21 de julho de 2006

Afonso Henriques: sombra e luz

A biografia do primeiro rei dos portugueses, Afonso Henriques, tem mais sombra do que luz. Na verdade, sobre o filho de Henrique e Teresa, sabemos muito pouco, apesar dos muitos milhares de páginas que já foram publicados sobre a sua vida e a sua acção política. Na primeira biografia que lhe foi dedicada, a Chronica de el-rei D. Affonso Henriques, de Duarte Galvão, impressa do início do século XVI, há mais literatura cavaleiresca do que História. Do outro lado do tempo, encontrámos uma biografia vinda a lume recentemente, cujo autor, Diogo Freitas do Amaral, foi forçado a preencher inúmeras lacunas com conjecturas verosímeis, mas para as quais não encontrou suporte documental. E não tenhamos ilusões: será sempre assim. Qualquer história da vida e dos feitos afonsinos será sempre hipotética, já que terá que ser completada, em boa parte, com o que nunca se saberá se aconteceu, mas que eventualmente poderia ter acontecido.

Começamos por não saber quando nasceu aquele que viria a ser o primeiro rei de Portugal. Sendo apontadas várias datas possíveis, entre 1100 e 1111, há hoje algum consenso em relação ao ano de 1109. Também não é seguro o local onde veio ao mundo. A tradição fala, a partir de Duarte Galvão, em Guimarães, mas há quem defenda que pode ter sido em Coimbra, em Viseu, mesmo em Astorga, hoje terra de Espanha, ou mesmo na Síria, junto do rio Jordão. À falta de melhor fonte, valerá a tradição. Porém, é altamente duvidoso que o infante Afonso tenha sido baptizado pelo Arcebispo São Geraldo (que já não estaria entre os vivos quando ele nasceu) na velha igreja de S. Miguel do Castelo (que foi construída bastante mais tarde, sendo sagrada em 1236). Também é pouco provável que tenha sido miraculado ainda em criança, por ter nascido aleijado das pernas, que de nascença trouxe encolheitas (citação da crónica do Conde D. Henrique).

É seguro que o célebre discurso que o Conde D. Henrique lhe teria feito, no leito da morte, que assumiria o carácter de um verdadeiro testamento político, não é mais do que uma lenda, já que, à data da morte de seu pai, ocorrida em Abril de 1112, Afonso Henriques não teria mais do que três anos de idade. É certo que Egas Moniz se encarregou da educação do infante, mas não se sabe de fonte segura onde ela decorreu. Por outro lado, no episódio mil vezes contado da ida de Egas Moniz com a sua família, em trajes pobres, descalços e de baraços ao pescoço, assumir junto de Afonso VII de Leão culpas que seriam de Afonso Henriques, não se sabe onde acaba a lenda e começa a História.

Não há dúvida quanto à data da Batalha de S. Mamede (24 de Junho de 1128), mas ninguém sabe dizer ao certo onde terá sido travada. É certo que o confronto não se deu no sítio que hoje conhecemos por Campo de S. Mamede, junto ao Castelo de Guimarães. Há bons argumentos para acreditar que terá sido em S. Mamede de Aldão, no lugar da Ataca, mas não existe nenhuma evidência documental ou arqueológica.

Já a suprema vilania que se aponta ao jovem Afonso, a prisão da mãe nas masmorras do Castelo de Lanhoso depois de derrotada em S. Mamede, não passa de lenda, tal como o episódio do Bispo Negro, que resultaria de um apelo de D. Teresa ao Papa, em que se queixaria da crueldade do filho. Em resposta, o Papa teria enviado o Bispo de Coimbra com a missão de ordenar que Afonso procedesse à libertação da mãe. Alegando que o Papa nada tinha a ver com as suas decisões, o príncipe teria expulso o bispo e nomeado um novo, que seria negro.

