9 de julho de 2008

As celebrações afonsinas de 1911 (3)


Intervenção de Eduardo Manuel de Almeida, presidente da Associação Comercial de Guimarães, na cerimónia de descerramento da lápide comemorativa no monumento a D. Afonso Henriques:

Ao descerrar da lápide comemorativa do centenário, no pedestal de Afonso Henriques, pelo ilustre governador civil, assistindo ao acto também o nosso digno e inteligente representante nas Constituintes, dr. Eduardo Almeida, foram lidas as seguintes mensagens pelos presidentes da Associação Comercial e da Comissão Municipal, respectivamente:

“Exmo. Presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Guimarães:

“A cidade de Guimarães comemora hoje solenemente o nascimento de D. Afonso Henriques, o Ínclito fundador da nacionalidade portuguesa — a nossa querida pátria.

D. Afonso Henriques tinha direito absoluto, incontestável, a uma homenagem soleníssima que firmasse bem na história o reconhecimento, a gratidão inteligente de um povo que herdou da sua energia e do seu esforço indomável uma pátria; do seu sangue o brio de a conservar intacta e do seu temperamento a ambição e a tenacidade de a alargar e estender por mares nunca de antes navegados para além dos confins conhecidos aos mais arrojados navegadores, contornando a África, avançando à América e levando a todo o orbe, com o pendão das quinas, a semente fertilizante da civilização latina. Afonso Henriques foi um revoltado, um independente, um batalhador e conquistador incansável. Afonso Henriques encarna em si e na sua elevada e arrojada estatura moral e física o verdadeiro e santo amor da pátria: ele, o fundador da nacionalidade portuguesa, e o verdadeiro, o lídimo protótipo da raça lusitana, de antes quebrar que torcer, a quem, como a filhos, transmitiu, com a herança sagrada duma pátria, a energia dos fortes, a altivez e independência de quem, por méritos próprios, tem direito a ser altivo e independente.

Senhor presidente:

Guimarães prestou já, há 24 anos, ao seu compatriota – o primeiro vimaranense e o primeiro português – a sua modesta homenagem elevando-lhe uma estátua. Hoje Guimarães veste-se de galas, entoa hinos festivos e organiza um cortejo cívico-histórico para solenizar o nascimento desse vulto formidável que se chamou Afonso Henriques e sem o qual, como disse Herculano, não existiria hoje a nação portuguesa e porventura nem sequer o nome de Portugal. Guimarães tem contribuído, como pode, para o pagamento desta dívida sagrada — que não é só nossa, mas de todos os portugueses. A dívida continua em aberto perante a Pátria; e pois que, como diz o nosso épico,

“…não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho seu paterno”

Guimarães pode abertamente e sem desdouro elevar altivamente a sua voz, com a serenidade dos que são fortes, porque são independentes, e com a dignidade dos que são independentes, trabalham para dizer ao país, para dizer a todos os portugueses: D. Afonso Henriques, o fundador da nacionalidade portuguesa, tem direito ao primeiro lugar nas e consagrações pátrias pois que ocupa e enche gigantescamente a primeira página da nossa história.

Senhor presidente da Câmara:

A Associação Comercial de Guimarães, para solenizar o VIII centenário de D. Afonso Henriques, mandou gravar lápides comemorativas no sopé da sua estátua e nas rochas que formam o alicerce do vetusto Castelo de Guimarães que foi o berço do grande Vimaranense. Dignai-vos, snr. Presidente, descerrar essas lápides enquanto nós, imitando as hostes guerreiras que nos campos de Ourique seguiam fascinadas o seu indómito capitão, bradamos:

Viva a Pátria! Viva Portugal!”

A Alvorada, n.º38, 10 de Agosto de 1911


[continua]
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