Memórias Paroquiais de 1758: Donim

Ponte de Donim.


Há uma tradição que fala em misteriosos baptismos realizados à meia-noite na ponte de Donim (como noutras pontes), que Martins Sarmento coligiu nos seus apontamentos etnográficos. Era
um ritual que funcionava para mulheres grávidas que temiam não vir a ter uma boa hora no momento do parto. A grávida deveria ir esperar a meia-noite em cima da ponte. A primeira pessoa que lá passasse, seria o padrinho da criança que ainda estava por nascer, devendo baptizá-la, no ventre da mãe, com água que se tirava do rio, com um copo preso a um cordel que se lançava do cimo da ponte, dizendo: “Eu te baptizo, criatura de Deus, em nome do Padre, do Filho e do espírito Santo.”
Antes da hora, havia que se montar guarda nas entradas da ponte, para evitar que o primeiro ser vivente que ali passasse depois da meia-noite não fosse um bicho qualquer, o que poderia contrariar o efeito do ritual.
Para completar o processo, e para que este produzisse pleno efeito, quando a criança nascesse deveria ser chamada de Senhorinha, se fosse menina, ou Gervásio, se fosse menino, nomes que, em tempos, eram muito comuns em terras situadas nas imediações das pontes onde aconteciam estes baptismos da meia-noite.
Esta tradição acontecia na “ponte de cantaria, com quatro arcos, apta para todo o uso a que chamam a ponte de Donim”, de que fala o pároco na memória paroquial de 1758.

Donim
Freguesia do Salvador de Donim, visita do Chantrado da Sé Primacial de Braga Primaz das Espanhas.
Fica esta freguesia na Província do Minho, Arcebispado de Braga, comarca e termo da vila de Guimarães, da Majestade Fidelíssima de Portugal. Tem sessenta e seis vizinhos, a que vulgarmente chamam fogos, e duzentas pessoas. Está situada em vale, nas margens do rio Ave. Não se descobrem dela povoações, suposto dista da vila de Guimarães só légua e meia e pouco mais da cidade de Braga e, da vila da Póvoa de Lanhoso, só uma légua. Compreende os lugares do Forno, Outeiros, Cima de Vila, Quintãs, Lamas, Freixieiro, Eirado, Ponte, Feitel, Carreira, Ruela, Paço, Requeixo e Pedreira, que todos constam de poucos vizinhos, só os dois últimos [são excepções], e ficam todos distando pouco da paróquia, ficando mais próximos a ela a casa do Agrelo e o caseiro da igreja, cujo orago é o Salvador, colocado no altar maior, e, a seu lado direito, Nossa Senhora do Pilar e Santa Bárbara, e, ao esquerdo Jesus Menino e Santo Amaro, que se festeja no seu dia, no qual concorrem várias pessoas das freguesias circunvizinhas, com suas esmolinhas e sinais de milagres, como braços e pernas de cera, o que acontece também algumas vezes pelo discurso do ano.
No corpo da igreja, que consta de uma nave, estão dois altares próximos ao arco e, no da parte direita, as imagens de Nossa Senhora do Rosário, da Conceição e das Neves e, no da esquerda, o de São Sebastião. Contígua à capela maior, da parte do Evangelho, está a capela de Santo António, com altar e imagem do mesmo Santo, comunicando-se para a maior por um arco muito bem formado. Passa de duzentos anos que mandou fazer esta capela o Licenciado António Pires do Canto, abade que foi desta igreja, e deixou réditos para nela dizerem duas missas cada semana, e um carro de pão cada ano, que dele são cinco alqueires, para fábrica da capela, e, os mais, para se repartirem dia de Santo António pelos pobres da freguesia, conforme a necessidade, o que até ao presente se executa, sendo administradores os oficiais da freguesia, presidindo o pároco, e assim consta da instituição.
É esta paróquia abadia, apresentada a oposição pela Mitra de Braga e renderá, de frutos certos e incertos, trezentos mil réis.
Colhe-se algum vinho, azeite e frutas, milhão, abundante, e milho branco, centeio e feijão ordinário.
É regida pelas justiças de Guimarães, de cujo correio se serve, ou de Braga, que partem na sexta e chegam no domingo. E dista de Braga, capital do Arcebispado, pouco mais de légua e meia, e, de Lisboa, capital do reino, sessenta.
Tem fontes de boas águas, não só para o uso mas também para regar.
Tem esta freguesia, do Nascente para o Poente, um pequeno quarto de légua, e, do Sul para o Norte, um grande. Confina do Poente com a freguesia de Santo Estêvão de Briteiros, que antigamente se denominava da Silva Escura, e com a do Salvador de Briteiros, na qual divisão está o pequeno, mas elevado, monte da antiga cidade Citânia, onde se vêem vestígios de ser bem povoada, pelos sinais de casas e muros arruinados, agora tudo monte frio, onde pastam gados e se caçam alguns coelhos e perdizes e não produz senão torga miúda. É estreito e, de comprido, terá meio quarto de légua. Do Norte, parte com as freguesias de Sobreposta e de Pedralva, pelo monte Filgueiras e Monte Alto, tudo sem cultivação nem outro fruto mais que torga rasteira para pastos dos animalejos. Do Nascente, parte com a freguesia de Santo Emilião de Lanhoso pelo monte da Pedreira, que cuido ter tal nome por ser abundante de pedra muito bem fina, da qual se utiliza a vizinhança para edifícios e casas.
Do Sul, parte com a freguesia de Santa Maria de Souto, servindo de baliza o rio Ave, que dizem tem seu princípio distante daqui três para quatro léguas, na freguesia de Rossas e, logo abaixo, em Vieira, se junta outro regato, que principia no elevadíssimo e grande monte da Cabreira, e outro, que nasce em Vieira. Antes que aqui chegue, se lhe juntam mais dois regatos na freguesia de Vilela. Já neste sítio, é caudaloso, mas não capaz de embarcações. Corre do Nascente para o Poente, e não muito arrebatadamente. Cria algumas trutas, escalos, e enguias mas, com mais abundância, bogas e barbos. Neste distrito pescam todos livremente, no tempo que permitem as leis. E, nos reprovados, que são os da criação, pescam muitos, que, se não fosse isso e não houvesse coca, nem lhe lançassem cal e trovisco nas moradas, haveria muitos mais e grandes, para utilidade da república e bem comum. Tem neste distrito duas levadas, ou açudes; numa, dois moinhos e, na outra, quatro. Uma ponte de cantaria, com quatro arcos, apta para todo o uso a que chamam a ponte de Donim. Cultivam-se suas margens e nelas estão algumas árvores silvestres e também castanheiros e parreiras. São boas águas para refrescar e não se usa delas para a cultura, por se não poderem tirar. Morre em Vila do Conde, conservando o nome Ave, suposto daqui até lá se juntem outros. Dizem que daqui a Vila de Conde se contam oito léguas e, do seu nascimento, onze para doze.
É o que me parece ser verdade, e aos mais interrogatórios que não respondo, é que não tenho que lhe dizer.
Salvador de Donim, 11 de Abril de 1758 anos.
José de Araújo, abade do Salvador de Donim.
O padre Francisco Vieira, vigário de Santo Emilião de Lanhoso.
O abade de Santa Maria de Souto, Domingos da Torre.

Donim”, Dicionário Geográfico de Portugal (Memórias Paroquiais), Arquivo Nacional-Torre do Tombo, Vol. 13, n.º 25, p. 145 a 147.

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