A Citânia (micénica) de Briteiros em 1910

As necrópoles da Citânia.

E porque hoje é o Dia Internacional dos Sítios e Monumentos Arqueológicos, revisitámos um dos sítios arqueológicos primordiais e mais emblemáticos de Portugal, a Citânia de Briteiros, onde, a partir de 1874, Francisco Martins Sarmento se fez arqueólogo. Veremos a Citânia em 1910, pelos olhos de um colaborador da revista Ilustração Portuguesa, que não está identificado, mas que facilmente percebemos tratar-se de Alfredo Guimarães, que por aqueles dias ensaiava os caminhos da etnografia e do estudo da arte popular do Minho, onde encontrava vislumbres de uma herança micénica. Alfredo Guimarães, com a sua escrita garrida, leva-nos a subir a encosta do Monte de S. Romão e a percorrer as ruínas de uma velha, que insiste em designar no plural: as citânias (ou cidades, ou castros) de Briteiros.
Apesar de alguns equívocos geográficos (o orago de Donim não é S. Pedro, mas O Salvador, e a Citânia não fica em Santo Estêvão, mas em S. Salvador de Briteiros), da troca da nacionalidade do arqueólogo Cartailhac (que não é alemão, mas francês) e de não conseguirmos saber a que objectos se refere quando fala em cetrascelos tetraslos, vale a pena seguir os passos de Alfredo Guimarães pelas ruínas da Citânia de Briteiros, ao encontro das supostos documentos de uma civilização micénica no noroeste da Península.


Aspecto da Cidade depois das escavações de Martins Sarmento.

Cidades Mortas
Do arraial destrocado que são citânias pré-romanas de Briteiros, nos arredores de Guimarães, a mais imediata impressão é a de um vasto campo de luta, ainda quente da última peleja, e que um vendaval intenso varreu, com homens e edifícios, como por castigo às atrocidades estupendas dos povos bárbaros que as habitaram.
Roteiros indecisos de arruamentos, fragmentos de edifícios, golpes fundos e longos de aquedutos subterrâneos rompendo a montanha e hoje habitados pelas silvas agrestes, as covas abertas e profundas necrópoles, o esboço circular de construções — tudo sugestiona, recordando a catástrofe e a ruína. Naqueles planos de serra (qual dos dois mais impressionante) uma natureza passada, sepulta, em cinzas, pára e abisma ao centro da natureza averdiscada e húmida de um circular e arraizado horizonte de lazeiras aldeãs sobem ao ar quieto da tarde, azulados e vagos, enquanto vemos perto. em frente de nós, o lugar onde a encenação familiar não anima, já, rústicos e encantadores costumes domiciliares. Têm a cal agreste dos pedregulhos calcinados de milhares de estações aquelas lajes e terras de curioso estudo étnico. Uma saudade intensíssima brota da dramática exposição daquelas ruínas evocadoras; como se, realmente, homens e edifícios, vistos minutos antes, tivessem deixado pouco mais que pousar a poeira do seu último combate e da sua perdição irremediável.
Subir de S. Pedro de Donim — linda aldeia de cravos e valverdes   pelo serro da Citânia de Santo Estêvão de Briteiros, nos dias máximos de calor, é semelhante a um trabalho aguerrido e atrevido da meia idade, porque a poeira negra da montanha, no largo banho de suor que nos cobre, produz um indefinido cansado com aquele bater consecutivo de urzes e pedreiras. Meio corpo do monte cobre-se, ainda, das vegetações frescas do campo, de acampamentos altivos e cerrados de pinheirais. por entre os quais o sol se coa no relvado em admiráveis redes de ouro. Mas a montanha despe-se: tem o tronco nu e musculoso. E logo as escarpas se sucedem, difíceis e traindo os passos, para serem vencidas a pau ferrado, incidindo a terra com a coragem tenaz de um assalto de guerrilheiros — tanto é o perigo que nos atemoriza e a vontade curiosa que nos exalta mais e mais.

