23 de outubro de 2017

A mulher minhota, por João da Rocha (5)

Prosseguindo com a publicação do texto sobre a mulher minhota, de João da Rocha, damos agora o capítulo sobre a indumentária feminina tradicional do Minho.

Monografias regionais portuguesas

A mulher minhota (5)
AS HABITAÇÕES — VIDA FAMILIAR — O NATAL
O VESTUÁRIO
Às romarias minhotas, que de Janeiro a Setembro continuadamente se sucedem, moças e velhas levam as suas melhores roupas e as suas jóias. Os tipos característicos da indumentária feminina tendem a desaparecer, em vista da descentralização da vida social, das modificações introduzidas nos processos regionais de tecelagem e fiação, da concorrência das indústrias e das facilidades de viação e transporte. A cultura do linho, que existe desde que Portugal e reino, vai em decadência, e teares domésticos, desse velho tipo grego dos tempos de Penélope tecedeira, cedem o lugar aos teares mecânicos e a essa máquina de costura universalmente espalhada, que poupam tempo e trabalho e habituam às modas as raparigas. Nas povoações pouco afastadas das sedes dos concelhos já as aldeãs se vestem à moda da vila ou da cidade. Mas os velhos apegam-se ainda às antigas usanças e nas serras principalmente as tradições mantêm-se. A serrana não deixou, pois, de usar o linho, mesmo nas suas fases mais grosseiras, que são a estopa e os tomentos. As faldas das camisas são por lá de estopa; o peito, as costas e os braços de linho mais fino para mais durar. Em saias usa-se também no Soajo ainda o linho, mas já são de algodão as camisolas e as baetas. Empregam-se grosseiras e pouco cuidadas na serra as roupas brancas, as ribeirinhas, porém, apreciam o luxo das camisas e das meias. Trazem estas nos grandes dias camisas de linho branco, bordadas na gola, nas ombreiras e nos punhos, que põem à mostra sobre os vistosos coletes de casimira vermelha, apertados à frente por um cordão de sirguilha e guarnecidos de veludo preto com soutache e lantejoulas, ou missanga. Entre o colete e a saia refega-se a camisa, na cintura. Para outras bandas, usam-se os coletes de riscado ou de cotim, tendendo a desaparecer os de linho bordado, de cores vistosas. Já passaram de moda, mesmo em Castro Laboreiro, as faixas de lã vermelha que, à laia das peitorais gregas, sustentavam sob o colete os seios erectos. As meias são também de linho branco, feitas a agulha e entreabertas ou bordadas à frente. No auge do Inverno as da Ribeira e em quase todo o ano as da Serra usam as piúcas, meias sem pés, em malha de lã, cobrindo a perna do joelho ao tornozelo. Há-as com peito-de-pé, à maneira de polainas, e com presilha ou cabrestilho. Os jalecos e os casacos agaloados, com filas de botões, usam-se por todo o Minho, além do litoral entre Montedor e o Neiva.
Como sobrevivência dos antigos vestuários de lã trazem as mulheres e crianças castrenhas (de Castro Laboreiro) os buréis de rascadilho e o amantezado de lã e algodão. A lã tecida com a estopa produz a sirguilha de Lindoso e Suajo e a fraldilha da serra de Arga. E todos esses buréis são tingidos em riscas longitudinais, mas à medida que se vai descendo da serra para a beira-mar as cores multiplicam-se e o listrado mistura-se com o enxadrezado. As raparigas da Areosa (cujo costume é também adoptado nas freguesias das margens do Lima, entre Ponte do Lima e Viana) usam saia às riscas, de lã vermelha (na Afife e em Carreço é azul) com fios azuis ou verdes, urdida com algodão branco. Tal saia é curta, graças a Deus, deixando ver o tornozelo e a meia, e às vezes a curva duma linda perna. Tem o cós às pregas e na fímbria uma larga barra de pano escarlate ou, se o fundo e azul, azul. As castrenhas usam sobre a saia de pano escuro um avental típico, o sanguidalho, tendo o aspecto de um triângulo isósceles com o vértice para os pés. O avental, na serra pouco usado ou curto, vai crescendo e vai-se generalizando até ao litoral; e é feito de chita grossa, agasalho, riscado, lã, e até de veludo nas vilas e cidades. As da Areosa ostentam-no, de lã ou sirguilha, com barras enxaquetadas em cores alacres. Sobre o fundo, em pregas como o cós da saia bordam-se a vermelho as iniciais da possuidora pentagramas ou hexagramas (signos de Salomão), cruzes, corações, âncoras, ou a palavra amor, em grandes e carinhosas letras. Por cima do avental põe-se a algibeira, simples ou com lavores, de uma ou mais cores. É de estopa, burel, casimira, cotim, saragoça e até algodão, conforme os lugares. Tem o corte de um coração. E na beira-mar vianesa guarnecem-na de lantejoulas e missanga e com os mesmos motivos do avental.

Como cobertura para a cabeça adoptam as ribeirinhas do Lima o lenço franjado, em fundo azul ou vermelho, atado no alto e com as pontas caindo para os lados. Os mantéus estão em desuso, revivendo ainda na capa castrenha, sem mangas nem gola.
João da Rocha, Ilustração Portuguesa, n. 216, Lisboa, 11 de Abril de 1910
Fotografias de Emílio Biel  C.ª

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