19 de janeiro de 2007

A Igreja da Misericórdia

Quando a rainha D. Leonor fundou, em 1498, a Misericórdia de Lisboa, para o exercício da caridade, não tardou muito até que em Guimarães lhe seguissem os passos. Logo no início do século XVI, a Irmandade da Misericórdia vimaranense foi instalada na Capela de S. Brás, erecta no claustro da Colegiada, que ficaria conhecida como a Misericórdia Velha. O século não chegaria ao fim sem que, pela notória estreiteza daquele espaço para o serviço da confraria, se diligenciasse para a dotar com instalações mais adequadas.
Segundo o Padre Torcato Peixoto de Azevedo, a instalação da Misericórdia em mais nobres acomodações na rua Sapateira (actual rua da Rainha D. Maria II) ficou a dever-se à iniciativa de Pedro de Oliveira, Cavaleiro da Ordem de S. Tiago, natural de Guimarães.
Em Abril de 1587, a Misericórdia obteve do rei Filipe I um Alvará régio que lhe concedia poderes para expropriar os prédios da Rua Sapateira de que necessitava para construir a sua casa e igreja. No livro de contas da obra, Pedro de Oliveira anotaria: "com ajuda de Nosso Senhor e por intercessão da Sacratíssima Virgem Nossa Senhora, comecei a dar princípio à casa nova da Santa Misericórdia, posto que foi encontrada de muitos e ajudada de poucos, sendo escrivão da mesa e servindo de provedor por ser ausente Francisco Rebelo, comendador de Unhão, que o então era, no derradeiro dia de Maio de mil e quinhentos e oitenta e oito”.
Os trabalhos nas fundações e nos anexos da Misericórdia arrastaram-se até 1595. No dia 16 de Abril desse ano, Gonçalo Lopes, mestre de pedraria, e o seu genro Pedro Afonso de Amorim, moradores na Rua Caldeiroa, celebraram escritura com a Misericórdia, através da qual se obrigaram a construir, em pedra, a respectiva capela. Três anos depois, António Fernandes, carpinteiro da Rua Nova do Muro, adjudicou a colocação da cobertura da capela-mor da igreja da Misericórdia. Em 1599, Guimarães seria devastada pela terrível Peste Pequena, que, de pequena apenas teve o nome. Enquanto durou, a vila esvaziou–se de gente e as obras da Misericórdia tiveram de ser suspensas.
A empreitada de Gonçalo Lopes foi dada por concluída em Abril de 1601. A 14 de Novembro de 1604, após o falecimento daquele mestre de pedraria, a Misericórdia encarregou da construção da fachada e do coro alto da igreja os seus sucessores, Pedro Afonso de Amorim e João Lopes de Amorim, seu cunhado. A Igreja foi inaugurada em 1606. Em 1607 foi decidido refazer a fachada, segundo novo traço então proposto por João Lopes de Amorim. Este arquitecto estaria ligado às obras da Misericórdia até à sua conclusão, em 1640.
Com a sua admirável fachada-retábulo, marcada pela verticalidade, pelo recurso a escalas ambíguas e pelo emprego de um esquema ornamental de inspiração flamenga, a Igreja da Misericórdia de Guimarães é um dos exemplos mais salientes da arquitectura maneirista do Noroeste peninsular, integrando-se na produção da célebre escola dos Lopes.
O Padre Torcato de Azevedo descreveu assim a Misericórdia de Guimarães, em finais do século XVII: “é o frontispício de obra romana, fazendo frente ao Norte, e tem sobre a porta principal uma varanda sobre colunas de pedra, onde está encostada uma vidraça que dá luz para os capelães desta casa poderem rezar no coro, o qual está por cima da porta da igreja. É esta muito grande e forrada toda de madeira apainelada, e se divide da capela-mor por um grande arco, e esta é toda de abóbada apainelada, com os Mistérios da Paixão de Cristo pintados e dourados”.
A Igreja da Misericórdia ostenta uma frontaria imponente, com pórtico rasgado em arco de volta perfeita. Na fachada, são visíveis dois medalhões característicos da escola dos Lopes, enquadrados por duas colunas coríntias de dimensões assinaláveis com decoração em bicos de diamante na parte inferior dos respectivos fustes. No registo superior da fachada, também entre colunas e sob um frontão triangular, encontra-se um nicho envidraçado onde se recolhe uma imagem de Nossa Senhora da Misericórdia. Por cima deste conjunto, desenha-se um frontão circular interrompido.
O interior da igreja, porém, pela sua menor dimensão, contrastava com a grandeza da fachada. De nave única e capela-mor rectangular, o edifício foi traçado sobre planta longitudinal. Segundo o Padre António Ferreira Caldas, “para evitar estes defeitos e remediar tal acanhamento, já no correr dos anos se haviam feito algumas reformas; mas eram todas incompletas e de pouca importância, sendo destas a mais notável a colocação do altar-mor e tribuna em 1615, que era de talha magnífica e soberba, mas que os vândalos do camartelo deturparam em 1814, roubando-lhe os mais belos ornatos, e dando-lhe uma forma mais singela e menos esbelta”.
A Misericórdia de Guimarães é, desde 1974, monumento classificado como Imóvel de Interesse Público.
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5 de janeiro de 2007

Os apontamentos de Sarmento

Francisco Martins Sarmento nasceu em 9 de Março de 1833, no seio de uma família abastada de Guimarães, com raízes em S. Salvador de Briteiros, onde fica a casa solarenga onde se costumavam contar as histórias dos mouros da Citânia, uma povoação cujas ruínas se podiam ver no Monte de S. Romão, ali bem perto. Por não ter que se preocupar com questões financeiras, estava-lhe destinado um futuro semelhante a boa parte dos jovens endinheirados do seu tempo: mergulhar na ociosidade e esbanjar a fortuna que recebeu em mãos. Mas, este Sarmento, mais do que de bens de fortuna pessoal, era dotado de um espírito inquieto que o empurrava para a aventura do conhecimento. Era, no sentido original da palavra, um filósofo. A sua permanente busca de erudição levou-o por diferentes áreas do saber, em busca do seu próprio caminho.

