22 de dezembro de 2006

Os Milagres da Oliveira

O final da Idade Média é marcado pela frequência de cataclismos que atemorizavam as gentes: a trilogia sinistra da fome, da peste e da Guerra. Impotentes perante os males que lhes invadiam o quotidiano, os homens voltavam-se para Deus, na esperança de encontrarem no sobrenatural a protecção para as suas aflições. A testemunhar este sentido da espiritualidade medieval, onde o maravilhoso e o fantástico marcavam uma presença muito forte, surgem novos santuários, aprofunda-se o culto das relíquias com poderes protectores e curativos contra as mais diversas maleitas, aparece um novo tipo de literatura em que se narram os milagres e prodígios associados aos santos e aos santuários.

Em Guimarães, a religiosidade popular cresceu à sombra de uma das marcas simbólicas da identidade local: a oliveira, que marca presença na história, nas tradições, no imaginário e nas crenças dos vimaranenses. A oliveira está presente nas armas da cidade e dela tomaram o nome a Colegiada e a Praça Maior. A árvore de que aqui se fala foi trazida, talvez no início do século XIV, do mosteiro de S. Torcato, onde dava azeite com que se alumiava o santo. Foi plantada junto à Colegiada, onde acabou por secar. Ficaria associada a uma série impressionante de milagres ocorridos no curto espaço de meio ano. O primeiro seria o do seu reverdecimento.

Os prodígios de que falámos aqui estão descritos no Livro dos Milagre de Nossa Senhora da Oliveira da Real Colegiada de Guimarães, pela pena do tabelião Afonso Peres, que o redigiu numa prosa despojada e sem pretensões estilísticas, ao estilo dos registos notariais, mas que, por datar de antes de antes do ano da Peste Negra (1348) tem o valor, se outro não tivesse, de ser a mais antiga obra do seu género escrita em português. O original deste documento perdeu-se, tendo chegado ao nosso conhecimento através de um apógrafo (cópia) transcrito em 1351 pelo tabelião Antoninho Lourenço, a pedido do cónego Esteve Anes. A versão mais antiga do Livro dos Milagres encontra-se na Torre do Tombo, para onde foi conduzida em 1863, juntamente com uma outra cópia incompleta do mesmo. Conhecem-se dois outros apógrafos, um de 1620, que está no Arquivo de Guimarães, e outro de 1645, que agora pertence ao Arquivo da Universidade de Coimbra. Acaba de ser publicado um valioso estudo sobre o Livro de Milagres de Nossa Senhora de Oliveira, da autoria da investigadora Célia Cristina Fernandes, que inclui uma edição crítica e comparada das quatro versões conhecidas deste precioso documento.

O Livro dos Milagres foi produzido no contexto do processo de afirmação da Colegiada de Guimarães enquanto centro de culto mariano. É uma obra que se enquadra num género muito popular ao longo da Idade Média e da Idade Moderna, marcado por intenções moralizadoras e instrutivas, mas também com claros propósitos propagandísticos, já que visava atrair peregrinos para os santuários onde os milagres ocorriam. Ao longo do século XIV, a Colegiada de Guimarães, enquanto espaço de culto a Nossa Senhora, foi ganhando dimensão e conquistando devotos, dos quais o mais destacado será, seguramente, o rei D. João I.

No Livro dos Milagres são descritos 45 prodígios operados por Nossa Senhora: o milagre da ressurreição da oliveira e 44 curas milagrosas. Todos os milagres acontecem próximo da Oliveira (com uma única excepção, uma mulher de Coimbra, que estava “inchada de morte” e se salvou). Os miraculados são originários de um espaço muito alargado, que vai desde Viana do Castelo até Tomar. Curiosamente, só há duas pessoas de Guimarães (uma de Gondar, outra de Nespereira) que receberam a graça da cura por obra da Senhora da Oliveira.

