7 de fevereiro de 2012

Guimarães em 1873, pelos olhos de uma inglesa


Em 1873, Lady Catherine Charlotte Jackson (1824–1891), viúva do diplomata inglês Sir George Jackson, visitou Portugal, tendo publicado o relato da sua viagem no volume “Fair Lusitania”, editado em Londres no ano seguinte. A tradução portuguesa desta obra saíria da pena de Camilo Castelo Branco, tendo vindo a público em 1878 com o título “Formosa Lusitânia”. Aqui fica o relato da sua passagem por Guimarães.

Encontramos ao fundo do Monte os cavalos em que devíamos ir para Guimarães, tendo sido nosso intento ir às caldas do Gerez. Dissemos adeus a Braga. Eu, por mim, enviei-lhe “um lance de olhos anelante, lânguido”. Caminhamos por sítios encantadores, vistos, como no dia antes, sob o efeito do sol-poente e o brilhar da lua, que “emprestava magia ao espectáculo”. Já tínhamos quartos alugados na hospedaria da Praça e esperava-nos a ceia. Na seguinte manhã, primeiramente, como em toda a parte manda a etiqueta, visitei a Sé, ou, como lá dizem, a igreja colegiada, porque Guimarães não é bispado. Esta veneranda e velha cidade é conhecida em Inglaterra especialmente pelas bocetas lindamente enfeitadas, que levam o seu nome, e vão cheias das famosas ameixas de Guimarães. Dá-lhe fama em Portugal ter sido o berço do fundador da monarquia. Reza a tradição que na antiga capela do Santa Margarida ainda existe a pia em que foi baptizado Afonso Henriques, - o Alfredo Grande, português(*). D. João I fundou a igreja da Senhora do Oliveira, e muitas outras em diversos pontos do reino depois da batalha de Aljubarrota, em cumprimento de votos. Guimarães, tanto como Braga, merece o desvelo dos antiquários. Que fértil colheita do investigações arqueológicas não oferecem as antigas vilas e cidades da “Formosa Lusitânia”!

Permanecem ainda restos do castelo que habitaram os pais de Afonso Henriques, D. Henrique e D. Teresa, filha do rei de Leão, que trouxe em dote Guimarães e outras vilas e cidades ao norte. É magnificente a vista do terraço do castelo. As pristinas muralhas da vila, com suas torres e torriões, são de um alto interesse, e nisto cifra o antigo paço dos reis, convertido hoje em quartel. Cercam Guimarães altos serros. Deliciam-lhe os arrabaldes vergéis, vinhedos e lindíssimos jardins. As ladeiras são alcatifas de verdura. Frondejam carvalhos e castanheiros por sobre os passeios. Em muitas quintas do redor há vastos sobreirais. Dois rios, Ave e Vizela, golpeiam aqueles ubérrimos vales e lhes embelecem as encantadoras e variadas paisagens. Formoso sítio!

(*) Não há “capela de Santa Margarida”: é na igreja de Nossa Senhora de Oliveira que está a pia baptismal, que para ali veio em 1664 da igreja de S. Miguel do Castelo, onde o filho do conde D. Henrique de Borgonha foi baptizado.


A Formosa Lusitânia, Catherine Charlotte Jackson, tradução de Camilo Castelo Branco, 1877, pp. 383-384

Nota: não tem razão a autora, quando afirma que a capela de Santa Margarida não existia. Existia e existe. É a mesmíssima capela de S. Miguel do Castelo, que teve dois oragos.
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