24 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 11

...continuado daqui

O n.º 2 do jornal 28 de Novembro foi publicado na véspera de Natal de 1885. Nele Francisco Martins Sarmento retoma a sua revista das folhas de Braga., que aqui vamos continuar a ler.

Por honra de Braga

Depois da vitória. — “Tinha apenas regressado da Ponte (onde parara a caça ao homem), quando toda a academia, em número talvez de 1.500 estudantes, se dirigiu para o meeting que fora convocado para as 5 horas da tarde. Era imponente o aspecto da sala. Naqueles rostos significava-se uma indignação justa e um franco entusiasmo pela vingança de uma causa santa.”

Não vá o leitor por distracção cuidar que estamos historiando por nossa conta. Nós não teríamos imaginação bastante para pintar a indignação e o entusiasmo da vingança manifestando-se simultaneamente no rosto dos meetingueiros: sem darmos duas caras a cada um, não arranjávamos nada. Quem viu tudo aquilo foi o Comércio do Minho, do qual extraímos o texto retro e o mais que vai seguir-se.

No meeting resolveu-se a convocação de um comício para o dia seguinte. Quanto ao glorioso 28 de Novembro, esse acabou por vivórios pelas ruas, vivórios, em que foi contemplado o supremo magistrado do distrito. Pudera! sem a sua valiosa protecção, o drama da “vingança” não passaria de ensaios em alguma trapeira, ou, se chegasse a pôr-se em cena, para onde os actores iam fazer meetings era para a cadeia.

Vem o dia 29 com o seu comício e aí nomeia-se uma grande comissão composta de “todas as classes” de Braga. Já no crime da assuada vimos representadas “todas as classes e condições “ de Braga, conforme a noticia das folhas da terra; mas o leitor desconfia naturalmente da veracidade da noticia, por não ver razão alguma, capaz de explicar-lhe como num certo dia “todas as classes e condições” de Braga furam mordidas pela tarântula, a propósito de um melhoramento, que somente podia interessar a uma parte quase microscópica da cidade. Porque em Braga, como em todas as outras terras, a grandíssima maioria não sabe ler nem escrever, e nem sequer nisso pensa; uma grande minoria limita as suas aspirações à instrução primária; somente urna fracção mínima da população poderá entusiasmar-se com a matemática e a química. Como explicar, em vista disso, a colaboração de “todas as classes” de Braga numa obra, que tem por fim dotar um liceu com algumas cadeiras mais? À falta de razão óbvia, ocorre perguntar se os anarquistas pelo órgão das suas gazetas vêem caluniar todas as classes da sua terra, que ficaram mansas e quietas em suas casas, mas que lhes convinha denunciar como cúmplices no crime, para se esconderem atrás delas; ou, no caso de ser verdadeira a denuncia, se foi o medo que as forçou a fraternizar com uns arruaceiros, que apedrejavam os seus adversários por dá cá aquela palha e se tinham mesmo lembrado de lhes aplicar à cara douches de aguarrás.

Gastamos tempo com o enigma, porque ele é mais importante do que à primeira vista parece e ninguém o decifraria decerto, se o Comércio do Minho não viesse com a sua inocência habitual, levantar a ponta do véu. A obra da grande comissão – diz-nos sem rebuço esta folha – consistia “em pôr em prática todos os meios legais para defesa dos interesses da cidade vinculados à questão do liceu de Braga”. Os interesses da cidade, tomando agora a dianteira à magna questão do liceu,... não há nada mais significativo. Mais cadeiras, mais estudantes, muitos estudantes, muitíssimos estudantes a comer, a beber, a calçar, etc. ele, e aqui estão “todas as classes” de Braga a calcular mundos e fundos, pouco mais ou menos como a Perrete, com a sua bilha de leite à cabeça. Compreendem agora porque até os sapateiros da rua de Água se arriscaram a ficar sem as suas formas, os ferreiros sem os seus martelos, o mulherio sem as suas panelas, tudo isto por causa da matemática, da química, da física, etc., que havia de ser ensinada no liceu?

Os interesses da cidade... Nós trataremos a seu tempo deste mote de guerra, que incendeia os burgueses contra os governadores civis e as juntas de distrito, se têm o atrevimento de não embrulhar os negócios distritais com os municipais, para que a cidade se enriqueça à custa do distrito.

Por agora basta ficar sabendo que havia razões ponderosas para que “todas as classes” de Braga saudassem os anarquistas: os seus interesses materiais estavam vinculados à santa causa. Cromos pois deveras que na cruzada, dirigida pela grande comissão, se alistassem todas as classes de Braga. O que nos espanta é que esta grande comissão se lembre agora de pôr em prática todos os meios legais para conseguir o seu fim.

[28 de Novembro, n.º 2, Guimarães, 28 de Dezembro de 1885]

continua aqui...

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