2 de fevereiro de 2007

Os Apontamentos do Padre Caldas

Guimarães, cúria augusta do primeiro Afonso, berço notabilíssimo da monarquia portuguesa, assenta em prados verdejantes, que se alastram nas fraldas ocidentais da serra pitoresca de Santa Catarina: assim começava o Padre António José Ferreira Caldas a descrição da origem desta terra na sua obra “Guimarães, apontamentos para a sua História”, que, 126 anos depois da sua publicação inicial, continua a ser uma referência incontornável da historiografia local vimaranense.
O Padre caldas nasceu em Guimarães, na freguesia de S. Sebastião, no dia 3 de Fevereiro de 1843. Por ter nome exactamente igual ao de seu pai, um conceituado comerciante vimaranense originário de Vizela, era conhecido como António José Ferreira Caldas Júnior. Sua mãe foi D. Maria Maximina da Silva Caldas. Estudante brilhante, frequentou o Liceu de Braga e o Seminário do Porto, onde concluiu o curso de Teologia. No dia 11 de Junho de 1870, foi ordenado presbítero.
Desde cedo se envolveu activamente na vida da terra que o viu nascer, participando, nomeadamente, nas célebres festas dos estudantes vimaranenses a S. Nicolau. Nos anos de 1864 e 1865, recitou nas ruas da cidade, acompanhado pelos toques de tambores e zabumbas, o bando escolástico (o pregão).
Homem de letras, fez a sua estreia literária como autor dramático com a peça “Saudade, episódio de um reinado”, que escreveu com Nicolau Máximo Felgueiras e que se representou pela primeira vez no dia 11 de Março de 1869, no Teatro D. Afonso Henriques, repleto de público. As artes da escrita cultivou-as também na imprensa local, nomeadamente nos jornais Religião e Pátria, Fraternidade e Espectador, de que foi fundador e destacado mentor, no qual publicou diversos textos sobre curiosidades e assuntos da arqueologia e da história de Guimarães.
Em 1873, publicou um opúsculo dedicado ao culto da Penha (“Local e Gruta-Ermida de Nossa Senhora do Carmo da Penha”), de cujas belezas foi um dos mais destacados entusiastas. O produto da venda deste livrinho, que ofereceu à Irmandade da Penha, foi utilizado para custear a construção de um relicário, que seria concluído em Julho de 1880.
Orador sagrado proeminente, de verbo fácil e grande fluência, fazia ouvir a sua voz nos principais actos solenes que então tinham lugar em Guimarães, como no Te Deum que se realizou na Colegiada no dia 8 de Maio de 1870, comemorando o fim da Guerra entre o Brasil e o Paraguai, ou na celebração do Centenário de Camões, em 1880.
Participou activamente na defesa e valorização do património histórico e monumental vimaranense, tendo integrado, com Francisco Martins Sarmento, em 1874, a comissão que dirigiu o restauro da igreja de S. Miguel do Castelo, em parte custeada por subscrição pública. Esta operação de restauro iria tornar-se, para a posteridade, num caso exemplar de cuidado e rigor colocados na recuperação de um monumento histórico.
No início do mês de Março de 1882, foi distinguido com a nomeação para sócio efectivo da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses. No dia 18 desse mês, seria também elevado a sócio correspondente da Real Associação de Geografia de Lisboa. Estes reconhecimentos vinham na sequência da publicação da sua monografia sobre Guimarães, trazida a público no ano anterior.
Guimarães, apontamentos para a sua história” resulta de um trabalho persistente de investigação sobre os anais de Guimarães e surge como pedra percursora da profunda renovação dos estudos da história local vimaranense que se fará sentir com o advento da Sociedade Martins Sarmento, nascida pela mesma altura. Até à obra do Padre Caldas, o conhecimento da história de Guimarães ficava-se essencialmente pelas velhas (e um tanto fantasiosas) “Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães”, do padre Torcato Peixoto de Azevedo, de 1692 (publicadas pela primeira vez em 1845), que foram replicadas pelo padre Carvalho da Costa na sua “Corografia”.
Na apresentação dos seus Apontamentos, o Padre Caldas expõe os motivos que o levaram a lançar-se naquela tarefa de reconstituição histórica: manifestar à terra, que me foi berço, a dedicação que lhe consagro, determinaram-me a gastar algumas horas de ócio a coleccionar estes apontamentos, que poderão servir um dia para a história de Guimarães. Pelas páginas desta obra, inicialmente publicada em dois volumes, passam a história, a geografia, a economia, o comércio, a indústria, a cultura, a arte, os documentos, as pessoas notáveis (em virtudes, em letras, em armas, nas artes), as festas, os monumentos, as instituições, a imprensa ou o teatro de Guimarães. Nos “Apontamentos”, António José Ferreira Caldas apresenta-nos um notável mosaico multifacetado, fundamental para a compreensão da realidade vimaranense, que oferece aos seus conterrâneos, sem atavios nem galas, mas tais como os encontrei na história, na tradição e nos arquivos pulverulentos.
A morte levou-o precocemente, no dia 22 de Julho de 1884, quando contava apenas 41 anos, não dando tempo a que concretizasse um projecto grandioso que tinha entre mãos: escrever e publicar um estudo que abrangesse todas as freguesias e lugares do concelho de Guimarães, a cujo estudo se dedicava, coligindo notícias e compulsando documentos.
Já passaram mais de 125 anos sobre a data da primeira publicação dos “Apontamentos” do Padre Caldas. Desde a altura em que foram escritos, sucessivos avanços alteraram profundamente o nosso conhecimento do passado. A historiografia aperfeiçoou os seus métodos, elevando a História à condição de ciência. Porém, ainda hoje, mesmo carregando o peso de mais de um século, a obra de António José Ferreira Caldas permanece como a melhor e mais completa monografia histórica de Guimarães alguma vez escrita.
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As Curiosidades de Guimarães

