30 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 16

...continuado daqui

Neste texto, Francisco Martins Sarmento descreve um comício realizado em Braga no dia 17 de Janeiro de 1886.

O “meeting” do dia 17 em Braga
Verdadeiramente fantástico!
O cenário é pouco mais ou menos o mesmo que o dos meetings do dia 28 e 29 de Novembro; os actores são os mesmos. Como então, fraternizam todos os partidos e fragmentos dos partidos políticos, e, como então, os cronistas acham o espectáculo imponente. A cratera da indignação, ainda como naqueles gloriosos dias, referve no meio da assembleia; foi aquecida do sábado para domingo e calculou-se que havia de fazer explosão a uma hora, marcada pelo cronómetro dos vereadores da terra. Sim; há a maior os vereadores com o seu estandarte, e as portas das casas estão fechadas, não se percebe bem para que. É domingo.
De resto, trata-se, sempre como nos dias 28-30, duma santa causa, nada menos desta vez que a defesa da integridade do território..,
Os oradores ajeitam-se para carregar a fundo os invasores com a espada flamejante da retórica mais patriótica, e, ao que parece, lá fora os Tirteus afinam as gaitas, que hão de levar os bragueses â guerra, se o inimigo não recua ao trom das hipotiposes e insistir no intento de lhes arrancar um pedaço dos seus domínios. Mas o inimigo? Será ainda a desdentada e paralítica Guimarães, que os bracarenses mandaram pastar, como o cavalo lazarento de Tolentino? Não. Nem uma palavra ofensiva para Guimarães, afirma um cronista: o alforge dos ultrajes está já vazio, nem Guimarães é coisa que possa ser tomada a sério — está dito e redito. O inimigo, contra quem se fazem estes preparativos bélicos, é o parlamento e sobretudo o governo. Pelo que, mal soa a hora, preestabelecida para a erupção das lavas indignadas, as lavas começam a jorrar pela boca dos tribunos.
Um deputado governamental declara que fará ouvir a sua voz no parlamento com o máximo desassombro e empregará todos os últimos recursos. Não se sabe verdadeiramente que últimos recursos serão estes; os da glote decerto não.
Um proprietário clama que, se o governo e o parlamento não atender as reclamações de Braga, é de voto que a capital do distrito corte as suas relações com o governo central. Não já se entende bem; e o croniqueiro cuja narrativa seguimos, maior de toda a suspeição, porque é bracarense, comenta: “A assembleia manifestou-se entusiasticamente, abraçando tão simpática e generosa ideia e emancipando-se da tutela da entidade governo...
Um miguelista abunda nas ideias dos oradores precedentes, acrescentando — diz outro informador — que, quando as vozes braguesas não forem atendidas, ainda “restam as bocas dos sinos dos campanários.”
Para frisar o contraste com o preopinante miguelino, aparece um padre, que começa por fazer a apologia da revolução francesa e acaba por horrorizar-se com a ideia de que a Senhora do Sameiro possa ir para o Porto. Brada que são necessários remédios heróicos; quebrar as relações com o governo central e num crescendo de indignação e de fífias entra a berrar: Aqui d'el-rei, ladrões! Os ladrões são o parlamento e o governo, que intentam esbulhar o distrito de Braga dum concelho que sempre lhe pertenceu, levando entre as preciosidades do saque o Sameiro com a sua Senhora. A assembleia, observa o comentador, saudou o orador “com delírio por traduzir bem o pensamento e o sentir do meeting.”
Ele, orador, já tinha prevenido os patriotas que ia pôr os pontos nos ii; mas não se vê em boa verdade que os seus ii tenham mais pontos, que os dos oradores precedentes, de onde é licito inferir que este taquígrafo do meeting deixou no tinteiro os melhores pontos dos ii do furioso sacerdote. Que tais seriam eles?
Os ii sem tais pontos já são porém extremamente eloquentes e escusamos de nos cansar a percorrer mais caminho, visto que o pensar e o sentir do meeting foi tão bem compreendido e formulado pelo apologista da revolução de 93 e da Senhora do Sameiro, que chegou a causar delírio.
A assembleia ficou nisto: empregar remédios heróicos, quebrando relações com tutti quanti teimassem em esbulhar Braga dum concelho que sempre lhe pertenceu, fosse o usurpador o parlamento, o governo, ou qualquer entidade, a que aludissem as reminiscências da revolução francesa.
É de advertir que a comissão, filha puríssima do meeting, encarregada de levar ao governo na dobra das suas togas a paz ou a guerra, foi acompanhada até Nino pelos Tirteus que sopravam nas suas frautas o hino da Maria da Fonte – a marselhesa lusitana, acentua um narrador – regendo o coro: “Eia avante, bracarenses!”, cantado por numerosos patriotas(1) enquanto uma turba ainda mais crescida fazia o mesmo pelas ruas da cidade, electrizando moços e velhos com aqueles cantos nacionais sublinhados.
(1) Estes patriotas seriam 5:000, conforme o cálculo de um correspondente para um jornal do Porto, e, segundo afirma uma folha desta cidade, não pagaram o transporte nem à ida, nem à volta, por mais diligências que os empregados do caminho-de-ferro fizeram para isso. Se estavam em revolução!

