25 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 12

...continuado daqui

E aqui se termina a segunda edição da Revista das Folhas de Braga, por Francisco Martins Sarmento.

Vêem a tempo os meios legais! A questão do liceu só podia ser resolvida legalmente nas sessões da junta, e, empregando extemporaneamente o meio pouco legal do calhau, a cidade de Braga (todas as classes) deu em si, como o sino, porque se inabilitou para lançar mão dos meios legais, por que suspira agora. É evidente. Estamos a 29; falta um dia para o encerramento das sessões da Junta. A Junta foi apedrejada e enlameada por “todas as classes de Braga”, porque não será necessário demonstrar, cremos nós, que o bruto insulto feito a três dos seus membros, foi feito a toda a corporação. Não se imagina pois por que meios legais os nossos anarquistas possam tirar-se do beco sem saída, em que se meteram, depois de porem a junta fora do combate.

Aqui está como: “Depois de entusiásticos vivas a academia e aos seus protectores, foi a comissão, seguida de mais de 4:000 pessoas, ao hotel Real, pedir ao snr. dr. Jerónimo Pacheco Pereira Leite, presidente da junta geral do distrito, para que este cavalheiro usasse de lodos os meios ao seu alcance para que... segunda-feira e última sessão da Junta, se reunissem os snrs. procuradores em número legal para poder funcionar, a fim de ser resolvida a questão que deu origem a todas estas manifestações”.

E que cuidam os leitores que fez o snr. presidente da Junta em face das quatro mil pessoas, que vinham apresentar-se-lhe como editores responsáveis de todas estas manifestações?

“S. exa. – continua serenamente o Comércio do Minho – prometeu fazer tudo e assim o executou logo.”

Havemos de concluir que o snr. presidente da Junta considerou a selvagem assuada como um facto inteiramente estranho à corporação, cuja honra e dignidade lhe cumpria zelar, como uma rixa entre uns fulanos quaisquer, uma questiúncula pessoal, de que a junta não queria, nem deveria saber? Nada disso. A junta reuniu-se em vinte e quatro horas, como exigiram os anarquistas; também conforme eles exigiam, a questão do liceu foi votada por unanimidade; mas igualmente por unanimidade foi votada uma proposta, em que se lê – que a junta geral do distrito de Braga, “profundamente impressionada, lamenta os acontecimentos do dia 28 do corrente, e lamenta este proceder tanto mais atentatório das garantias constitucionais, quanto ilegal e subversivo” ; não pôde “deixar de lamentar tão insólito procedimento da parte dos desordeiros, bem como da parte da autoridade superior do distrito, que tendo conhecimento com antecipação do propósito cm que estavam os manifestantes, não só não coibiu essa manifestação, mas até parece que a tolerou”; protesta portanto contra esses factos “violentos e arbitrários”.

Parece peta, mas é a verdade pura. Essa respeitável junta de distrito de Braga vê os desordeiros, os manifestantes, que a correram à pedra e à lama em três dos seus membros, violando as suas garantias constitucionais, vê-os vir da Ponte de S. João para um meeting, de um meeting para um comício, de um comício para a presença do seu presidente, dizendo-lhe, sem ao menos se darem ao incomodo da mais pequena satisfação: – “queremos Junta dentro de vinte e quatro horas e a questão do liceu resolvida conforme as nossas exigências”, e essa respeitável Junta, no mesmo momento em que atira à cara dos anarquistas o seu crime, vai consagrar-lho, fazendo-lhes todas as vontades! E ainda vem censurar a autoridade superior do distrito, por tolerar as manifestações, ela que fraternizou tão cordialmente com os manifestantes, os desordeiros, os seus vilipendiadores, e satisfez tão completamente os desejos deles, que abre uma sessão com exclusão dos seus colegas de Guimarães, que aliás sabe oficialmente que se declaram coactos!

A nota cómica : – “para prova de deferência e lealdade para com os seus colegas insultados”, manda-lhes a cópia daquele retalho da acta!

Não abusaremos da misérrima posição em que a junta geral do distrito de Braga quis colocar-se. Nenhuma duvida que toda a lama, que os desordeiros e manifestantes arrojaram sobre três dos seus membros, estava acumularia na sala da memorável sessão e que a infelicíssima corporação, ao passo que deliberava, como deliberou, se ia afundindo, afundindo naquele enorme monte de imundícies.

Ela lá está morta e enterrada Naquele ignominioso sepulcro. Pela nossa parte, apenas lhe diremos: requiesciat in pace; mas a Voz do Distrito já abriu o exemplo dos necrológios infamantes e o mais e o melhor ainda está para vir... de Braga.

[28 de Novembro, n.º 2, Guimarães, 28 de Dezembro de 1885]

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