Começou por se fazer poeta, chegando a publicar um livro, mas acabaria por renegar a poesia. Os seus estudos encaminharam-no para a História. A partir de finais da década de 1860, começou a cultivar a arte da fotografia. A paixão pela História e a fotografia acabariam por fazer dele arqueólogo. Em meados da década de 1870, começou a estudar metodicamente a Citânia de Briteiros, procurando desvendar os segredos que aquelas velhas ruínas ocultavam. Para tal, recorria ao registo fotográfico. Através de dois álbuns fotográficos que enviou a instituições e cientistas do seu tempo, Sarmento atraiu as atenções do mundo para a sua Citânia.

Para compreender a sua Citânia, Martins Sarmento sentiu necessidade de aprofundar o conhecimento sobre a realidade que a envolvia. Caminhava por terrenos que permaneciam por desbravar: nos seus livros, nada ou quase nada havia sobre tal matéria. Meteu os pés ao caminho, e as mãos à obra. De amigos, conhecidos e pessoa cuja existência até aí ignorava, ia recebendo informes sobre as velharias e as tradições que jaziam espalhadas por campos, outeiros e montes. Dotado de um notável espírito de observação e de um raciocínio penetrante, a sua experiência de caçador de perdizes e coelhos armava-o com a resistência suficiente para aguentar longas caminhadas exploratórias. De novo caçador, mas agora de ruínas e notícias arqueológicas, ao longo de duas décadas, Sarmento esquadrinhou todo o território do noroeste peninsular e foi observando vestígios e colhendo informações que falavam da antiga ocupação humana desta região, reflectida nas marcas das pedras que o tempo não tinha apagado e na tradição oral transmitida de geração em geração. Inicialmente, o âmbito das suas pesquisas limitou-se aos territórios circunvizinhos da sua Citânia; com o transcurso do tempo e os avanços dos seus estudos, foi alargando o campo de trabalho. As suas principais referências foram sempre a Citânia de Briteiros e o Castro de Sabroso, que desde cedo se constituíram em padrões das suas análises comparativas.

As notas dessas excursões e as notícias que a sua rede de informadores lhe fazia chegar foram vertidas para cadernos de apontamentos. Através delas, ficámos a conhecer melhor o percurso exemplar do pesquisador das nossas antiguidades: um homem talentoso e sagaz, que, movido por uma imensa curiosidade intelectual, vai sendo o sujeito da construção do seu próprio conhecimento. Por estas páginas observámos o percurso de alguém que, de simples curioso pelas velharias de outros tempos, sustentado por um espírito de pesquisador amador e por uma paixão de antiquário, se transforma num respeitável arqueólogo de renome internacional.

O investigador errante e perguntador sobe a montes e outeiros, desce aos vales, atravessa rios e ribeiros, buscando nas cicatrizes das pedras e nas memórias das gentes a presença das sombras dos homens cujas vidas se perderam nas lonjuras do esquecimento. A sua figura austera, de fisionomia alta e magra e semblante dominado pela barba negra, provocava muitas vezes estranheza àqueles com quem se cruzava no caminho. Este sentimento, adensava-se quando começava a fazer perguntas. Havia quem o julgasse lunático e quem visse nele um caçador furtivo de tesouros. Não raro provocava temor. Estas reacções desencontradas divertiam Sarmento, que deixou impressas nos seus apontamentos as marcas da sua ironia.

Os apontamentos de Francisco Martins Sarmento estão registados em cerca de mil páginas distribuídas por nove cadernos, sob o título de Antiqua. Compõem uma espécie de diário, que deveria servir de base aos livros que Sarmento tencionava escrever. Entre finais de 1881 e o início de 1882, Sarmento entendeu que as notícias de carácter etnográfico que ia obtendo justificavam um tratamento autónomo, separando-as das de natureza arqueológica. Registou então, numa das folhas de Antiqua: As tradições e superstições serão de ora em diante recolhidas em livro especial. Desta forma, iniciou um novo volume de apontamentos, intitulado Contos e Tradições Populares, onde recolhia as informações de carácter etnográfico. Estes cadernos irão acompanhá-lo até aos fins dos seus dias, uma vez que a última referência datada que nele se encontra é posterior à festa de S. Vicente de Ferreira (5 de Abril) de 1899, escassos meses antes da sua morte, numa altura em que a doença sem remédio já lhe minava o corpo.

Estes manuscritos que, desde sempre, têm sido preciosas fontes de informação para arqueólogos e etnógrafos, encontram-se entre os maiores tesouros que se guardam no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento. Recentemente, libertados da caligrafia obscura de Sarmento, foram publicados em dois volumes, um com os apontamentos de natureza arqueológica, outro com os apontamentos etnográficos.

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