Ninguém conhecerá bem esta terra, as suas gentes, as suas tradições, a sua história e a sua cultura sem beber desse prodigioso manancial que dá pelo nome de Curiosidades de Guimarães. O seu autor, homem de natureza modesta e gentil, veio ao mundo no dia 20 de Março de 1892, na freguesia de S. Paio, e faleceu a 5 de Março de 1965. Era filho António Alves Martins Pereira, comerciante de fazendas, e de Teresa Maria Vieira. O seu nome completo é Alberto Alves Vieira Braga, tendo adicionado aos apelidos que recebeu dos pais o do seu tio António José da Costa Braga, comerciante conhecido como o "mercador do Poço", por o seu estabelecimento original se situar junto a um poço de abastecimento público, na rua de D. João I. A loja do Braga seria transferida para a esquina que aquela rua faz com a de Paio Galvão, por baixo da casa onde Alberto Vieira Braga viveria. Era aí que Mário Cardozo o costumava observar:

No prédio alto em que habitava era frequente vê-lo à varanda corrida do último andar, soalheira e arejada, espraiando a vista pelo panorama dos longes suburbanos da cidade. Os seus passeios diários quase se limitavam ao trajecto, de pouco mais de alguns cinquenta metros, entre a porta da sua casa e a da Sociedade Martins Sarmento, que diariamente frequentava.

Os primeiros escritos de Vieira Braga publicados em letra de forma vieram a lume em 1916, no semanário O Republicano, cujo responsável, Eduardo de Almeida, terá sido o principal mentor dos seus primeiros passos enquanto historiador e etnógrafo. Em 1920, publicaria o seu primeiro opúsculo, sob o título de Provincianismos minhotos (subsídios lexicológicos), um glossário da linguagem popular a que daria continuidade, mais tarde, na Revista de Guimarães.

Foi em 1924 que começou a firmar créditos como etnógrafo, com a publicação do volume De Guimarães: Tradições e usanças populares, onde dedicou especial atenção à vida e à cultura camponesas em terras de Guimarães, espraiando a sua escrita viva e impressiva por diferentes temáticas: os amores, o noivado e o casamento, as orações, as superstições, a medicina popular, a morte, os astros, as plantas, os animais. No prefácio, indicou a razão de se ter abalançado no projecto de recolher e divulgar as tradições populares de Guimarães:

É que cedo me convenci de que estes trabalhos de recolha, não formando uma tese nem abrangendo um estudo, como quer que vão bem, porque sempre aproveitam cristão e profanos: os estudiosos saberão procurar, e os curiosos, aqui e além, desde que topem ao acaso uma tradição do seu agrado, sentem necessariamente o prazer que a rapaziada experimenta quando depois da vindima uns bagos pretos brilham ainda na corucha duma árvore em desejo e cobiça.

Em 1927, deu início à publicação daquela que viria a ser a obra da sua vida, As Curiosidades de Guimarães, uma colecção de estudos de história, cultura e tradições vimaranenses, que continuaria a publicar ao longo de quarenta anos. Aí, entrecuzando o passado com o tempo presente, traçou o retrato da vida económica, social e administrativa no burgo de Guimarães e nas suas aldeias, e deu corpo a um edifício etnográfico, histórico e literário que, desde cedo, se transformou num objecto de culto entre os vimaranenses.

