A Caminho de S. Torcato, com Alfredo Guimarães



Alfredo Guimarães (1882-1958), ficou conhecido por ter instalado o Museu de Alberto Sampaio, de que seria director durante quase um quarto de século, começou por ensaiar uma carreira literária. Escreveu poesia, teatro, alguma ficção e crónica. No verbete que lhe é dedicado no Dicionário Bibliográfico Português, iniciado por Inocêncio Francisco da Silva e continuado por Brito Aranha, lemos:

Nasceu em Guimarães, em 7 de Setembro de 1882, tendo-se dedicado no segundo decénio da vida ao comércio. Em 1905 apresentou-se como poeta na Revista Literária Científica e Artística de O Século, publicando quatro sonetos. Revelados os seus méritos poéticos, outro género de literatura mais apreciável lhe estava destinado: — os estudos regionais. O regionalismo, e muito principalmente o Minho, tem merecido a especial atenção de Alfredo Guimarães. “É um regionalista porque considera esse género o único, talvez, capaz de salvar a literatura nacional”.

O pendor regionalista da sua escrita está muito presente nos textos que publicava em diversos periódicos vimaranenses e nacionais, curiosamente escritos, a maior parte deles, no tempo em que residiu em Lisboa. Era de lá que enviava as Cartas Literárias que publicou no jornal republicano vimaranenses, onde tratou, com uma linguagem colorida e pitoresca, que muitas vezes ia para além daquilo que os dicionários consagravam, temas relacionados com os costumes e as tradições das terras do Minho, de que é exemplo o texto em que descreve o percurso dos romeiros desde Guimarães até S. Torcato, no dia da romaria grande de Julho. Aqui fica.

