26 de abril de 2011

À volta do rio Merdário (bis)


Rio de Couros

A propósito da designação rio Merdário ou rio Merdeiro, que aparece em documentação medieval e que, por regra, se atribui ao rio de Couros, em parte atendendo à natureza dos ofícios que se praticavam nas suas margens, subsistem muitas dúvidas.

Tendo a acreditar que, na origem, aquela designação não correspondia ao nome do rio, propriamente dito, apenas indicando a função de escoadouro dos dejectos (humanos, animais ou "industriais") que desempenhava. Segundo esta ideia, merdario seria a designação genérica dos cursos de água que funcionavam como colectores dos esgotos produzidos nas zonas urbanas medievais, de que não faltam exemplos em documentação medieval dos países do Sul da Europa. Em Milão existia um sistema de esgotos que era canalizado para o rio Lambro Meridional, que, por exercer essa função, também era conhecido por Lambro Merdario. Piacenza, Novara e Como são outras cidades italianas onde correm rios que outrora comungavam de tal designação. E também os havia em França e em Espanha, nomeadamente em Cuixà (Catalunha francesa) e em Lérida (Catalunha espanhola).

Assim sendo, merdario não será o nome de um rio, mas sim um atributo da função que era destinada às linhas de águas usadas como condutores do saneamento urbano.

E com isto se responderia a uma interrogação que levantei ao analisar a documentação medieval disponível: o da dúvida sobre qual dos dois ribeiros que cercam Guimarães (Couros e Santa Luzia) seria o nosso rio merdario ou merdeiro: ambos o seriam.


PS: Segundo Cristina Torrão, em comentário deixado aqui, na Lisboa medieval também havia um curso de água similar, na função e no nome :

Ao fazer as pesquisas para o meu romance sobre D. Dinis, nomeadamente, respeitantes à cidade de Lisboa, deparei com a designação de "Rego Merdeiro", que era um curso de água (o esteiro da "História do Cerco de Lisboa" de Saramago), que atravessava a actual Praça do Comércio e ia desaguar no Tejo. Ao tempo da conquista da cidade por D. Afonso Henriques, era apenas um esteiro, que atravessava a planície, mas, ao tempo de D. Dinis, em que Lisboa já crescera para fora da Cerca Moura, era um córrego, onde se concentravam todos os dejectos. O Rei Lavrador mandou encaná-lo, devido ao mau cheiro.
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1 comentários:

Cristina Torrão disse...

Obrigada por esta referência. Já agora, digo onde encontrei a informação: Livro "Lisboa Medieval - A organização e a estruturação do espaço urbano", de Carlos Guardado da Silva, Edições Colibri 2008. Como o autor diz, na pág. 7, respeitante aos Agradecimentos: "O estudo que ora publicamos foi a nossa dissertação de Doutoramento em História Medieval, apresentada à Universidade de Lisboa em Janeiro de 2004 e defendida a 17 de Dezembro do mesmo ano".