20 de janeiro de 2006

O palácio pastiche

Quando o primeiro quartel do século XV ia chegando ao fim, o Conde de Barcelos, D. Afonso, filho bastardo de D. João I, homem viajado e conhecedor da Europa do seu tempo (participou em missões diplomáticas junto das cortes de França, Veneza, Castela e Aragão), mandou construir um paço em Guimarães, na mesma colina onde se ergue o velho castelo medieval. Há referências, bastante vagas, que parecem indicar que a direcção da obra teria sido entregue a um mestre francês, chamado Antom. A construção deste edifício é contemporânea da do paço que o mesmo Conde mandou construir em Barcelos, que seria muito afectado pelo terramoto de 1755, acabando por derrocar em 1800.

Sabe-se que quando, em 1442, o regente D. Pedro se alojou aqui, na altura em que outorgou ao seu meio-irmão D. Fernando o título de Duque de Bragança, o palácio estava inacabado. E a obra continuava incompleta aquando da morte por decapitação do segundo Duque, D. Fernando II, que fora acusado de traição ao rei D. João II. Assim ficaria definitivamente depois que, no início do século XVI, o paço ducal foi transferido para Vila Viçosa. Já em finais do século XVII, nas suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, Torcato Peixoto de Azevedo nos dá conta de que o edifício nunca foi concluído.

O Paço inacabado transformou-se na pedreira de Guimarães. Em 1611, a cantaria da sua cerca serviu às freiras de Santa Clara para o arranjo do seu mosteiro. Em 1666, a pedra das paredes interiores foi usada pelos frades capuchos na edificação do seu convento. De nada adiantavam os protestos da Câmara de Guimarães contra a retirada da pedra que ia arruinando o Paço, nem as suas petições ao rei para que ali mandasse fazer obras de conservação (a Câmara chegou mesmo a dispor-se a entregar aos capuchos a pedra da barbacã do Castelo, em troca da do Paço). A pedra continuou a ser saqueada, arruinando o edifício e os seus muros. Em 1839, ainda a Câmara de Guimarães insistia com a rainha para que providenciasse à conservação do Paço dos Duques de Bragança.

No início do século XIX, as alas do velho Paço que apresentavam um mínimo de condições de habitabilidade foram dotadas de telhado, transformando-se o edifício arruinado no quartel dos sucessivos corpos militares que estacionaram em Guimarães até ao final da década de 1930.

Em 1933, o Director do Museu Alberto Sampaio, Alfredo Guimarães, alertou Salazar para a necessidade de se proceder à reabilitação do antigo paço ducal. Por esta vez, com sucesso. O processo de (re)construção, cuja direcção foi entregue ao arquitecto Rogério de Azevedo, demoraria mais de um quarto de século a concluir-se. As obras progrediram com avanços e recuos.

Em 1938, os últimos soldados do Regimento de Infantaria 20 abandonaram definitivamente o velho quartel.

Segundo alguns autores, o edifício inicial teria uma traça gótica, bebendo a sua inspiração em palácios fortificados franceses, flamengos e italianos. A sua reconstrução aprofundou a influência da arquitectura no Norte da Europa, patente na acentuada inclinação dos telhados ou na abundância das chaminés tubulares. Na década de 1950 foram realizadas diversas viagens à Bélgica (Bruxelas e Antuérpia) e à França (região do Loire), em busca de soluções decorativas para a conclusão do palácio. O resultado a que se chegou vai muito para além do conceito de restauro, tratando-se de uma falsa reconstrução que produziu um edifício quase completamente novo, com características únicas em Portugal. Ostenta feições revivalistas neogóticas, que resultam de se ter pretendido decalcar a tipologia de uma residência nobre, segundo modelos vigentes no Norte da Europa nos finais da Idade Média, estranhos à tradição arquitectónica portuguesa. Esta influência, bem presente no exterior, ressalta nas soluções adoptadas para os acabamentos interiores, nomeadamente nas paredes, nos tectos e nas galerias do claustro, onde é notória a transposição do modelo dos castelos da Loire, em França. A capela, com pórtico orientado para o pátio interior do claustro, não nega a influência do Paço dos Reis de Maiorca, em Perpignan.

Tal como o conhecemos hoje, o Paço dos Duques abriu ao público no 24 de Junho de 1959, transformado em residência oficial do Presidente da República e num Museu cujas peças mais destacadas são quatro cópias das tapeçarias de Pastrana que representam feitos das conquistas portuguesas no Norte de África, com desenho qu tem sido atribuído ao pintor Nuno Gonçalves, autor do políptico que hoje conhecemos por Painéis de S. Vicente.

O Paço dos Duques de Bragança não será, nem pela sua arquitectura actual, nem pelo seu acervo museológico, o mais genuíno dos monumentos vimaranenses. Longe disso. Todavia, pela sua localização em espaço emblemático da nossa identidade nacional e pela sua configuração, que remete para o cenário de fantasia que geralmente se associa aos contos de fadas, passou a integrar, nas poucas décadas da sua existência, o nosso imaginário, tornando-se no monumento que recebe mais visitantes no Norte de Portugal.

