19 de junho de 2011

Relendo "A Farsa", de Raul Brandão

 Raul Brandão (1867-1930)
A Farsa é uma das obras de Raul Brandão onde Guimarães está presente com maior evidência. Em dia em que os sinos não param de tocar na cidade e arredores, aqui fica uma página do grande escritor da Casa do Alto:

(…) A seu lado está a Felícia, presidente honorário das servas de Deus, associação instituída para que ninguém possa morrer sem confissão. É uma velha magra, austera e ríspida. Remexe de contínuo a boca enor­me. Tem a maxila inferior saliente e os seus gestos são decisivos. Quando fala ordena. Os passos rangem-lhe ao atravessar as salas. Põe e dispõe. Nas sacristias temem-na: nomeia e demite padres, e entra como uma rajada nas existências alheias, revolvendo tudo, derrubando tudo. Conversa baixinho com a Patrícia, viúva gorda e banal, que expõe no peito volumoso e mole, num medalhão do tamanho duma almofada, o retrato do marido morto e um caracol do seu cabelo tingido. Cheira a banha. Perto dela outra velha, inquieta e ran­corosa, discute com o padre:
— Até a gente devia mostrar satisfação quando nos morre uma pessoa de família...
— Conforme... — resmunga o sacerdote.
— Porque a dor é uma afronta a Nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu para nos salvar.
E todas as velhas, ao santo nome de Deus, logo descolam à uma os traseiros do canapé.
— É contrariar-lhe os seus desígnios! — conclui a Patrícia com importância e cólera.
— Mas, minha rica senhora — observa o eclesiástico — Deus é bom, Deus compreende que as criaturas são de frágil barro. Todos neste mundo estamos sujeitos a fraquezas.
— Pois, quanto a mim, é um escândalo! — exclama, e volta-se para as outras bem alumiada pela luz.
É a amiga mais íntima da Felícia. Juntas são temíveis. Nenhum doente lhes escapa. Esperam, espiam, compram os criados, intrigam e caem-lhes em cima, à hora da morte, pregando-lhes Deus, o inferno e as labaredas eternas. Alguns protestam. Debalde: as servas de Deus não desanimam, nem os largam. Rezam extensas ladainhas em livros encapados de negro, sentam-se dia e noite à cabeceira dos leitos, pregam, choram, chamam em altos gritos pela misericórdia infinita e subjugam-nos afinal, aterram-nos, matam-nos às vezes — mas sempre salvos.
A Felícia persegue até à última, com furioso rancor, os heréticos, seus inimigos pessoais. (…)
Raul Brandão, A Farsa, Cap. I
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4 comentários:

Silvestre Barreira disse...

E no capítulo III faz uma descrição excelente das Posses Nicolinas

Anónimo disse...

Dr.Amaro das Neves

Entrando no vasto e criativo campo da metáfora?
Poço sem fundo...

aan disse...

Silvestre,

E está lá a célebre posse do Cucúsio. Já várias vezes me referi aqui a esse texto brandoniano.

Caro Anónimo,

O texto de Raul Brandão trata da hipocrisia. Adapta-se a todos os tempos.

Manuel Anastácio disse...

Salvos à força. Texto muito adequado aos dias de hoje.