4 de julho de 2017

A tragédia do Teatro Baquet vista de Guimarães (2)

O antigo Teatro Baquet, no Porto (fachada voltada para a rua de Santo António/31 de Janeiro)

Entre finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX, antes do advento de outros meios de informação mais imediatos, como a rádio e a televisão, a imprensa tinha uma grande força na informação e na formação da opinião pública. Em Março de 1888 publicavam-se em Guimarães três jornais, o Religião e Pátria, fundado em 1862, que se apresentava como “religioso, político e noticioso” e se publicava à quarta-feira e ao sábado, O Comércio de Guimarães, à época sem rótulos quanto à sua orientação, que saía às segundas e ás quintas, e O Zirro, “folha satírica e literária”, quinzenário fundado em 1887 pelo Padre José António Fernandes, que ficaria conhecido como o Padre José Zirro e que teria publicação algo irregular, extinguindo-se ao 13.º número. Com a chegada do telégrafo, na década de 1860, as notícias do país e do mundo passaram a chegar a Guimarães bastante com muito maior actualidade do que antes. Assim se explica o Religião e Pátria ter dado a notícia da tragédia do Baquet na edição do dia em que o teatro ardeu. Na sua edição de 24 de Março, relata o incêndio do Porto com mais desenvolvimento.

O incêndio no teatro Baquet.
Desceu o pano.
Acabou o drama de que o Porto foi teatro, — drama sangrento, horrível, o mais tétrico e horrível que se pode imaginar. A pena treme ao descrever a fúnebre tragédia, e a memória sente-se como que duvidosa, se a catástrofe se deu ou se foi um sonho de pesadelo!
E, na verdade, mal se pode imaginar um instante no fúnebre drama!
Um vasto recinto cheio de pessoas; um violento incêndio destrói rapidamente o edifício: todos tratam de escapar à morte, e, em tal caso, todos os meios de salvação são lícitos: avançam corpos sobre corpos, e enquanto uns querem avançar para se escapar, outros os seguram nas agonias da morte e lá ficam ambos; pais, filhos, parentes e amigos, e outros por caridade, chegam-se para salvar algum dos desgraçadas, e também lá ficam vítimas da sua dedicação!
Completou todo o drama imensamente horroroso uma derrocada que parecia dizer: Morre aqui tudo porque eu assim o quero. E morreu! Oh Deus!... E os inocentinhos?!...
São para cima de 100 os cadáveres. Os pertencentes à cidade do Porto já são conhecidos, mas os estranhos?...
Depois, a cena lugubremente patética. Dezenas de cadáveres disformes, choros, luto, e casas fechadas porque desapareceram os seus habitantes...
Oh! que horrível! A ponte do Douro na invasão francesa; o naufrágio do vapor Porto; e o incêndio do teatro Baquet, é a trindade memorável do Porto na perda de vidas.

Religião e Pátria, 24 de Março de 1888
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