29 de abril de 2005

O Castelo de Guimarães

Ícone de Guimarães e do alvorecer da nacionalidade portuguesa, o Castelo de S. Mamede foi mandado construir pela Condessa Mumadona Dias na segunda metade do século X, para resguardo dos religiosos do mosteiro que instituiu no local onde hoje está a Colegiada da Oliveira. Por um documento de 4 de Dezembro de 968, sabe-se que Mumadona fez doação do Castelo ao mosteiro, para que os frades e as freiras se pudessem nele abrigar de eventuais incursões dos mouros.

A partir de finais do século XI, foi residência ao Conde D. Henrique, que o remodelou e ampliou. Foi aí que Afonso Henriques passou a sua infância e juventude. Fez parte do cenário conspirativo da insubordinação que levaria o Condado à independência.

Na viragem do século XIII para o XIV, foi objecto da remodelação ordenada por D. Dinis, que lhe deu o essencial da configuração que hoje apresenta.

Morada do alcaide-mor de Guimarães e prisão para os infractores da vila, a partir de 1663 serviu também de armazém da palha do rei.

Nem sempre houve o melhor cuidado na sua preservação. Já em 1653, nos capítulos que Guimarães apresentou às Cortes, se pediu ao rei que mandasse acudir ao Castelo, à custa das rendas do alcaide-mor, por estar “arruinado e se se lhe não acudir se arruinará de todo em prejuízo grande da vila”.

Ao longo dos tempos, os muros que rodeavam a vila de Guimarães e as torres que guardavam as suas portas foram sendo demolidos para utilizar a sua pedra nas calçadas e em novas edificações. No final do século XVIII, a degradação da muralha era de tal ordem que foi declarada a sua inutilidade.

Para além do nascimento da Nação, o Castelo de Guimarães testemunhou boa parte dos momentos mais dramáticos da história portuguesa. Em 1369, resistiu vitorioso ao cerco das tropas de Henrique II de Castela. Em 1383, sendo o alcaide partidário de D. Beatriz, foi cercado por D. João I. Em 1580, esteve ao lado de D. António, Prior do Crato. Durante o consulado de D. Miguel, serviu de prisão para os opositores ao miguelismo.

Em Janeiro de 1836, um dos membros da Sociedade Patriótica Vimaranense, entidade que assumira o governo de Guimarães, propôs que se demolisse o Castelo para usar a sua pedra nas calçadas, “por ser uma cadeia bárbara que serviu no tempo da usurpação”. O assunto levantou acesa discussão, mas a proposta acabou rejeitada, com quatro votos a favor e quinze contra.

Abandonada a ideia da conversão do castelo em empedrado das calçadas, passaram a prevalecer as preocupações com a preservação do velho monumento. Em 1839, a Câmara alertou a Rainha para a necessidade de cuidar da sua conservação. Em 1889, Joaquim José de Meira propôs à Câmara que se organizasse um projecto de melhoramentos em volta do Castelo. Em 1910, foi classificado como Monumento Nacional. Em 1916, o governo autorizou a Câmara a contrair um empréstimo para, entre outros projectos, arranjar o parque circundante das ruínas do Castelo e do Paço dos Duques.

Em 1936 iniciaram-se as obras de restauro do Castelo, que seriam inauguradas em 4 de Junho de 1940. O arranjo do espaço envolvente contribuiu para realçar a monumentalidade do Castelo da Fundação, ao mesmo tempo que lhe retirou boa parte da vida que lhe vinha do bulício das gentes que, durante séculos, povoaram as ruas que foram arrasadas para abrir espaço para o novo parque.
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15 de abril de 2005

A Pedra Formosa

A Pedra Formosa é o ex-libris da cultura castreja. Trata-se de um monumento singular, baptizado pelo povo há vários séculos por causa da beleza da sua ornamentação, sendo um dos achados arqueológicos mais estudados. Ao longo de muitas décadas, o mistério que a envolvia alimentou aceso debate entre os especialistas acerca da sua natureza e função.

A Pedra Formosa é um monólito de granito lavrado há uns três mil anos, com quase três metros de largura e mais de dois de altura. Apesar das suas dimensões e peso, calculado em mais de cinco toneladas, já foi objecto de várias trasladações. Segundo a tradição, a primeira ocorreu quando foi levada à cabeça, desde o alto da Citânia até ao adro da Igreja de Santo Estêvão de Briteiros, por uma moura fiandeira.

Os livros contam uma história diferente.

A mais antiga referência à Pedra Formosa encontra-se numa obra de Francisco Xavier da Serra Craesbeck, que, escrevendo em 1723, conta que estaria originalmente no alto da Citânia, da parte Nascente, colocada em posição vertical. Como “pelo discurso do tempo caiu a dita pedra formosa no chão”, o abade de Santo Estêvão de Briteiros, Inácio de Carvalho, fez com que fosse levada, por sete juntas de bois, para perto do Rio Ave. Em Março de 1718, onze juntas de bois transportaram-na para o adro da igreja de Santo Estêvão de Briteiros, onde ficou “com o lavor para cima, posta sobre umas pedras altas”. Foi nesse local que Martins Sarmento a encontrou, providenciando, em 1876, o seu retorno à Citânia, onde foi colocada no interior de uma casa por ele reconstruída. Para subir o monte foram necessárias 24 juntas de bois. Em 1897, deu entrada no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, sendo exposta no centro do Claustro de S. Domingos, em posição horizontal (uma câmara escavada no solo permitia descer para observar a parte posterior do monumento). Mais tarde, foi posta ao alto na galeria do Claustro. Em 24 de Setembro de 2003 regressou a Briteiros.

Quando, em 1930, Mário Cardozo descobriu na Citânia de Briteiros uma segunda Pedra Formosa, ficou a conhecer-se o tipo de edificação a que pertencia, mas aumentou a controvérsia em relação à respectiva função: forno crematório (ou de cozer pão, ou barro, ou fundir metais), matadouro de animais, santuário?

No último quartel do século XX, o enigma foi resolvido pelos arqueólogos. A Pedra Formosa fazia parte da estrutura de um balneário composto por três espaços distintos: átrio com um tanque onde caía a água corrente, destinado a banhos frios, antecâmara de transição e câmara para banhos de vapor, tipo sauna. O vapor era produzido lançando água sobre seixos previamente sobreaquecidos num forno adjacente a esta última câmara. A Pedra Formosa erguia-se entre a antecâmara e o espaço da sauna, permitindo o acesso através da pequena abertura semicircular situada na sua base, concebida de modo a evitar a fuga de calor, mas suficiente para permitir a passagem de uma pessoa.

As pedras formosas são, pela sua importância material e simbólica, os tesouros mais valiosos que os arqueólogos podem achar nas ruínas dos velhos castros, constituindo uma das produções mais marcantes da arte de lavrar a pedra associada à cultura castreja. Hoje, já se conhecem umas quantas. Mas aquela de que aqui se falou continua a ser ‘a’ Pedra Formosa: a maior, a mais bela, a que precedeu e deu o nome a todas as outras.

Pode ser admirada no Museu da Cultura Castreja, em S. Salvador de Briteiros.

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