evangelizadores que esta cidade adquiriu o privilégio de ser Capital Europeia da Cultura. Aquelas são distinções que alcançou por aquilo que tem sido desde o último quartel do século XIX: uma cidade que valoriza o seu património e que aposta na cultura.”

Se a Capital Europeia da Cultura foi o que foi, deve muito, sem dúvida, aos que a programaram e executaram, mas também não foi pequeno o contributo dos seus cidadãos, organizados ou não nas associações culturais da cidade, que não esconderam o seu desassossego quando a FCG lhes voltava as costas e funcionava em circuito fechado e que depois, quando sentiram que faziam parte, deram uso ao espírito gregário com que se costumam mobilizar para as causas da sua cidade. Sem a determinação dos cidadãos, dificilmente estaríamos hoje a olhar para 2012 como um dos capítulos mais brilhantes da história de Guimarães, um acontecimento que movimentou a cidade e a projectou para uma visibilidade para que se preparou ao longo de décadas, mas que só agora alcançou plenamente.

Temos, portanto, boas razões para estarmos satisfeitos. Mas não estamos contentinhos. Porque, se a Capital Europeia da Cultura se cumpriu, nem todas as suas promessas se cumpriram. E se temos razões para olharmos com alegria para o que foi, temos também motivos para encarar com preocupação o que está para vir, num horizonte de crise em que se percebe que a cultura é encarada como um vício. E quem não tem dinheiro…

Parece claro que 2012 deixou por cumprir o seu objectivo programático de requalificar as instituições culturais vimaranenses. O modelo de “envolvimento” que foi aplicado, sem sequer ter sido objecto de entendimento prévio, ainda no tempo primeiro conselho de administração da FCG, revelou-se um equívoco inconsequente. As associações foram colocadas em dois patamares: as ditas de “primeira linha” que teriam um papel determinante no processo de programação (seriam “braços armados” dos programadores); as outras, seriam beneficiadas por uma dotação orçamental, a gerir em consórcio por três associações. A realidade da aplicação deste modelo prejudicou, manifestamente, as associações a quem foi prometida uma maior participação, que não se concretizou. E, no fim de contas, no seu conjunto, em 2013 as associações culturais de Guimarães não estão numa situação melhor do que estavam em 2011.

Até porque se aproximam eleições autárquicas, este pode ser também um tempo para uma reflexão partilhada acerca dos papéis a desempenhar pelos diferentes agentes culturais vimaranenses, no sentido de potenciar, no respeito da sua diversidade e independência, a convergência dos seus recursos e competências, erguendo as paredes de uma casa comum e derrubando os muros que, tantas vezes, os têm separado.

A actividade cultural em Guimarães não foi inventada por nenhum dos seus actuais protagonistas. É o produto acumulado de contributos dados ao longo muitas décadas por uma multidão de homens e mulheres dedicados a causas comuns. Gente que tem prestado os seus serviços nas associações e na autarquia e que, ao longo do tempo, se tem renovado e se continuará a renovar. O que nos dá uma certeza: se ninguém é insubstituível, todos fazemos falta.
[Texto publicado em O Povo de Guimarães de 15 de Fevereiro de 2013]


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