O milagre operava-se através da restituição ao enfermo de algo que havia perdido ou lhe tinha sido retirado: a visão, a audição, a fala, o movimento ou o juízo. Mais de metade das curas milagrosas referem-se a cegos que passam a ver (23 casos). Em segundo lugar, foram agraciados endemoninhados, ou seja, pessoas com padecimentos que hoje associámos a distúrbios de foro psiquiátrico ou neurológico (11 casos). Quatro paralíticos (entolheitos) recuperaram o movimento, quatro), quatro mudos começaram a falar, uma surda voltou a ouvir e a tal mulher inchada sobreviveu a uma morte que parecia certa.

Todos estes milagres consagram uma relação de reciprocidade: o padecente recebe a graça, pagando-a, quase sempre, com uma procissão (a única excepção é a da miraculada de Coimbra, que ofereceu uma candeia à Senhora).

No seu estudo deste documento, Célia Fernandes procedeu à distribuição dos milagres pelos dias da semana, concluindo que o dia com maior número de milagres é o sábado (16), seguido do domingo (12) e da segunda-feira (9). As graças da Senhora concentram-se nestes três dias. Nos restantes quatro dias ocorrem, ao todo, menos milagres do que em qualquer um daqueles três (7). A quarta-feira não seria favorável a ocorrências milagrosas, não se registando qualquer caso nesse dia da semana.

Os prodígios descritos no Livro ocorrem num tempo bastante curto: entre 8 de Outubro de 1342 e 27 de Março de 1343. Muitas vezes se tem estranhado que, depois daquele período de grande actividade miraculosa da Senhora da Oliveira, praticamente não se conhecerem mais casos de milagres (no apógrafo de Coimbra, de 1645, foi acrescentado posteriormente um milagre que ocorreu em 1652 com a nau Nossa Senhora da Oliveira, que saiu incólume de um incêndio que devastou o galeão S. Paulo, quando ambos os barcos seguiam viagem para o Brasil). Martins Sarmento, em 1871, numa polémica que manteve com o Chantre da Colegiada sobre a Oliveira, dá-nos uma pista para explicar o fenómeno da cessação dos milagres:

Seja o que for, os procuradores das obras da Colegiada pediam traslados destes milagres, para os “mostrar aos fiéis de Deus cristãos para fazer de suas ajudas para a obra de Santa Maria”, e a caixa de esmolas do Padrão estava tão afreguesada que o Prior Propôs aos cónegos a troca dela pelos dízimos da igreja de Azurém, como já dissemos. O Cabido aceitou o contrato; mas, feito ele… os milagres acabaram!

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8 de dezembro de 2006

Passarinhas e sardões

No dia em que se celebra a mártir Santa Luzia, ocorre o arraial das passarinhas, uma das mais singulares festas tradicionais vimaranenses, onde a religiosidade popular surge embebida em manifestações de carácter profano, nas quais a fé no poder protector da Santa se encontra com práticas imbuídas de boa dose de malícia inofensiva.

A romaria de Santa Luzia tem lugar, em cada 13 de Dezembro, junto da pequena capela que é dedicada à padroeira dos males dos olhos, construída pelo ano de 1600, no mesmo lugar da rua que lhe tomou o nome onde antigamente se situava uma gafaria (recolhimento de leprosos) para mulheres. A origem desta romaria está esquecida na memória dos séculos. É promovida pela Colegiada da Oliveira, havendo fama de que o seu rendimento em dinheiro, resultante das ofertas dos devotos, não será desprezível. A devoção a Santa Luzia é, entre nós, muito grande, não se circunscrevendo ao dia da romaria (o dia do ano em que a capela está aberta), conforme pode testemunhar quem passa à sua porta e vê as velas que constantemente ali são postas a arder em cumprimento de promessas.