Ao todo, as Curiosidades somam mais de duas mil e quinhentas páginas, que se distribuem por vinte e um ensaios, nos quais o autor, recorrendo a uma linguagem viva e espontânea, que nos remete para a imensa riqueza da coloquialidade popular, aborda, sob diversos ângulos de abordagem, os traços da ruralidade e do viver em Guimarães ao longo dos séculos. Por estes textos, onde se descreve esta terra e as suas gentes, passam os trabalhos e os folguedos, as sementeiras, as colheitas, os arraiais e romarias, as doenças, os medos, as guerras, a vida e a morte, os santos e os demónios, mas também as instituições, o teatro ou o jornalismo vimaranense.

A obra de Alberto Vieira Braga, em grande parte voltada para o conhecimento de um mundo já desaparecido ou em vias de desaparecimento, assume uma renovada actualidade, neste tempo de profundas mudanças, com a progressiva afirmação de tendências culturais de pendor uniformizante e descaracterizador da imensa riqueza cultural gerada pela individualidade local e regional.

A terminar, aqui ficam os títulos desta notável enciclopédia informal da cultura vimaranense, inicialmente publicada na Revista de Guimarães: Mulheres jogos e festas (1927), Maltas de Salteadores - Uma quadrilha de nomeada (1928-9), Montarias (1930-1), Maninhos (1932-5), Teatro Vimaranense (1936-7), Feiras e mercados(1939-40), Jornalismo Vimaranense (1940), Mortórios (1942-3), Cercos e Clamores (1943), Instrução, Irmandades, Visitas régias e Aposentadorias fidalgas (1948), Os votos de Santiago. Artes e artistas (1948), Para as naus da Índia e do Brasil (1949-50), Comendas da Ordem de Cristo no Termo de Guimarães (1951), Da ordem do Hospital ou de Malta no antigo Julgado de Guimarães (1952), Guimarães nas exposições nacionais e internacionais (1953), O culto poético e romeirinho a Nossa Senhora (1954-5), Jurisdição e Padroados. Capelas de Música. O Coro da Colegiada e o Convento da Costa (1957), Ruas. Casas. Muralhas. Obras. Décimas camarárias. Direitos paroquiais (1959), Paróquias eclesiásticas e Paróquias civis tradicionais. Confrarias do Subsino. Juízes e Homens de falas. Comunitarismo agrário. Autarquias rurais. As terras do Concelho. Movimento Judicial e Administrativo das Confrarias (1960), Do povo. Da Lavoura. Dos costumes. Do passadio e dos trajos. Das apeirias e sementeiras. Dos folguedos e das festas(1961-2), Curandeiros. Sentenças. Romanceiros e modilhos populares (1965, edição póstuma).

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A Sociedade Martins Sarmento

Quando começou a divulgar os resultados das prospecções arqueológicas, que iniciou em meados da década de 1870, sobre as ruínas de um velho povoado que nas suas memórias de infância persistia como uma cidade de mouros, Francisco Martins Sarmento afirmou-se como um vulto da primeira linha na cultura europeia de finais do século XIX. A sua obra atraiu a atenção da Europa culta do seu tempo para a Citânia de Briteiros e ajudou a projectar internacionalmente a sua terra, Guimarães.

Para mostrarem o seu reconhecimento, os seus conterrâneos projectaram erguer-lhe um monumento. Sarmento recusou. Perante a persistência dos promotores da iniciativa, o arqueólogo acabaria por aceder à homenagem, impondo uma condição: que, em vez de um monumento, fosse criado um instituto que, assumindo-se como um organismo vivo, prosseguisse uma missão de elevação cultural da população.

Na manhã de 20 de Novembro de 1881, realizou-se numa sala da extinta Assembleia Vimaranense, uma reunião convocada por vimaranenses ilustres daquele tempo (Avelino Germano da Costa Freitas, Avelino da Silva Guimarães, José da Cunha Sampaio, Domingos Leite Castro e de Domingos José Ferreira Júnior). Aí foi decidida a criação de uma associação com que se homenagearia o arqueólogo e cidadão Francisco Martins de Gouveia Morais Sarmento e promoveria o desenvolvimento da instrução primária, secundária e profissional.

Os fundadores explicaram assim o seu projecto:

Poderia erigir-se um monumento em granito ou mármore, abrindo-lhe na base inscrições comemorativas; mas não será um anacronismo que neste século de actividade intelectual prefiramos a inscrição à associação, o mármore a um pensamento em actividade constante, a inércia de uma coluna ao vivido movimento de uma instituição, que deve prosperar se nunca lhe falecer a vossa protecção e a dos nossos conterrâneos?

