16 de julho de 2008

Guimarães na feliz restauração de 1808 (3)

Gravura alusiva à entrada dos franceses em Espanha em 1808. Da Col. da Sociedade Martins Sarmento

Em Guimarães, tardará a ser admitida a soberania dos franceses e dos espanhóis, seus aliados. A vila seria ocupada por tropas espanholas em meados de Dezembro, mas só no final de Janeiro de 1808 é que aparece formalizada nos documentos da Câmara a autoridade do “Imperador dos “Franceses”.

No dia 19 de Maio, a Câmara responde a um aviso do Duque de Abrantes, que o Príncipe D. João deixara à frente da Regência de Portugal, em que se aconselhavam os portugueses a submeterem-se ao Imperador dos Franceses e dava conta das “benéficas e magnânimas intenções” de Napoleão, com promessas de um futuro venturoso. Na resposta da Câmara de Guimarães transmitiam-se os “protestos de submissão e obediência a S. M. Imperial e Real”.

Tal submissão não se prolongaria por muito tempo. Já nos primeiros dias daquele Maio se desencadeara em Madrid uma rebelião do povo espanhol contra a dominação francesa, que seria perpetuada por dois célebres quadros, O Dois de Maio ou a Carga dos Mamelucos e os Fuzilamentos da Moncloa, de Francisco Goya, ele próprio testemunha dos acontecimentos daqueles dias. O levantamento contra os franceses, vitorioso em Espanha, teria reflexos em Portugal. São dadas ordens aos chefes militares espanhóis que se encontravam em Portugal para regressarem ao seu país, aprisionando e levando consigo os franceses. Obedecendo a estas ordens, o general Ballesta prendeu, no dia 6 de Junho, o Governador do Porto, o general francês Quesnel e parte para a Galiza. Uma primeira intenção de aclamação do Príncipe regente no Porto prevista para a madrugada do dia seguinte, ficaria adiada.

Em Lisboa, o levantamento dos militares espanhóis não teve o mesmo sucesso do Porto. Junot desarma-os e prende-os sem que tivessem tempo de pôr em prática as ordens que chegavam de Espanha, e logo dava início à repressão do levantamento em curso no Norte, depositando essa missão nas mãos de Loison, o famigerado Maneta. Ao mesmo tempo, punha em curso um processo de mobilização geral, com que pretendia criar um exército de 50.000 portugueses para combater Espanha, intenção que em muito contribuiu para agudizar as inquietações e a revolta contra os franceses, cada vez menos surda.

Antes da primeira invasão francesa, foram avançadas em Portugal medidas preventivas para evitar os saques e as destruições de património. O exército francês, ao contrário do inglês, não se fazia acompanhar por cozinhas nem hospitais de campanha. As suas tropas sustentavam-se com os saques que iam perpetrando. Os soldados aboletavam-se nos conventos e os oficiais superiores nos palácios. As pratas das igrejas costumavam ser alvos preferenciais dos seus saques. No dia 19 de Outubro de 1807, foi recebida em Guimarães uma carta do Príncipe Regente que mandava pesar as pratas da Colegiada, para mandar guardar a bom recato no convento de Santa Cruz de Coimbra, ou no de Tomar ou no de Palmela, “para ficar em depósito durante as actuais circunstâncias”. Esta medida não chegaria a concretizar-se, acabando grande parte desses objectos de prata, num total de mais de 378 quilos, por cair em mãos dos franceses, a título de contribuição de guerra. Boa parte da animosidade latente na população contra os franceses resultava deste tipo de delapidações.

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