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Guimarães em 1922

Ernest Peixotto (1869-1940)

Em 1922, o escritor e artista norte americano Ernest Clifford Peixotto percorreu Portugal e Espanha, tendo feito o relato da sua viagem na obra Through Spain and Portugal. Aqui ficam as páginas que dedicou a Guimarães:

Para visitar esta terra partimos de trem, uma manhã, para Guimarães. A estrada do Porto atravessa por uma terra risonha onde cada casa está afogada em videiras e onde o pequeno Leça, cantado por Sá de Miranda, flui borbulhando através de um vale estreito, fazendo mover inúmeras rodas de moinho, mergulhando sob pontes de hera e polindo grandes pedras de granito, que brilham resplandecentes ao sol.

Finalmente, Guimarães aparece deitada no meio das suas vinhas e ainda guardada pelo seu antigo castelo, o berço da monarquia Portuguesa. A cidade tem um belo ar aristocrático - a de um nobre empobrecido com os seus majestosos palácios ostentando os seus escudos esquartelados por cima de suas entradas, as suas casas substanciais e os seus veneráveis pavimentos de pedras agora desgastados por centenas de anos de passos.

A seguir a uma praça pitoresca, com arcadas e de forma irregular, a igreja principal e a antiga Câmara Municipal, um edifício curioso que atravessa a praça com uma série de arcos atarracados. O mau gosto de uma geração recente remodelou o seu andar superior e adornou-o com esferas manuelina e com um cavaleiro indescritível de armadura estranha, uma figura burlesca com a graça de um valete de Luís XIV.

A Igreja de Nossa Senhora da Oliveira é uma construção grave e sombria, que data do primeiro período da história do país. No seu claustro de granito cresce uma oliveira, que recorda a história de onde a antiga igreja retirou o seu nome - uma tradição do tempo dos visigodos. Wamba estava a lavrar os seus campos, quando enviados de Toledo chegaram a dizer-lhe que ele havia sido eleito rei dos povos góticos. Incrédulo, ele gritou, em tom de brincadeira, que seria rei quando seu aguilhão desse folhas Assim dizendo, ele enterrou o longo bastão de oliveira, quando eis que começam a rebentar nele folhas a partir dele; espantado, ele tentou puxá-lo da terra, mas encontrou-o firmemente enraizado. Wamba era rei!

A partir desta igreja, uma rua longa e sinuosa, atravessada aqui e ali por arcos, e guarnecida com habitações antigas, sob aos poucos para o Castelo. A isto eu chamei o berço da monarquia portuguesa, pois aqui nasceu D. Afonso Henriques e aqui foi batizado numa pequena capela que ainda está de pé.

A antiga fortaleza permanece quase intacta, devido à sua construção sólida, pois é construído de blocos de granito bem aparelhados excepcionalmente grandes para um edifício da sua época. Você ainda pode andar por todo o seu caminho da ronda cujas muralhas e escadas, torres e bastiões, e até mesmo os curiosos merlões piramidais, um legado dos Mouros, ainda se mantêm no lugar. A vista das muralhas é encantadora: santuários nas colinas circundantes, o vale verde, a velha cidade, os campos, pelo quais nos dirigimos no dia seguinte, velados pelas suas telas de videiras, que se combinam para fazer um belo panorama.

Acordei cedo na manhã seguinte ao som de sinos, sinos alegres e joviais, tilintando músicas percutindo com um martelo nos sinos harmoniosos e, enquanto eu olhava pela janela, mulheres vestidos de preto iam para a missa (pois era um dia de festa), algumas a pé e uma ou duas em antiquados landaus, que se ajustavam bem com as fachadas de palácios gastas pelo tempo. Mas, antes do hotel, uma carruagem aguardava por nós, e, enquanto o ar ainda estava fresco, seguimos para Braga.

A estrada atravessava por uma terra de vinhedos, não os vinhedos rentes que conhecemos, mas as cepas de vinhas que alegremente trepam pelos de carvalhos choupos e cerejeiras - uveiras, chamam-lhes os Minhotos - vinte ou trinta pés no ar , apanhando sol, como fizeram nos tempos da antiga Roma - ulmisque adjungere vites. Assim crescem nos campos, mas nas aldeias são cultivadas em ramada, estendidas entre altos postes de pedra ou arranjadas em pérgolas e caramanchões que atravessam as ruas estreitas. À sua sombra, sentam-se velhas com rocas, e os estalidos dos teares das casas resistentes, construídas com sólidos blocos de granito.

Nas Taipas, ficamos tentados a sair da estrada e a visitar as ruínas da Citânia, cujas pedras curiosas nos tinham intrigado tanto no museu em Guimarães. Mas, sendo pesquisadores do pitoresco e não arqueólogos, e sendo incapazes de resolver enigmas que têm intrigado todos os estudiosos Celto-ibéricos, desistimos da expedição e começamos a subir a encosta da Falperra.

Through Spain and Portugal, by Ernest Peixotto, New York, C. Scribner's Sons, 1922, pp. 110-115

Rectificação: por uma lamentável troca de ficheiros, induzida pela semelhança dos títulos das obras, o texto que vai aí acima foi aqui inicialmente atribuído a Martin Hume, remetendo para a sua obra Through Portugal, de 1907, quando na verdade é um pouco mais tardio (1922), de outro autor (Ernest Peixotto) e, obviamente, de outra obra (Through Spain and Portugal). Pelo erro, aqui fica o meu pedido de minhas desculpas.

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