Conta-se que Jesus Cristo teria aparecido a Afonso Henriques antes da Batalha de Ourique, em 1139. O milagre de Ourique, que ajudou a sustentar a justificação divina da existência de Portugal enquanto reino independente, é um mito que começou a circular muito tempo depois de 1139. Aliás, a Batalha de Ourique, ao contrário do que se acreditou pelos séculos adiante, não se deu na povoação do Baixo Alentejo, às portas do Algarve, que conhecemos por aquele nome. Foi certamente noutro lugar, situado algures entre Leiria, então sob domínio português, e Santarém, ainda ocupada pelos muçulmanos.

Um outro acontecimento que forneceu argumentos poderosos para a sustentação da independência nacional foi a reunião das celebradas Cortes de Lamego, que teria ocorrido durante a primeira metade da década de 1140, em data incerta. Nelas se teria confirmado a aclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal, corroborado o propósito de manter a independência de Portugal face a Leão e definido as regras de sucessão do trono. Todavia, tais Cortes nunca aconteceram.

De D. Afonso Henriques, o homem, e de muitas das circunstâncias que rodearam a sua existência, conhecemos muito pouco. Todavia, este desconhecimento não tem qualquer relevância na nossa História, nem na definição da nossa identidade nacional. Apesar de nunca terem acontecido, os factos acima enumerados tiveram uma importância vital no processo de afirmação, aprofundamento e defesa da independência de Portugal, por terem sido criações da literatura independentista que foram esgrimidas em momentos em que Portugal esteve em risco (por exemplo, nas crises de 1383-85 e de 1580-1640).

Ao longo da sua História, Portugal teve à frente dos seus destinos reis certamente mais luminosos do que D. Afonso Henriques, como D. João II, D. Filipe I ou D. José (por interposta pessoa, o Marquês de Pombal). Todavia, poucos duvidarão de que o primeiro foi o mais importante dos reis portugueses. Sem ele, Portugal nunca teria existido. Afonso Henriques, vivendo num tempo irrepetível, soube aproveitar a sua circunstância. Portugal, que resultou da determinação e da persistência da acção militar, política e diplomática do primeiro Afonso, é, antes de mais, uma criação sua.

O que nos ficou de Afonso Henriques foi este país. O resto, não é mais do que uma caixa de pedra com ossos que nada têm de importante para contar.
Partilhar:

7 de julho de 2006

O Azemel Vimaranense

A imprensa periódica tem uma presença muito antiga e activa na vida local vimaranense Até aos nossos dias, já se publicaram em Guimarães mais de cento e cinquenta título: de jornais, parte deles de existência efémera, outros com uma longevidade assinalável O percursor foi o Azemel Vimaranense, que nasceu por volta de Outubro de 1822, aquando do juramento da Constituição Liberal, e desapareceu em Maio do ano seguinte, com a insurreição absolutista liderada por D. Miguel que ficou conhecida pela Vilafrancada.

Defensor dos ideais do liberalismo, recorrendo a uma linguagem cáustica e mordaz, o Azemel teve, no curto espaço da sua existência, uma participação activa e participante na turbulência política que atingiu Guimarães nos primeiros tempos do Liberalismo, Embora os textos que publicava não fossem assinados, terão sido seus redactores José de Sousa Bandeira, escrivão judicial de Guimarães, Manuel Luís Pinheiro Nogueira Gouveia, professor de Filosofia, Gramática Latina, Música e Cantochão, e frei Rodrigo Joaquim de Meneses, monge Jerónimo natural de Guimarães, que em 1829 foi preso, por combater o absolutismo, tendo sido condenado no ano seguinte a degredo, por toda a vida, para um dos presídios de Caconda (Angola).

O principal animador desta publicação foi José de Sousa Bandeira, que nasceu em Lisboa, em 1789. O seu pai, também José de Sousa Bandeira, foi nomeado, em 1808 proprietário do cargo de escrivão do judicial da comarca de Guimarães pelo príncipe regente, futuro D. João VI, que seria herdado pelo filho.

