6 de janeiro de 2006

Os Reis

Tempos houve, não muito longínquos, em que o espaço rural ainda entrava pela cidade adentro. Com o decurso do tempo e o processo de alargamento do território urbano, a ruralidade vai-se perdendo e, com ela, vão desaparecendo os modos de vida, as tradições e as práticas costumeiras que se associavam ao calendário agrário, e que ajudavam a dar forma à identidade cultural de Guimarães e das suas gentes.

É o que sucede, por exemplo, com o ciclo das festas do Inverno que se inicia pela Senhora da Conceição (8 de Dezembro) e se encerra pelo S. Sebastião (20 de Janeiro), onde o Natal ocupa o espaço central. Nas nossas velhas aldeias, este era um tempo de menos trabalho nos campos e de alguma fartura nas casas, com as tulhas cheias do cereal recém colhido, o vinho da última vindima ainda a repousar nas pipas das adegas e o porco da matança recente a salgar nas arcas ou a defumar sobre as lareiras.

Neste tempo, em que as casas dispunham de maior auto-suficiência, reforçavam-se os laços de vizinhança e de parentesco e promovia-se a partilha e a circulação dos alimentos, através do peditório e da dádiva. Por aqueles dias, os actos de dar e de receber adquiriam a dimensão de compromisso moral.

Os festejos da Epifania ou dos Reis, onde a religiosidade cristã se mistura com reminiscências de velhas práticas pagãs, integram este quadro festivo.

Na noite do dia 5 de Janeiro, depois da consoada ou ceia pequenina, que era composta (como nos outros dias festivos do ciclo do Natal) por batatas cozidas com bacalhau e couves e alguns doces característicos da época, ia-se cantar os Reis pelas casas dos vizinhos. Rapazes e raparigas juntavam-se em grupos para cantarem versos alusivos à quadra, acompanhados por diversos instrumentos musicais: viola, concertina, cavaquinho, reco-reco, tambores, ferrinhos, garrafas, panelas, colheres de pau e o mais que se improvisasse para servir de suporte instrumental às cantorias.

Se nos quer dar os reis
não se ponha a demorar
nós somos de muito longe
não podemos cá voltar

Iam de porta em porta, cantando loas em homenagem aos moradores das casas que visitavam, esperando receber algo em troca (chouriços, trigo, milho, ovos, batatas, nozes, dinheiro e farinhatos, em caso de matança do porco recente).

Uma cabeça de porco
E um galo cristalhudo
Somos panos de algibeira
Temos barriga para tudo

Em alguns sítios, as ofertas resumiam-se a um par de cebolas, duas ou três batatas, castanhas, água-pé e, algumas vezes, dinheiro. Nas casas onde cantavam, comiam pão com figos, nozes e chouriço e o dono da casa abria uma garrafa do seu melhor vinho.

Estes grupos só costumavam desfazer-se quando já quase amanhecia.

Vamos dar a despedida
No greirinho do arroz
Vivam os patrões desta casa
Por muitos anos e bôs

Cantavam-se os Reis até à véspera do S. Sebastião (em alguns locais até à véspera do Santo Amaro, no dia 15). Por vezes, as ofertas assim recolhidas era levadas à feira para vender, sendo o produto da venda repartido por todos os cantadores.

Em noite de Reis, havia também lugar para diversas práticas propiciatórias. Em alguns locais, era costume o grupo de cantadores levar consigo uma pequena coroa de flores amarelas (a cor do ouro), que representava a prosperidade, com um flor branca, prenúncio de paz para a família.

Nesta noite, a romã também tinha poderes propiciatórios: três dos seus bagos lançados ao lume certificavam que ele se manteria aceso todo o ano, três bagos na caixa do pão asseguravam o pão e outros três no bolso garantiam dinheiro.

Um outro amuleto com virtudes para todo o ano é o canhoto de Natal, que deve ser queimado na noite de 24 para 25 de Dezembro, e requeimado em lume novo à meia-noite dos dias seguintes, até aos Reis. Em cada um desses dias, o canhoto deveria ser levado ao lume coberto com um pouco de bosta de boi que tivesse servido para tapar a porta de um forno que cozesse pão para a noite do Natal. Este canhoto servirá para afastar as trovoadas. A tradição é-nos contada por Francisco Martins Sarmento, que descreve uma outra virtude deste tronco carbonizado, a de curar doenças desconhecidas: se uma pessoa está com doença esquisita, deita-se de modo que fique com a cabeça para o lado do oriente; acende-se o canhoto e faz-se atravessar o fumo que ele lança por cima do operado. É preciso, como se vê, encaminhar o fumo na direcção de norte a sul.
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