2 de fevereiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 18

...continuado daqui


Conclusão do texto publicado por Francisco Martins Sarmento no n.º 6 do 28 de Novembro:


Vê-se, pois, em face destas interpretações tão claras e positivas, que até o dia 17 de Janeiro, pelo menos, a fina flor da imprensa braguesa, constituinte, progressista, regeneradora pura, regeneradora impura, assentava como coisa incontroversa, embora uns jornalistas puxassem para aqui, outros, para acolá, que as actas da Câmara e da Junta Geral nada mais eram que duas metralhadoras, que tinham por alvo único o delegado do governo, de quem os políticos da terra desejavam desfazer-se por motivos muito pouco confessáveis. Que as declarações de tais actas se ocupassem com esse pobre diabo, chamado Guimarães, um impertinente serviçal da capital do distrito, como escrevia o Amigo do Povo, nisso é que nunca pensou ninguém.

A opinião de todos os cavalheiros, a que acima temos aludido, fez uma reviravolta inteira: o fim das duas declarações não era, dizem eles agora, exautorar no meio da praça pública o governador civil; era dar plenas satisfações a Guimarães. Pois que s. exc.as o afirmam, que remédio temos nós senão acreditar na sua palavra de hoje, como acreditamos na de ontem, quando afirmavam o contrário: é prova de sabedoria mudar de opinião. Se vamos fazer duas pequenas observações, é simplesmente para que s. exc.as, se estiverem por isso, nos dissipem umas duvidas que nos anuviam o espírito.

A satisfação plena da Câmara. Propriamente, a ofensa a Guimarães não consistiu nas violências brutais, que todo o país hoje conhece. Para a entidade – concelho de Guimarães – a assuada e o apedrejamento foram apenas acessórios, que lhe mostraram que “as classes” de Braga têm excelentes pulmões, quando dão morras aos seus inimigos e jogam a pedra com uma certa perícia. A ofensa feita ao concelho de Guimarães e ao país inteiro – porque enfim no país rege o sistema liberal, suposto muitas vezes o não pareça – a ofensa, dizemos, consistiu própria, senão exclusivamente, na sem-cerimónia com que todas as classes e condições de Braga puseram em farrapos um dogma liberal, a ampla liberdade de votação concedida aos procuradores de uma Junta Geral de Distrito, fossem eles quais fossem, e de que terra fossem. Esta sem-cerimónia chama-se um crime, quando é praticado por um indíviduo e não perde o seu carácter, por ser praticado por uma cidade. Pelo contrário torna-se monstruoso.

Que este crime se cometeu em Braga; que com ele carregam todas as classes e condições da cidade, é um facto histórico, que a sua imprensa se encarregou de transmitir à posteridade e sublimando-o como “uma glória do povo” bracarense.

Era destes crimes que a Roma portuguesa tinha de penitenciar-se, não perante Guimarães, seu serviçal, porque era exigir muito que Braga desse satisfação aos seus criados, mas perante o país, a parte liberal do país.

Deu-as? Aqui está o que diz a inexorável história: No dia 28 os procuradores de Guimarães são corridos à pedra e à lama por 2.000 pessoas de todas as classes e condições; no dia 29, o número dobra: são 4.000 pessoas, igualmente de todas as classes e condições, que exigem uma sessão da junta dentro de 24 horas para o fim exclusivo de resolver a questão do liceu conforme as “aspirações” dos apedrejadores; no dia 30 vemos a Câmara Municipal de Braga lastimar que tais “aspirações não estejam ainda satisfeitas” e vemos finalmente, horas depois, completamente satisfeitas as aspirações da câmara e de todas as classes de Braga, graças à complacência da Junta Geral, que lhas atendeu tão amavelmente, quão desamavelmente atirou para baixo da mesa o protesto da Câmara de Guimarães e dos procuradores deste concelho contra a legalidade da ilegalíssima sessão.

Que se deduz daqui? Uma coisa só: o crime começou no dia 28; continuou no dia 29; consumou-se no dia 30 e até hoje passa sem novidade na sua importante saúde. Se qualquer liberal honrado toma como uma satisfação a declaração da Câmara de Braga, quando horas antes de consumar o atentado contra “as garantias constitucionais”, “lastima” que ele ainda não esteja assente em pedra e cal, venha ele a campo e arrearemos bandeiras.

A satisfação dada pela Junta Geral. Essa faria rir as pedras, se estas coisas fossem para galhofa. É corrente e moente que em toda a satisfação por uma ofensa há um ofensor e um ofendido, e àquele é que compete dar satisfações. No caso sujeito a ofensa é o atentado contra a colectividade chamada junta geral do distrito de Braga – atentado contra as suas “garantias constitucionais”, como ela própria declara na sessão de 30; o ofensor são os arruaceiros; o ofendido é ela, Junta. É claro portanto, como o sol meridiano, que ajunta não tinha a dar satisfações, mas a recebê-las. Há uma ironia sangrenta nesta lembrança de dividir em duas uma corporação solidária e una, mostrando-a na atitude burlesca de dar e receber satisfações ao mesmo tempo – uma ironia e uma ingratidão negra, como uma noite de trovoada. Sim, é a tristíssima verdade, a Junta deu e recebeu satisfações; porque a maioria dela entre os arruaceiros, que a haviam vilipendiado, e os seus colegas, mais directamente ofendidos pelos “desordeiros”, preferiu bandear-se com estes, sendo por isso obrigada a justificar-se daquele acto sem nome, nem qualificação. A satisfação, embrulhada cora a censura ao governador civil, é apenas o grito de uma alma penada, e é quase uma ferocidade de tigre hircano vir zombar daquele suplício.

Bem basta que os indiferentes digam, como dizem, que a pobre da Junta acabou de empurrar os seus colegas de Guimarães para fora do grémio da sua corporação. Poupem ao menos os mortos, e não falem mais em satisfações a Guimarães.

Para convencer alguém destas extravagâncias, será necessário possuir os filtros de Circe, que transformava os homens em cerdos.

O mundo não é tão tolo como o fazem; já devem estar desenganados, depois da sua visita a Lisboa, que o país não se limita unicamente à cidade de Braga.

[28 de Novembro, n.º 6, Guimarães, 25 de Janeiro de 1886]
continua aqui...
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