Bandeira participou activamente na vida política. Perseguido pelas suas ideias, foi preso na Relação do Porto, em 1824, por delito de opinião. Voltou para as masmorras no início de 1829. Em 1828, tinha acompanhado o exército liberal para a Galiza, para evitar a perseguição dos absolutistas, a quem não poupava nos seus escritos inflamados. Por força da sua acção em defesa dos ideais liberais, Guimarães tinha sido uma das últimas terras do reino a reconhecerem D. Miguel. O exílio seria curto. Sousa Bandeira não resistiria a voltar clandestinamente a Portugal, tendo-se escondido no Porto onde acabaria por ser descoberto, preso e condenado à morte. No dia 10 de Outubro de 1829, a pena seria comutada. Teve a mesma sorte que o frade Rodrigo Meneses, o degredo perpétuo para Angola, cabendo-lhe em sorte o presídio de Pungo Andongo. Caso regressasse, enfrentaria a execução. Conduzido para a prisão em Lisboa, não teria chegado a embarcar para o degredo, tendo sido devolvido à liberdade apos o desembarque do Duque da Terceira, em 1833. Regressaria a Guimarães onde teria participa­ção activa na célebre Sociedade Patriótica Vimaranense. Em 1836, após a morte da sua mulher (filha de outro dos redactores do Azemel, Manuel Luís Gouveia), foi transferido por Passos Manuel para o Tribunal do Comércio do Porto, onde se notabilizou como redactor do Artilheiro e do Braz Tizana.

O Azemel ostenta, no cabeçalho, a seguinte quadra: Aqui vão troando / Os ecos das bombas, /Que estouram nas trombas /dos Rinocerontes. Os seus textos panfletários esgrimem ferozmente contra os corcundas (absolutistas). Para dar uma ideia do estilo desta folha, aí transcrevem-se excertos do texto O Velho e a sua Cabeleira publicado em 7 de Maio de 1823, no qual os corcundas são personificados pelas figuras dos cabeleireiros: O Velho Portugal estava enfermo; os Mandões o haviam entisicado, tinha febre radicada e, desenganado do seu fim, apenas nutria a consoladora ideia das suas antigas proezas e da sua antiga prosperidade; velho e enfermo, ele ia ser riscado da lista dos viventes, e em seu testamento, parto já do seu febril delírio, deixava a Sir William Carr Beresford os restos minguados de sua fortuna. Seus filhos viam com mágoa a próxima crise do seu desgraçado pai; juntam-se todos em 24 de Agosto e, por um daqueles esforços que honram a Natureza, disseram: "Vamos salvar nosso Pai". Graças à Divindade, o Velho escapa da enfadonha tísica, ergue-se da cama, e melhora. (...) Rasgou seu testamento, pôs-se à moda, atou o cabelo, e deitou fora a sua Cabeleira. Os Cabeleireiros, porém, gente ociosa e que estava em a antiga posse de sustentar seu ócio e sua grandeza faus­tosa à custa da Cabeleira do Velho novo, disseram: "Que será de nós? Ele já anda à moda, adeus pós, adeus pomada e adeus rabicho; busquemos outro ofício, estamos perdidos". Juntam-se os Cabeleireiros todos e conspiram contra quem pôs o Velho à Moda. (...) Fizeram tal barulho que o Velho esteve a ponto de tornara usar de Cabeleira, não porque seja melhor, ou porque melhor lhe fique, mas porque sem Cabeleira não há Cabeleireiros, e estes não querem perder o seu ofício. Com tanta pressão, o pobre velho recaiu; está de cama, tornou a febre, tem fastio e está em perigo. Para o salvar, a família do Velho não deve usar de xaropes, mezinhas e chás de carqueja, mas de remé­dios violentos, pois que os Cabeleireiros, tomando o freio nos dentes, foram juntar-se aos Cabeleireiros da margem do Sena, e do Don, e vêm todos obrigar o pobre Velho a usar de Cabeleira, por faz, ou por nefaz.

Não se conhece a colecção completa do semanário Azemel Vimaranense, que se publi­cou com uma periodicidade irregular. Na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, guardam-se três números do primeiro ano e dois do segundo. Na Biblioteca Nacional existem dois exemplares de 1823.

Partilhar: