As romarias do Minho: S. Torcato, 1910

Igreja de S. Torcato.
Lemos no último número de Julho de 1910 da revista O Ocidente:
E chega o Verão e com ele toda a natureza se alegra. Pelas lindas terras do Minho sucedem-se as romarias, mas dentre todas a mais concorrida é a de S. Torcato, entre Braga e Guimarães, em lugar fertilíssimo e muito pitoresco.
A reportagem que aquela revista publicou sobre a romaria grande de S. Torcato daquele ano, descreve as festas que se prolongavam "pela noite e dia seguinte com as iluminações características do Minho, com fogos de artificio, muito vinho e suas escaramuças de pauladas, efeitos do álcool, dos ciúmes de namorados, ou de ajuste de contas de alguma rixa velha, aprazada para a romaria".
Aqui fica, com as imagens que a acompanhavam.


A procissão - O grande andor da Virgem com S. Torcato.

As romarias do Minho
Estamos no tempo próprio das romarias e, de quantas se fazem por essas províncias, as mais concorridas e pitorescas são as do Minho, mercê daquele lindo jardim, exuberante de vegetação, onde toda a terra se desentranha em frutos; e dos coloridos trajes de cores vivas, garridas, das moças sadias, airosas, adornadas de luzente oiro que lhes emoldura as rosadas faces, suspenso das orelhas em descomunais arrecadas e pingentes a confundir-se no colo recamado de grossos cordões e filigranas do precioso metal. É um luxo a valer, que para o possuírem todo o ano mourejam e de muita coisa se privam, podendo dizer como o filósofo: “que de coisas tem o mundo de que Diógenes não precisa” excepto o lindo oiro, dirão elas.
Pois são assim as romarias, um misto de sacro e de profano, tradições pagãs enxertadas no cristianismo, por uma tendência irresistível dos povos para festas ruidosas em que a invocação religiosa é um protesto para folgar e divertir-se em certos dias do ano, como era uso nos povos antigos.
Com isto movimentam-se as populações e o comercio; o povo alivia as tristezas de todo o ano e alegra-se algumas horas, cantando, dançando e bebendo mais à vontade, enquanto vai deixando cair na bandeja do santo da sua devoção o tributo voluntário que entende dever pagar-lhe pelos milagres que lhe fez durante o ano.
Há que distinguir neste ponto a boa vontade «lo contribuinte, em contraste com a relutância com que ele paga as contribuições do Estado, o que só se explica pelo Estado não fazer os milagres por mais que o povo lhos peça.
Pobre povo! tens razão!
Romarias, romarias, é tudo quanto te resta para folgares alegre, enquanto te não matarem no coração a perfumada flor da crença, que te suaviza as agruras da vida.
E chega o Verão e com ele toda a natureza se alegra.
Pelas lindas terras do Minho sucedem-se as romarias, mas dentre todas a mais concorrida é a de S. Torcato, entre Braga e Guimarães, em lugar fertilíssimo e muito pitoresco.
Nos primeiros dias de Julho a povoação toma o aspecto das grandes festas que vão realizar-se no primeiro domingo do mês. de muitas terras de Portugal e até da Galiza, chegam romeiros, e as estradas alastram-se dos forasteiros, os que vem a pé. a cavalo e em carros de toda a espécie, um despejar de gente que enche as cercanias da igreja de S. Torcato, que lá do alto é testemunha dos numerosos romeiros que se espalham pelos lindos campos em redor.
Por aqui e por ali armam-se barracas de venda. Ouvem-se descantes e toques ao som dos quais o povo dança em grande contentamento e alegria, que mais se expande a cada momento que os foguetes de grandes bombas estalam no ar com enorme estrondo.
Por toda a larga avenida que conduz à igreja, erguem-se mastros embandeirados, matizando o céu de azul intenso com o variegado de suas cores. À sombra das árvores que orlam o caminho, enfileiram se as barcas onde os forasteiros comem e bebem e em frente tocadores e cantores estendem a escudela pedindo alguns cobres. Os mais cuidadosos do seu físico entregam-se às mãos de barbeiros ambulantes, que na via pública abrem o seu salão com uma cadeira e um chapéu de sol.
Chega a hora da procissão, um mixto de cortejo cívico e préstito religioso, com seus carros triunfais alegóricos até àquele em que vem o S. Torcato.
Abrem a procissão alguns soldados da cavalaria municipal do Porto e logo seguem as irmandades ladeando os clássicos anjinhos, de asas ao vento, alguns ajoujados ao peso dos cordões e medalhas de oiro que lhes cobrem o bustozinho tenro.
Vem agora o primeiro carro, ou melhor um alto trono, que à primeira vista não se percebe como se move; o trono desce quase ao solo, sobre um estrado coberto em roda e só quem perscrutar com curiosidade, conclui que toda aquela enorme fabrica é conduzida por uns tantos homens que se ocultam sob o estrado e as cortinas.
É formidável o trono, todo de doiraduras de cima a baixo. Lá 110 alto a imagem da Virgem de tamanho natural, e a de S. Torcato paramentado, ante um altar completo do tamanho do de qualquer capela; para baixo estendem se os degraus por onde se sentam oito meninas vestidas de azul e véus brancos, as quais, quando o préstito pára, cantam loas e gesticulam automaticamente apontando para o S. Torcato que vai lá em cima.
Continuam as irmandades com suas cruzes, anjos e anjinhos, entremeiam-se músicas pelo cortejo e tudo precede outro carro, ainda mais alto, no seu trono. No topo, como emergindo de espessas nuvens de algodão em rama, se vê figurada a Santíssima Trindade do Padre, Filho e Espírito Santo, e logo abaixo S. Torcato de vestes prelatícias, com outras figuras alegóricas compõem o quadro, além de mais meninas vestidas como as do primeiro carro, que também cantam loas.
A estes carros segue-se uma urna conduzida por quatro rapazes mascarados de sacerdotes, significando a trasladação de S. Torcato que há mais de meio século se realizou.
Finalmente fecha a procissão o pálio, músicas e muito povo que faz acompanhamento, não sendo raro ver um e outro grupo dançando ao compasso dos trombones e do bombo.
As festas prolongam-se pela noite e dia seguinte com as iluminações características do Minho, com fogos de artificio, muito vinho e suas escaramuças de pauladas, efeitos do álcool, dos ciúmes de namorados, ou de ajuste de contas de alguma rixa velha, aprazada para a romaria.
O Ocidente, 33.º ano, volume XXXIII, n.º 1137, 30 de Julho de 1910, pp. 175-176.

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