O monumento pode esboroar-se e desaparecer no fragor das tempestades, ou no vandalismo das guerras; a instituição, se cria raízes, se preenche uma necessidade real, se representa um progresso na educação social, vive além das convules, adquire condições de perpetuidade, permanece enquanto não está satisfeito o seu fim, enquanto se não torna inútil por novos progressos, vivendo ainda assim na memória dos que lerem as páginas da sua história.

Em vez do monumento, Francisco Martins Sarmento foi celebrado com uma instituição que perpetuou o seu nome e a sua obra, representando um inegável “progresso na educação social” para toda esta região. A SMS nasceu como “Promotora da Instrução Popular” e cumpriu o seu desígnio: foi aqui que, em Guimarães, nasceu a formação profissional, incluindo a dirigida para o sexo feminino, o ensino artístico, a educação de adultos. A Escola Industrial Francisco de Holanda e o Liceu de Guimarães têm a sua origem estreitamente vinculada à Sociedade. Daqui partiram acções de alfabetização, nomeadamente no meio rural, por obra das Escolas Móveis promovidas por esta instituição.

Mas a actividade dos pioneiros da SMS foi para além da promoção da instrução popular, através da aprendizagem das primeiras letras ou dos rudimentos técnicos de uma profissão. Desde cedo desenvolveram outras dimensões da produção e difusão da cultura, criando um Museu Arqueológico, que logo se tornou num modelo, abrindo as portas da Biblioteca Pública, lançando uma revista científica, a Revista de Guimarães. Todas estas obras ainda hoje persistem, tendo sabido adaptar-se aos novos tempos.

A Exposição Industrial de Guimarães de 1884 marcou um ponto de viragem no desenvolvimento económico e na industrialização desta região. Foi uma das primeiras iniciativas da Sociedade Martins Sarmento, que a começou a preparar quando ainda dava os seus primeiros passos. Alberto Sampaio emergiu então como a alma mater deste acontecimento que ficou gravado na História da cidade.

A origem das principais instituições culturais vimaranenses passa pela Sociedade Martins Sarmento. É o caso da Biblioteca Pública municipal, que esteve entregue à responsabilidade da Sociedade Martins Sarmento durante 110 anos, desde 1882 até à abertura da Biblioteca Municipal Raul Brandão, em 1992. O núcleo mais importante do actual Arquivo Municipal de Alfredo Pimenta, o Arquivo da Colegiada de Guimarães, também esteve a cargo da Sociedade, em cuja sede deu entrada em meados do mês de Agosto de 1921, transportado em sete carretos de carros de bois.

O mesmo aconteceu com as principais colecções da fundação do Museu Alberto Sampaio. Em 20 de Setembro de 1911, A Direcção Geral dos Negócios Eclesiásticos autorizou a Sociedade Martins Sarmento para receber, por inventário e a título precário, a fim de expor no seu Museu, todas as alfaias e outros objectos de valor histórico e artístico que o Estado confiscara às congregações religiosas e Igrejas do Concelho de Guimarães. No dia 15 de Março de 1920, a Sociedade acolheu também, de acordo com uma portaria do Ministério da Justiça de Julho de 1917, o tesouro de Nossa Senhora da Oliveira, que tinha passado, por confisco, para o património do Estado.

A Sociedade Martins Sarmento detém um admirável acervo patrimonial de interesse cultural relevante, de natureza histórica, arqueológica, arquitectónica, bibliográfica, documental, artística, etnográfica e científica, com elevado significado para a compreensão, permanência e construção da identidade nacional e local. As suas características de antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade definem os traços da sua natureza de repositório da nossa memória cultural colectiva. À sua guarda encontram-se, por exemplo, quatro monumentos nacionais e cinco monumentos arqueológicos classificados como Imóveis de Interesse Público.

Ao longo do tempo, com a persistência da sua acção de defesa e valorização do património e da História de Guimarães, a Sociedade Martins Sarmento contribuiu para a formação nesta terra de uma consciência patrimonial única, que ajuda a explicar o cuidado e o carinho que aqui têm sido colocados na preservação do legado que recebemos dos nossos antepassados, que colheu justo reconhecimento junto da UNESCO.

É verdade que a SMS enfrenta dificuldades para prosseguir a sua missão de protecção e a divulgação do riquíssimo património que tem à sua guarda, porque os meios que gera não são suficientes para fazer frente aos seus encargos. Mas, agora que se prepara para comemorar o seu 125.º aniversário, novos tempos se anunciam, abrindo novos caminhos para que possa prosseguir com o seu rumo de sempre.
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