As casas circulares da Citânia.
Os vales vão subindo, crescendo, como se tivessem a mais vasta sequência nos montes fronteiros e vestidos de verdura. Tem-se, a todo o momento, a impressão do ingresso ao mastro de um navio sobre o movimento das vagas altas e inconstantes.
A razão por que descrevemos o estudamos as cidades mortas de Briteiros são os documentos de arte micénica, imprescindíveis para o nosso ensaio etnográfico sobre as artes populares do Minho, que nas citânias mais que em nenhuma outra localidade abundam, valiosíssimos.
Efectivamente, os documentos dessa arte apagada, de um alfabeto artístico quase insignificativo mas notável, precisa, para a coordenação dos factos históricos relativos à evolução artística, marcou um período de atracção muito geral, muito inconfundível. Não pode dizer-se que a passagem da arte micénica pelas estações históricas do Ocidente da Europa fosse infrutífera. Para que um género artístico chegue até ao momento em que o povo o recebe e utiliza é necessário que muito se tenha evidenciado, que o hábito se torne, por assim dizer, o seu melhor reclamo. E isto, muito principalmente, com povos de insignificante cultura e quase só vibráteis, sugestionáveis, com os documentos polícromos — aqueles que mais ferem a vista, que de um modo mais rápido gravam a sua expressão.
Os documentos da pedra, nessa época mal colocados e custosos de interpretação, eram os que só pela ausência de competidores coloridos estavam em circunstâncias de serem utilizados. Aqueles a que nos referimos são dessa espécie, Belos, sem dúvida; mas belos, ao primeiro encontro, somente para os juízes eruditos, para os indivíduos que facilmente deduzem do seu mérito ou pela sua educação científica ou, pelo menos, pela lúcida intuição que possuem. Porque, em verdade, só muito consciente ou inteligentemente se podem explicar a graça e o mérito de um exemplar de arte exótica, difícil de estudar-se, e, neste caso, mais difícil ainda para o esclarecimento da sua estranha situação entre nós.
O que já não podemos é continuar afirmando que os elementos de arte micénica passaram de modo fugaz e ocasional entre os castros pré-romanos de Briteiros — o seu melhor repositório. Eles, do mesmo modo porque exerceram uma altíssima influência na evolução de um determinado grupo de artes populares, chegaram também ao extremo erudito das aplicações artísticas foram um motivo de embelezamento arquitectónico, servindo a maioria das decorações que existem no precioso templo de Balsemão, nos arredores de Lamego.
E porque assim sucedeu, fique, contudo, bem definido, desde já, que de modo algum podemos admitir a hipótese de terem sido os ornatos daquele templo os transmissores, aos operários rurais, das belas esculturas dos seus produtos ingénuos e admiráveis.
As ruas da velha Citânia
Não estão na Citânia e no Sabroso, actualmente, os documentos de pedra lavrada a que nos referimos. Com critério e como prova de incomparável estima que lhes votava, Martins Sarmento, ao terminar a exploração científica dos dois castros, enviou-os cuidadosamente ao arquivo do museu arqueológico de Guimarães. Mas nem por isso as citânias pré-romanas deixaram de interessar-nos. Pelo contrário; é muito mais sugestivo o lugar deserto onde esses raros materiais estiveram sepultos milhares de anos, porque não deixa de nos recordar, semelhante ausência, quanta probabilidade podíamos ter em subtrair, com futuras escavações, muitos outros exemplares preciosos, talvez capazes de darem a este difícil problema da sua situação entre nós uma solução definida e iniludível.
Curioso, pela associação de factos, o caso de os mais notáveis elementos de arte micénica recolhidos em Portugal surgirem precisamente no meio provincial que com eles mais engrandece as suas feitorias de obra rústica. É, realmente, muito interessante que surjam, despertando o interesse dos estudiosos, precisamente no centro de uma província que fabrica esses incomparáveis jugos lavrados. Porque, dado que não possamos estabelecer prazo de vida à civilização micénica no noroeste da Península, o que desde já podemos afirmar é que não foi passageiro, rápido, o estádio do povo que a introduziu na nossa terra — isto ainda que o prazo que se lhe sucedeu, enorme, muito pudesse obrar nesta adaptação curiosa.
Outro aspecto da Citânia de Briteiros.
A classificação erudita dos elementos micénicos das estações de Briteiros nunca sofreu uma hesitação. São palpáveis, mede-os e liga-os o instinto de um homem inteligente, porque nada tem semelhanças tão consoladoras. São os mesmos cetrascelos tetraslos, os mesmos torsos que a memória notável de Cartailhac reúne e compara. Martins Sarmento chega a afirmar que alguns dos elementos recolhidos no valiosíssimo museu de Guimarães são artisticamente superiores aos que o sábio alemão menciona.
É, sobretudo, notável e feliz a casualidade do encontro. Que seriam os fogos rurais se não adoptassem os vazados e ornatos dessa arte pré-histórica? Sem dúvida que não teriam tao cedo encontrado um alfabeto artístico de tão singular expressão. Seriam, talvez, singelos e vulgares como os ornatos da cerâmica vermelha e negra; ou, talvez, tao inverosímeis como o estão sendo actualmente desde que variados e incongruentes motivos nacionais estão passando utilizados na sua ornamentação, sem constituírem uma fonte de interpretação assaz metódica e aceitável. O problema dessa arte pitoresca, porque está latente um conflito de ordem artística verdadeiramente atendível, resolve-se assim: ou o regresso às primitivas fontes de inspiração, seguindo o compêndio das decorações micénicas, ou o estabelecimento erudito de um compêndio exclusiva e caracteristicamente nacional, reproduzindo todos os motivos que nos meios rurais evidentemente se apropriem.
Isto só.
Documentos de arte micénica pertencentes à Citânia.
Ilustração Portuguesa, n.º 216, 11 de Abril de 1910, pp. 26-31

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