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6 de janeiro de 2006

Os Reis

Tempos houve, não muito longínquos, em que o espaço rural ainda entrava pela cidade adentro. Com o decurso do tempo e o processo de alargamento do território urbano, a ruralidade vai-se perdendo e, com ela, vão desaparecendo os modos de vida, as tradições e as práticas costumeiras que se associavam ao calendário agrário, e que ajudavam a dar forma à identidade cultural de Guimarães e das suas gentes.

É o que sucede, por exemplo, com o ciclo das festas do Inverno que se inicia pela Senhora da Conceição (8 de Dezembro) e se encerra pelo S. Sebastião (20 de Janeiro), onde o Natal ocupa o espaço central. Nas nossas velhas aldeias, este era um tempo de menos trabalho nos campos e de alguma fartura nas casas, com as tulhas cheias do cereal recém colhido, o vinho da última vindima ainda a repousar nas pipas das adegas e o porco da matança recente a salgar nas arcas ou a defumar sobre as lareiras.

Neste tempo, em que as casas dispunham de maior auto-suficiência, reforçavam-se os laços de vizinhança e de parentesco e promovia-se a partilha e a circulação dos alimentos, através do peditório e da dádiva. Por aqueles dias, os actos de dar e de receber adquiriam a dimensão de compromisso moral.

Os festejos da Epifania ou dos Reis, onde a religiosidade cristã se mistura com reminiscências de velhas práticas pagãs, integram este quadro festivo.

Na noite do dia 5 de Janeiro, depois da consoada ou ceia pequenina, que era composta (como nos outros dias festivos do ciclo do Natal) por batatas cozidas com bacalhau e couves e alguns doces característicos da época, ia-se cantar os Reis pelas casas dos vizinhos. Rapazes e raparigas juntavam-se em grupos para cantarem versos alusivos à quadra, acompanhados por diversos instrumentos musicais: viola, concertina, cavaquinho, reco-reco, tambores, ferrinhos, garrafas, panelas, colheres de pau e o mais que se improvisasse para servir de suporte instrumental às cantorias.

Se nos quer dar os reis
não se ponha a demorar
nós somos de muito longe
não podemos cá voltar

Iam de porta em porta, cantando loas em homenagem aos moradores das casas que visitavam, esperando receber algo em troca (chouriços, trigo, milho, ovos, batatas, nozes, dinheiro e farinhatos, em caso de matança do porco recente).

Uma cabeça de porco
E um galo cristalhudo
Somos panos de algibeira
Temos barriga para tudo

Em alguns sítios, as ofertas resumiam-se a um par de cebolas, duas ou três batatas, castanhas, água-pé e, algumas vezes, dinheiro. Nas casas onde cantavam, comiam pão com figos, nozes e chouriço e o dono da casa abria uma garrafa do seu melhor vinho.

Estes grupos só costumavam desfazer-se quando já quase amanhecia.

Vamos dar a despedida
No greirinho do arroz
Vivam os patrões desta casa
Por muitos anos e bôs

Cantavam-se os Reis até à véspera do S. Sebastião (em alguns locais até à véspera do Santo Amaro, no dia 15). Por vezes, as ofertas assim recolhidas era levadas à feira para vender, sendo o produto da venda repartido por todos os cantadores.

Em noite de Reis, havia também lugar para diversas práticas propiciatórias. Em alguns locais, era costume o grupo de cantadores levar consigo uma pequena coroa de flores amarelas (a cor do ouro), que representava a prosperidade, com um flor branca, prenúncio de paz para a família.

Nesta noite, a romã também tinha poderes propiciatórios: três dos seus bagos lançados ao lume certificavam que ele se manteria aceso todo o ano, três bagos na caixa do pão asseguravam o pão e outros três no bolso garantiam dinheiro.

Um outro amuleto com virtudes para todo o ano é o canhoto de Natal, que deve ser queimado na noite de 24 para 25 de Dezembro, e requeimado em lume novo à meia-noite dos dias seguintes, até aos Reis. Em cada um desses dias, o canhoto deveria ser levado ao lume coberto com um pouco de bosta de boi que tivesse servido para tapar a porta de um forno que cozesse pão para a noite do Natal. Este canhoto servirá para afastar as trovoadas. A tradição é-nos contada por Francisco Martins Sarmento, que descreve uma outra virtude deste tronco carbonizado, a de curar doenças desconhecidas: se uma pessoa está com doença esquisita, deita-se de modo que fique com a cabeça para o lado do oriente; acende-se o canhoto e faz-se atravessar o fumo que ele lança por cima do operado. É preciso, como se vê, encaminhar o fumo na direcção de norte a sul.
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