Apesar da passagem do tempo e da mudança de costumes, a romaria de Santa Luzia continua a marcar presença de relevo no calendário devocional e festivo das gentes de Guimarães, que acorrem em grande número para fazerem e cumprirem promessas. Durante a romaria, realiza-se uma feira, que se estende pelos passeios da rua, onde tradicionalmente se faz a venda dos frutos secos típicos desta época do ano, com a castanha como rainha.

A festa de Santa Luzia de Guimarães distingue-se de todas as outras por nela ocuparem lugar central, além da santa protectora dos olhos, uns objectos de diferentes formatos que se expõem nas bancas das vendedeiras, moldados em massa de centeio ou de trigo, revestidos com uma cobertura branca de açúcar e alindados com pedacinhos de papel colorido, fitas e laçarotes. Essas guloseimas açucaradas assumem diversas figuras, que representam, nomeadamente, cornetas, cruzes, relógios, cães ou cavalos. Mas, nesse dia, o centro das atenções é ocupado pelas passarinhas (que competem com Santa Luzia para darem o nome ao arraial) e pelos sardões.

Não será necessário grande conhecimento de linguagem simbólica nem de gíria de carácter sexual para fazer associações coloridas entre aqueles objectos e o seu significado. Entre as centenas de designações populares que se aplicam aos órgãos genitais feminino e masculino, a passarinha e o sardão são dos mais utilizados no linguarejar do nosso povo.

Tanto os nomes, como as formas daqueles objectos festivos (que, pormenor que convirá notar, são envolvidos por uma cobertura de açúcar), nos remetem para sobrevivências de cultos fálicos ancestrais, de que não faltam referências em velhas descrições no folclore português, mas que hoje já se encontram extintos ou em extinção em praticamente todo o lado. Mas não em Guimarães, como se vê.

É certo que vivemos tempos em que uma poderosa máquina de aculturação vai esmagando usos e costumes tradicionais de cunho local, substituindo-os por uma mitologia mais ou menos urbana com uma forte componente comercial, que explica, por exemplo, a moda, de importação recente, da celebração do dia de S. Valentim (santo manifestamente alienígena às nossas tradições), tornando-o num dia dos namorados com dimensão planetária.

Mas, entre nós, a romaria de Santa Luzia lá vai continuando a ser um momento de aproximação entre os sardões as passarinhas, ou seja, um dia em que os namorados se encontram e trocam prendas que são promessas amorosas.

No arraial das passarinhas, compram-se os agrados com que rapazes se esforçam por conquistar as raparigas dos seus corações, na esperança de receberem em troca uma prenda que é um sinal e um prometimento. Enquanto os romeiros se recolhem na capela, oram e pagam promessas à milagrosa, virtuosa e casta Santa Luzia, há gente moça que participa num ritual verdadeiro de acasalamento, durante o qual o rapaz entrega o sardão à rapariga dos seus sonhos esperando que ela lhe entregue, em troca, a sua passarinha, num jogo figurado onde afloram o amor, o desejo e uma porção q.b. de erotismo, porque a troca de presentes é a afirmação de um compromisso amoroso que envolverá sempre uma promessa de ir mais além. Como o descreveu o grande Alberto Vieira Braga, este é um momento de oferecimentos maliciosos, que tomam um cunho irreverente e avermelhado: “se me deres a passarinha, eu dou-te o meu sardão”…

No dia de Santa Luzia, oferecem-se também os segredos. São caixinhas de cartão no interior das quais, numa cama de algodão em rama, se recolhem, em miniatura, um sardão, uma passarinha e um coração que guarda um segredo, ou seja, uma dedicatória amorosa em forma de verso, que os rapazes oferecem às raparigas.

Embora o arraial das passarinhas tenha lugar durante a romaria de Santa Luzia, a troca destes presentes um tanto ou quanto lúbricos não é exclusiva desta festa, uma vez que também surge no arraial da Senhora da Conceição, que tem lugar no dia 8 de Dezembro.

Ninguém sabe dizer ao certo quando começou este costume. Faça-se para que nunca se venha a saber quando acabou.
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