Cartas Literárias
A Caminho de S. Torcato
— Quem vem! Quem vem!
À boca do carro o cocheiro grita. Aprestadas, as bestas de carreira adornam-se de ramalhos batem os guizos e as moscas, relincham. Ciranda em volta o povo, de lenço em bico no colarinho, a jaqueta ao ombro, o pau no ar! Canta-se, batem-se as pontas dos dedos, erguem-se os sapatos na poeira — cruza-se num sapateado galego e vivo!
Inda está para nascer
quem será o meu amor!
— Quem vem! Quem vem!
Rapazes da monda, de chapéu na c’roa, roçando os arames finos da viola! Moças de lenço em cartucho caído para trás, levantando ao ombro, no guarda-sol de cana, a casaquinha e o palaio! Lavradores sóbrios, de meia idade, fartas suíças crespas, tostadas, dando ao varapau e sorrindo! Velhas de chinelos de trança ao ombro, camisa fresca de colarete, brincos em lágrima de oiro, a jaqueta azul, a saia rofegada e precintada nas ancas! Garotos de quinta, desmazelados, aberto e caído presilhão da ceroula dura de pano cru, o casaco mal enfiado, de chibata e sapatos brancos de carneira! Marujos de além-mar, com o baú pequeno da merenda, vestidos de bastão, sardentos, baixos, ruivos — gente hercúlea dos sóis cristalizados de alva e das negruras azuladas da noite, no oceano! Todos esses passam, seguem e desaparecem, em massa, para lá, fantasticamente, sob uma onda de poeira e sol rútilo!
— Quem vem! Quem vem!
Erguem-se as chinelinhas de verniz à pata de ferro da diligência! Brancuras provocantes de meia de linha, à saia alteada, sucedem-se, admiráveis! Em cima, na boleia e no tejadilho, erguem-se os paus dos romeiros, sarilho alegre, como se fossem espingardas em serviço de regedor! Sobem moças, num riso, arrebanhando a si as saias luzentes, escarlates, de romaria! Bate-se uma porta e logo outra. Espera um povo e outro segue cantando. Os carros levantam!
— Quem vem! Quem vem!
Outros ficam gritando. Mas lá adiante, imagem volúvel, as árvores rodopiam, como seguindo, como correndo! Pastas de sol dealbado brunem os prados! Dos casais, como um fumo alto e delicado, ondulam e espalham-se nuvens de pombas claras! Serenamente, as nuvens do céu possuem, como as ondas brandas do mar, cristas de espuma alvíssima e luzente!
Acima, laranja, acima,
Limão, limão!
Ó limão!
Ó lima!
Agora descobre-se a estrada alagada de poviléu! À roda do carro levantam-se dois colmaços de poeira, crespa, estonteada como se fosse num incêndio! Povo que segue, vendo o povo que roda ao grito galhardo das cornetas de carreira, pára e ergue o varapau, trejeitando, rindo e correndo, despenhadamente, para as valetas! Colinas de longe, ondeantes, sobre que os pinheirais elegantes se perfilam, têm, discretamente, uma sombra azulada e doce!...
E mil ranchos passam cantando!
E os mendigos, seminus, bradam, piedosissimamente!...
E o sol descansa por toda a terra o seu grande reflexo alaranjado e ardente!
Estou presa por engano.
As grades são de papel.
Estou presa por António;
Salva-me tu, Manuel.
Ah! — “Quem vem! Quem vem!”
A meia estrada, entre as árvores cansadas do pó, abafadas de pó, um tasco rústico, com o seu grande toldo de linho, estacado e amplo e mourisco, faz alto na marcha! — “Verde. Da quinta das Felosas”. O tabuleiro báquico, alagado de canjirões vidrados, preside à abundância! Perra, rangendo, a torneira roda, e um jacto cor de cereja, acidulado, fervente, vaza pitorescamente!
Pela terra toda! — brinda um romeiro, erguendo a sua vasilha repleta.
— Em verdade! Um grande dia!
— Um sol catita!...
—Pela terra toda, sr. João!
E, esplendoroso de cor, um largo horizonte de terras arredonda-se em meia bacia até ao plano alegre da estrada empovilhada!
E ora agora viras tu.
E ora agora viro eu.
E ora agora viras tu,
viras tu e mais eu!
Aprestam-se de novo, com alvoroço. Quem paga? Tinem moedas sobre a mesa alagada de vinho, entre as infusas. Os braços, encamisados de fresco, acotovelam-se; e precipitam-se agora à procura de prata na casa de grande atilho, colhida do bolso interior e escarlate do colete.
— Já aqui está.
— Mas...
— Quem mandou vir? Pague-se, santinha.
— Fica para a outra capela...
— Andando!
Ruído crespo, poeira espessa, sol vermelho e estirado!
Com toda a gente a estrada é um mar! Mar flexuoso, de vaivéns, tinto de lenços e oiro; adornado de tranças e velas; confundido de violas e gritos!
Olha aquele que vai cantando — além, entre a poeira — como a labareda das saias baila línguas vermelhas à roda dele!
Cá vamos, cá vamos — e o sol vai connosco, a arder sobre os milharais, os montes, as videiras, as carvalhas redondas, o pó, os romeiros,
S. Torcato, corpo santo,
fechai as portas por dentro,
           ai!...
fechai as portas por dentro,
que o arcebispo de Braga
quer o vosso rendimento.
Ó almas de caridade; olhe o aleijadinho. Meu senhor...
Silva verde e orvalhada
ao medronheiro se enleia;
           ai!...
ao medronheiro se enleia.
Meu amor se me prenderes
deixa-me larga à cadeia.
— Adeus, adeus, adeus!
— Ó da corneta?
— É povo!
— Adeus!
Meu amor, se me prenderes,
deixa-me larga a cadeia.
— Quem vem! Quem vem!
E os carros arrancam. Uns, velozes, passam além de nós, ofuscados numa nuvem espessa e redemoinhada. Outros, exaustos, trazem as bestas a arfar, sacudindo os ramalhos e as coleiras com guizos, e meneando a pita do chicote, indolentemente, sobre os arreios.
Tendas de limonada param nos recantos da paisagem de carvalhais e fitas, e o jogo das canecas verte de vasilha para vasilha a água doce dos refrescos.
Branco entre as videiras de enforcado, o Mosteiro aparece no alto, alegremente embandeirado.
Tu foste ao S. Torcato,
nem um santo me trouxeste,
           ai!...
nem um santo me trouxeste.
Nem os moiros da moirama
faziam o que fizeste.
— Olha além! Olha além!
S. Torcato, corpo Santo...
— Olha! olha! Lá está, lá está o “Santo”.
S. Torcato, corpo Santo,
a vossa capela cheira,
           ai!...
a vossa capela cheira,
Cheira a cravos, cheira a rosas,
e à felor da laranjeira!
E eis que entre os ramalhos principiam surgindo os mastros; os carros de carreira aumentam de número, subindo e descendo, o povo cresce em roda; as festadas passam, e já alfim se avista o arco da romaria.
O nosso carro sobe. Já se ouvem os sinos e os harmónios das barracas de palhaços. Na borda da estrada, sob os rostos afogueados e copiosos de suor, mulheres arregaçadas frigem nos tachos negros ao ar livre. Contra a porta dos tascos avança um mar de povo em mangas de camisa e varapaus. Delgadas e vestidas de claro, dobram-se sobre as varandas alguns tipos alegres de senhoras. Chegamos ao arco: para todos os lados a romaria é um mar! Ranchos de lavradores passam dançando e cantando! O sol é de fogo! As moscas andam tontas! Tocam cornetas de novos carros que partem. Descemos.
Vamos ao “Santo”.
Alfredo Guimarães.
Alvorada, 3 de Julho de 1913

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