O primeiro vimaranense a tombar na Grande Guerra



No início de 1917, Portugal preparava-se para entrar na Grande Guerra na Europa, enviando tropas para a frente de batalha em França. De Guimarães partiu, a 22 de Maio, o 2.º Batalhão do Regimento de Infantaria 20, composto por 1200 praças, quase todos, como se lê na imprensa daqueles dias, tirados à lavoura, ao comércio e à indústria. Na véspera, percorreu as ruas da cidade uma impressionante procissão em que era conduzida a imagem de S. Sebastião, protector das gentes contra a fome, a peste e a guerra. Por aquelas horas, Guimarães parecia “mergulhada nas trevas de um grande luto, de uma grande dor”. Muito antes da hora prevista para a partida, juntou-se uma enorme multidão junto ao quartel do Proposto (instalações da Escola Industrial), que iria acompanhar os soldados até à estação do caminho-de-ferro, de onde partiriam em dois comboios. O destino seria Lisboa, de onde embarcariam, uma semana depois, para França.
O contingente vimaranense era comandado pelo Major José António de Araújo Júnior e integrava dois médicos, um pelotão de granadeiros, um provisor, um pelotão se sapadores, uma secção de metralhadoras ligeiras, uma secção telegráfica e telefónica e quatro companhias. A 1.ª companhia era comandada pelo Capitão José Vieira de Faria de quem o jornal Ecos de Guimarães dava notícias enviadas de França, numa nota publicada no dia 24 de Junho: dizia que estava “bom de saúde”, mas que ia tendo “muito trabalho com os seus quatrocentos soldados”. O articulista encerrava a sua nota com um desejo:
Que o bom Deus dos exércitos tome sua protecção o valoroso oficial, são os nossos mais ardentes votos e, oxalá, o possamos abraçar em breve, quando, coberto de glória, regressar à sua Pátria.
Esse abraço não aconteceria. No final do mês seguinte, nome do Capitão José Vieira de Faria voltaria a ser estampado nas páginas dos jornais de Guimarães. Transcrevemos o que se publicou no O Comércio de Guimarães de 31 de Julho de 1917:

CAPITÃO JOSÉ DE FARIA
No sábado circulou pela cidade a impressionante notícia do que havia tombado, pura sempre, nos campos de batalha da França, o nosso simpático e estimadíssimo conterrâneo e muito querido amigo, Capitão José Vieira de Faria. Os amigos do malogrado oficial — e eram todos os que tiveram a fortuna de travar relações com ele — atormentados com a dolorosa notícia, interrogavam-se como que a medo sem atinarem coma origem de tão má nova, acalentando, contudo, a esperança de que a tristíssima notícia, ou fosse menos verdadeira ou reduzida nas suas alarmantes proporções.
infelizmente, ontem, foi-nos confirmada a morte do brioso militar e, por toda a cidade se dizia com profunda mágoa —morreu o Capitão Faria!
Turvam-se-nos os olhos de lágrimas ao recordar a sua figura seca — o seu olhar severo mas sorridente onde se espelhavam em limpidez puríssima a abnegação, o valor, o brio e a honra — sentimentos que nele existiam no máximo grau.
Pobre José de Faria!
Morreu longe da Pátria que ele tanto honrou e estremecia; da Família, — da Mãe, da Esposa e da Filhinha que eram toda a paixão da sua bela alma; dos Amigos, de quem soube como poucos ser amigo dos Camaradas a quem sempre foi leal e dedicado.'
Muito novo ainda, pois contava apenas 31 anos, era um oficial inteligente, ilustrado e disciplinador tendo na sua curta, mas já brilhante carreira militar, servido em África por duas vezes, sendo a última durante as recentes operações contra os alemães.
Quando seguiu com o 2.° batalhão de infantaria 20 para os campos da França, mal tinha ainda acabado a licença de 90 dias, que lhe foi concedida depois do seu regresso de África.
Não faltamos á verdade se proclamarmos bem alto que desaparece para sempre da nossa vista um valente, brioso e distinto oficial do Exército português.
Parece que estamos a vê-lo nos campos dá França no ardor da peleja: seco, moreno, quase sem forças já, mas de pé ainda, — a espada desembainhada, na mão esquerda a pistola de serviço o quépi caindo sobre a nuca, oferecendo intemeratamente aquele peito português às balas, dominando, com a voz especial dos que sabem mandar, o encarniçamento do combate, o troar do canhão, o crepitar da fuzilaria, encorajando o seu regimento e bradando para a soldadesca: Eia! para a frente, rapazes, cumpramos o nosso Dever militar!...
*
Que descanse na paz do Senhor quem em vida soube ser um filho amantíssimo, um esposo exemplar e um grande e nobre Carácter!
O “Comércio de Guimarães”, que tinha pelo inditoso Capitão José de Faria a maior das admirações, acompanha toda a Família anojada no golpe que tão rudemente vem feri-la. E envia especialmente às exmas. snras. D. Helena Rosa de Faria e D. Maria da Conceição Barbosa de Oliveira Faria, e Manuel Martins Barbosa de Oliveira, respectivamente Mãe, Esposa e Sogro do malogrado e querido Capitão José de Faria os protestos vivíssimos do seu profundo sentimento.


Ainda na mesma edição, o jornal daria conta de informações mais precisas acerca da morte do Capitão Vieira de faria. Alguém tinha recebido notícias de França, enviadas antes de ser confirmada a morte do militar vimaranense, em que se dava conta de um acidente num exercício de instrução, em que uma granada rebentou fora de tempo, tendo ferido dezasseis militares, cinco de Infantaria 20: o Capitão Faria, o Tenente Francisco Martins Fernandes Júnior, da 2.ª Companhia, o Alferes José A. do Carmo, do pelotão de granadeiros, e um cabo e um soldado, não identificados. Destes, apenas o Capitão José Faria apresentava ferimentos de maior gravidade, “havendo, porém, esperanças de o salvar”.
As esperanças não se confirmariam.
O capitão José Vieira de Faria foi o primeiro vimaranense a tombar na I Guerra Mundial. Foi vítima de um acidente, sem que tenha chegado a combater.

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