6 de junho de 2011

O que agora nos faz falta (pequeno contributo para um sobressalto cívico)



Tenho sido sondado para assinar a petição em que se pedem novos protagonistas para a CEC, o que me leva a esclarecer que sou, obviamente, solidário com os seu conteúdo e os seus objectivos. Apenas não subscrevo o documento por uma razão meramente formal, por ser dirigido ao presidente do Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães, órgão que integro e onde poderei, eventualmente, vir a ser chamado a pronunciar-me sobre o conteúdo do mesmo. Quanto à iniciativa, acho-a pertinente e ajustada ao que se exige no momento que vivemos.

Entendo que a actual situação, depois das declarações do Presidente da Câmara, na última quinta-feira, e da Ministra da Cultura, no dia seguinte, tende a ser cada vez mais insustentável. Numa situação normal, os membros do Conselho de Administração da FCG já teriam, no mínimo, colocado os lugares que ocupam à disposição de quem os nomeou. Porque o que está em causa é uma questão de legitimidade e de confiança que, é visível, já se quebraram de modo irremediável.

Em relação a eventuais mudanças na direcção da FCG têm sido colocados dois problemas:

1. Uma impossibilidade resultante dos estatutos da FCG. Trata-se de uma falsa questão. É verdade que os estatutos são um documento muito estranho (e continua a ser, para mim, um mistério o terem passado pelo filtro dos juristas do Ministério da Cultura, da Câmara Municipal e até da Presidência da República), que constrói um muro de betão em torno de quem exerce as funções de Presidente da Fundação. Como me diz quem sabe muito mais do que eu, com absoluta segurança jurídica, neste caso ninguém é indistituível, porque, além do mais, acima dos estatutos, estará sempre a lei geral.

2. Um problema resultante da falta de tempo, quando se está a pouco mais de meio ano de 2012. É verdade: este é um problema sério, mas não é inultrapassável. Aliás, no ponto em que as coisas estão, será sempre um problema, uma vez que ainda está quase tudo por fazer. Com um influxo de energia renovada, acredito que se saberá dar a volta por cima, colocando de pé uma Capital Europeia da Cultura com a dimensão e a dignidade que se exige.

Percebo a prudência que os partidos que se sentam à mesa da vereação municipal têm adoptado a propósito desta questão. Mas sinto que, na situação actual, o excesso de prudência pode ser imprudente. Importa tomar decisões, que certamente não serão fáceis e não estamos em tempo de assobiar para o lado, porque a culpa não é nossa. Há responsabilidades que tocam a todos. Não se esqueça que os estatutos da FCG foram aprovados por unanimidade na Câmara e na Assembleia Municipal e que a nomeação dos presidentes dos órgãos da FCG também foi unânime. Pelo que se percebe, vai havendo consenso entre os nossos responsáveis políticos quanto à raiz do problema. Impõe-se encontrar um consenso quanto à solução, assumindo cada qual a sua quota de responsabilidades. Que não é, obviamente, igual para todos.

O que se passa na FCG é muito grave. As sucessivas notícias que vão saindo e que ameaçam continuar a sair, porque a FCG tem tido o dom de as gerar, só servem para afastar os cidadãos de Guimarães de um momento que será único na história da sua cidade. E não, a culpa não é de quem dá as notícias ou as comenta: a responsabilidade é de quem cria os factos de que falam notícias e comentários.

Hoje é claro que se cometeram erros de casting. Confesso que a primeira vez que ouvi falar no nome da actual Presidente da Fundação Cidade de Guimarães foi quando vi anunciar-se o seu nome para o exercício dessas funções. Causou alguma surpresa, uma vez que se tinha chegado ao consenso de que o “comissário” da CEC 2012 haveria de ser uma figura ligada à cultura, com renome internacional e algum vínculo a Guimarães. Na altura, justificou-se a escolha com o argumento de que seria especialista nos complexos processos de candidaturas a financiamento europeu. Houve quem dissesse que na máquina que tinha que ser montada fazia falta um técnico com tais competências, mas não como responsável máximo da estrutura que tomaria a seu cargo a preparação da CEC 2012. A realidade veio a dar razão aos reticentes. Reconheço qualidades à actual Presidente da FCG, mas não as que a recomendariam para assumir a condução de um processo com as exigências deste. Sob a sua condução, o projecto entrou, há muito, em rota de colisão com a realidade. E, ao que se ouve, nem sequer as candidaturas a financiamento europeu estarão a correr como se esperava que corressem.

Esta história ainda tem muito para contar. Está carregada de equívocos, alguns deles com o dedo de um Ministro da Cultura que foi, ele próprio, um equívoco. Mas isso ficará para outro tempo.

Agora, é o tempo de fazer o que faz falta: tomar medidas capazes de provocar um sobressalto cívico na cidade, remediar os estragos, voltar a conquistar os cidadãos, cerrar fileiras e ir ganhar esta batalha.
Partilhar:

4 comentários:

Anónimo disse...

"Numa situação normal, os membros do Conselho de Administração da FCG já teriam, no mínimo, colocado os lugares que ocupam à disposição de quem os nomeou."

oh dr. Amaro das Neves, não o sabia ingénuo! Então o senhor acreita que aquela gente vai prescindir dos seus proventos? Aquilo, ao fim do mês, é melhor que ser Presidente da república. E nem precisaram de ir a votos... vão-se lá agora embroa, essa é boa! :):):)

;)

Anónimo disse...

Segundo o Jornal de Notícias,por falhas na candidatura Guimarães pode perder a Casa da Memória. Mas neste caso a culpa é da Câmara. Pelo menos é o que tenho lido e ouvido...

Anónimo disse...

Pessoas de bem teriam colocado o seu lugar à disposição quando se começou a sentir que já não colhem o apoio da população nem dos governantes locais e nacionais. Mas como é gente sem vergonha, mercenários de cultura ( área que lhes é absolutamente estranha), assobiam para o lado e comtinuam impávidos e serenos. Até um dia....porque há limites para a paciência dos cidadãos. Pode acontecer que a Dr. Cristina Azevedo sofra um dissabor e tráz, leva uma bolachada na rua para ver se acorda para a realidade. Minha senhora dê um sinal de dignidade e tome as medidas que se impõem...ou então terão de ser empurrados e vão daqui às cambalhotas, quais penedos da Penha e só param no Algarve. E bem, pois está na hora de meter férias e marchar. Oupa !!!

Anónimo disse...

Concordo com o comentário anterior, no entanto penso que nem com uma bolachada ela se vai embora.E ia fazer o quê?Onde arranjava um tacho a ganhar o mesmo?Só mesmo em Guimarães isto é possível!Vergonha de governantes que permitem que estas situações aconteçam.Acordem e façam alguma coisa