Memórias Paroquiais de 1758: Tagilde


Tagilde é a terra onde nasceu S. Gonçalo, dito de Amarante. Francisco Martins Sarmento, nas suas prospecções arqueológicas e etnográficas, calcorreou Tagilde, onde testemunhou a permanência da memória do santo casamenteiro das velhas:

Vim rever a Fonte de S. Gonçalo, o Penedo, que ouvi chamar “Penedinho” e a capela de Arriconha. Espreitei debalde os terrenos vizinhos. O terreno onde fica o “Penedinho”, (que é de granito um pouco fino) desce depois em tabuleiros até ao regueirão que separa Tagilde do monte de S. Paio de Vizela; mas, por mais que espreitei, nada vi. Na Arriconha, entrei dentro das portas do que se diz ser casa do Santo; é uma velharia insignificante.
Uma mulher que encontrei e que trazia até à estrema de Tagilde o mesmo caminho que eu, contou-me de S. Gonçalo a seguinte curiosidade:
O Santo era de Tagilde, como se sabe, mas um dia atirou a bengalinha, para ver onde ela pararia e aí estabelecer-se. A bengalinha foi cair em S. Paio de Vizela. “Ainda não há-de ser aqui” - disse ele, e atirou de novo a bengalinha, que foi cair a Amarante.
O Santo entretinha-se, às vezes, a atirar tremoços aos rapazes (também quebrava os cântaros aos rapazes; objectando eu que ouvira dizer às raparigas, a mulher diz que também às raparigas, mas em ambos os factos falava sempre de rapazes), e em memória disso há ainda uma festa em S. Paio de Vizela em que se põe uma pipa de vinho (legado, decerto) a quem o quer beber, e havendo, além disso, um tiroteio de tremoços (só cozidos, não curtidos), que fornece o legatário.

Em Tagilde foi abade João Gomes de Oliveira Guimarães, figura maior dos estudos de história local de Guimarães, o Abade de Tagilde (que era natural de Mascotelos). Publicou os Vimaranes Monumenta Historica (compilação dos documentos medievais relativos ao concelho de Guimarães) e alimentou um outro projecto ambicioso: escrever uma monografia sobre cada uma das 76 freguesias que se distribuíam pelo território no final do século XIX. De cada uma reuniu um largo conjunto de informações, que não passaram de apontamentos. A excepção foi Tagilde, cuja monografia foi publicado em 1894, na Revista de Guimarães.
Tagilde é hoje uma das freguesias do concelho de Vizela.

Tagilde
Relação da freguesia do Salvador de Tagilde.
Em cumprimento da ordem do Muito Reverendo Senhor Doutor Provisor deste Arcebispado Primaz, que se dá conta dos interrogatórios a ela e nesta competentes.
Fica esta na Província Entre o Douro e o Minho, pertence ao Arcebispado Primaz de Braga e chamada a Ribeira de Vizela, do termo da vila de Guimarães e, como tal, da Coroa. Tem cento e vinte vizinhos e trezentas e setenta pessoas de sacramento, excepto alguns inocentes.
A sua paróquia está situada num alto, de onde se vê quase toda a freguesia e igreja, que tem três altares e bem dourados ao moderno, cujo orago ou padroeiro é o Salvador de Tagilde e consta dos lugares ou aldeias seguintes: Assento, Vergada, Quintães, Cruz, Souto da Cruz, Paredes, Cabreiro, Souto, Boavista, Torre, Sub Torre, Monte, Padroso, Padrosinho, Soutinho, Porta Carreira, Eira Velha, Bacelo, Passinhos, Azenha da Porta, Côso, Santiago, Lama, Azenha de Cabreiro, Póvoa, Beira do Rio, Vila Corneira, Bairro, Laje, Arriconha, Passo, Boco, S. Romão, Peninhas, Sino, Subouças, Figueiredo, Tapadas, Caselho, Devesa, Avilheira, lugar do Monte.
Nesta freguesia se acha colocado o sacrário, com sua confraria e mais a confraria de Nossa Senhora, com seu altar à parte, o altar de S. António, não tem confraria. É esta benefício da colação ordinária e renderá, um ano por outro, seiscentos e oitenta mil réis. O seu pároco é abade. Tem as ermidas seguintes: a capela de S. Gonçalo, sita no lugar da Arriconha, onde foi nascido este santo, a capela do Espírito Santo, sita na Torre, a capela de Santo António, sita na quinta da Devesa e a capela de Nossa Senhora do Pilar, sita na quinta de Subouças, todas desta freguesia.
Tem correio de Guimarães e é distante da cidade de Braga quatro léguas e, da de Lisboa, pouco mais ou menos, sessenta.
Não padeceu ruína alguma no terramoto de 1755.
Somente tem no dia de S. Gonçalo a capela do dito santo seus devotos de romagem.
Tem pequenos montados em que andam limitadas caças de perdizes e coelhos. Compreende, de Nascente a Poente, o rio de Vizela que só nas enchentes corre caudaloso, mas não tem navegação alguma, nem entram nele outros rios, nem regatos e tem alguns travessos para três azenhas que tem. Tem duas pontes, uma de pau, chamada a ponte da Ribeira, e outra, chamada a Ponte Nova e é de pedra. Tem este rio algumas pescarias de peixes, como são barbos, trutas, escalos, as quais são livres. As suas margens se cultivam, que dão bastantes frutos de vinho e pão e azeite. Tem suas águas suficientes. A origem deste rio é na freguesia de São Miguel do Monte.
Isto é todo o que tenho que relatar pertencente aos interrogatórios e, se neles for diminuto, é por não ter a eles que se possa responder. E por verdade me assinei com os dois párocos abaixo assinados na forma que se me determina. E para constar fiz esta.
Hoje em Tagilde, de Maio, 12 de 1758.
João Francisco de Oliveira, abade desta igreja.
O abade José Monteiro Vaz.
Amaro José de Paços Leite, abade de S. Faustino.
“Tagilde”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, vol. 36, n.º 10 p. 41 a 42.
[A seguir: São Paio de Vizela]

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