Não pode pois estar mais bera definida a atitude da cidade de Braga, mercê dos Demóstenes do dia 17, que não tiveram papas na língua. A cidade de Braga não é a capital dum distrito; é a capital dum pequeno reino, que se foi formando misteriosamente debaixo da terra, até rebentar de repente como um tortulho, do dia 17 para o 18, do sábado para o domingo. Compreende-se agora em todos os seus contornos o procedimento de Braga com Guimarães desde o dia 28 de Novembro; era já o exercício da sua soberania em embrião sobre um povo tributário, uma pertença do seu imperiozito, adquirida não pela conquista das armas, mas pela posse pacífica da chuchadeira de mais de meio século. O concelho de Guimarães é uma possessão da cidade de Braga e ai! de quem tentar furtar-lhe aquela galinha de ovos de ouro, esbulhá-la daquele território que sempre lhe pertenceu! O parlamento? O governo? Que têm o parlamento e o governo com os territórios do império braguês? Querem atentar contra a integridade daqueles territórios? Mas não conhecera Braga, nem a heroicidade, o brio, o pundonor dela, quando se trata de defender as suas galinhas de ovos de ouro e a inviolabilidade dos seus direitos senhoriais. Que venha o parlamento, o governo; que venha o governo com as forças do continente e do Ultramar reunidas, e correrão rios de sangue. Ao primeiro grito de alarme, os miguelistas correrão o reino de Braga fazendo falar as bocas dos sinos e mostrando ao seu povo que o inimigo pretende dar em terra com a religião, levando o Sameiro e a Falperra para o club de Aguardente; os partidos políticos, que se esfarelara ali como pão de broa, tornar-se-ão infinitamente mais numerosos; armando de chuços e fouces roçadouras os seus sequazes, e... o mais que se pode imaginar.
Em vez de imaginar tais horrores, moralizemos. Tudo aquilo foi uma comédia, representada por certos maganões, bastante ingénuos, para acreditarem que com telegramas e suplementos de jornais se pode convencer o país de que a cidade de Braga não tem mais que fazer do que indignar-se de dois em dois meses, e sempre por motivos tão ponderosos e tão vitais para o organismo da sociedade portuguesa, que toda ela estremece nos seus fundamentos, se há um meeting naquela terra. E tão adoráveis são estes comediantes, que, tendo ainda há pouco tempo assustado a nação inteira, contando-lhe que todas as classes e condições de Braga estavam tão indignadas, tão fulas, mas ao mesmo tempo tão justamente indignadas contra os procuradores de Guimarães à Junta Geral do Distrito, que tiveram de expulsá-los à pedra e à lama do seio daquela corporação, vêm agora dizer-lhe que as mesmas classes e condições estão outra vez indignadas e justamente indignadas, porque se fala num projecto de lei, que desanexa o concelho de Guimarães do distrito, de onde foi brutalissimamente expulso!
A comédia produzirá certamente o efeito oposto ao que os ingénuos calcularam; mas nós temos de agradecer-lha cordialmente. As filarmónicas braguesas podem estafar à sua vontade os ecos da sua cidade; todas as classes e condições da mesma cantar dia e noite quantas trovas semi-revolucionárias lhes lembrarem; os seus meetings fabricar quantos obuses quiserem, que o distrito o que fará é rir-se destes guerrilheiros que seguem a prudente sentença: “preparemos-nos e vão”. Mas o que fica bem em evidência – e isso pede bilhetes de agradecimento da nossa parte – é que desde o famoso 28 de Novembro até à data em que escrevemos, em Braga não há rei, nem roque; há a mais genuína das anarquias.
É de ver que se o governo tivesse ai li um representante, não se admitia a possibilidade de um meeting, como o do dia 17, em que o tema dominante e insistente consiste em pregar a rebelião contra as decisões do parlamento e contra o governo.
Aquilo foi possível, porque desde o dia 28 o delegado do governo se sumiu pela terra abaixo e a cidade de Braga ficou no poder dos anarquistas da rua de Água, que expulsaram os procuradores de Guimarães da Junta do Distrito, e na dos 4.000 que em seguida deram a este parlamento provincial uma nova organização, segundo a qual ele ficou a funcionar a sabor dos interesses da cidade e não conforme as conveniências dos concelhos, e sem importar-se com as declarações dos membros da Junta “velha”, que se diziam coactos. Hoje os corajosos anarquistas levantam mais alto as suas aspirações, depois daquela conquista; pretendem que até o parlamento nacional resolva as questões, como o exige a cidade de Braga e os seus interesses; se não vai tudo raso! Divinos!
Estranhe quem puder, depois de tudo isto, que o concelho de Guimarães rompesse as relações com a cidade rebelde, por não reconhecer ali autoridade alguma legitima. Qual? As corporações distritais, reformadas pelos sediciosos? Então aquilo são entidades legitimamente constituídas?! O delegado do governo? Que é dele? Em Braga, desde 28 de Novembro, aquele lugar está vazio, tão vazio que se prega a guerra “santa” contra o governo, e o seu representante brilha pela sua ausência.
Quem estava fora da lei era Braga a sediciosa, Braga a rebelona. Ela não podia ser intermediária entre o concelho de Guimarães e o governo central, porque rompera violentamente o elo que prendia o concelho ao distrito, o distrito ao governo central.
Havia catacegos que punham isso em dúvida? Aí têm os factos do dia 17 e subsequentes com a brutalidade de todos os factos. A declaração da cidade de Braga gritando nos meetings que romperá as relações com o governo, que resistirá às leis votadas em cortes, tem valor pela franqueza; mas era supérflua, porque virtualmente todas as rebeldias, que ela contém, existem desde o dia 28 de Novembro na capital do império braguês.
[28 de Novembro, n.º 5, Guimarães, 18 de Janeiro de 1886]
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