16 de julho de 2008

Um fio de cabelo

Raul Brandão

"Essa extraordinária mulher que no colégio nos habituámos a conhecer pelo nome de D. Teresa ou Tareja, ajudou, pela ascendência do encanto feminino e pela ambição e astúcia, a deitar os alicerces a um reino. Dominou, num mundo bárbaro, os homens rudes e grosseiros, conseguindo manter a herança que o marido lhe legara. Mas pela beleza, que é força e fraqueza ao mesmo tempo, ia talvez destruir tudo, quando o poder passou, na cilada de S. Mamede, para as mãos do que devia ser o Homem, aquele homem feroz indispensável para marchar à frente das hordas, que nos assaltos nocturnos de que reza a História – se a grave História não está toda errada... – tomavam os castelos e conquistavam um reino. Vencida, essa figura de mulher destaca-se ainda no passado obscuro, e até hoje nos prende. Pouco ou nada sabemos dela ao certo, mas o encanto que exercia não se desvaneceu de todo. Das palavras que o amante lhe mandou gravar no túmulo depreende-se que foi loura – e um fio de cabelo ficou no negrume e na morte e teima ainda em reluzir."
Raul Brandão, 1928.
(A Ilustração Moderna, n.º 25/26, Julho-Agosto de 1928, Porto, pág. 192)
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