3 de julho de 2017

A tragédia do Teatro Baquet vista de Guimarães (1)

O Teatro Baquet, numa ilustração da revista Arquivo Pitoresco, n.º 33, 1863

A tragédia que se abateu sobre Pedrógão Grande em meados de Junho de 2017 tem sido apresentada como o incêndio mais mortífero de que haverá registo em Portugal. Pode ser verdade, mas se só estivermos a falar de incêndios florestais. O incêndio que provocou maior número de vítimas de que há memória em Portugal aconteceu no Porto, na noite de 20 para 21 de Março de 1888, quando ardeu o Teatro Baquet. Nunca se soube ao certo quantas pessoas terão morrido neste desastre. Acredita-se que foram mais de 120, embora só tenham sido identificados 96.

O Teatro Baquet, com frente para a Rua de Santo António e uma saída para a rua de Sá da Bandeira, tinha sido inaugurado com um baile de máscaras, no Carnaval de 1859. Tinha sido construído por António Pereira, um alfaiate que tinha feito fortuna em Espanha, de onde trouxera a alcunha Baquet. Depressa se tornou numa sala de espectáculos muito popular, conhecida por acolher os espectáculos que o público queria ver. Tinha uma companhia residente, que chegou a actuar no Teatro D. Afonso Henriques de Guimarães, em Julho de 1876.

Anúncios dos espectáculos da Companhia do Teatro Baquet no Teatro D. Afonso Henriques, em Guimarães, publicados em Julho de 1876 no Jornal de Guimarães.

Na noite de 20 para 21 de Março, com a sala cheia, um pano do cenário tocou numa gambiarra de iluminação a gás, pegando fogo, que rapidamente alastrou. O teatro encheu-se de fumo, o corte do gás lançou-o na escuridão, o pânico e o fogo fizeram o resto. Passadas duas horas, estava reduzido a escombros.

A notícia espalhou-se quase tão depressa como o fogo. Chegou a Guimarães pelo fio do telégrafo e já aparece nas páginas do jornal Religião e Pátria do dia 21. Ainda naquela madrugada, não faltou quem se dirigisse ao Porto, para saber de notícias de familiares e amigos. Quando amanheceu, não se falava de outro assunto. Durante um par de semanas iria fazer correr muita tinta nas páginas dos jornais locais.

Teatro Baquet em chamas

No dia 22, O Comércio de Guimarães dava pormenores do sinistro:

Grande catástrofe

Está de luto o Porto! Uma grande catástrofe, como os nossos leitores já devem saber, pelas notícias vindas dali, acaba. de enlutar muitas famílias, pela perda de esposas, filhos, maridos, parentes e amigos, um horror! Um incêndio pavoroso destruiu em poucas horas o teatro Baquet, e quantos cadáveres estarão ali sepultos!

Um nosso amigo que presenciou aquele espectáculo medonho, e do que felizmente saiu salvo, pinta-nos com cores bem tristes o quadro de angústias, de gritos, de confusão enorme. que houve ao descobrir-se o fogo quando se estava no espectáculo. E em 15 minutos, nos disse ele, que tanto seria para poder chegar da plateia superior à rua de Santo António, o teatro Baquet era todo uma fogueira! Não se explica a rapidez da voragem do incêndio, senão pela muita velhice dos madeiramentos.

Ontem de manhã espalhou-se nesta cidade esta triste notícia, mas ninguém supunha que teríamos no Porto a imitação do incêndio da Ópera Cómica de Paris. Só agora, pelos jornais dali chegados, é que se vê que o incêndio do Teatro Baquet foi um horror completo, cheio de desgraças, de vítimas e de prejuízos enormes.

Triste, muito triste o que ali se passa!

O número de vítimas ascende a mais de cem e ainda se não sabe o que mais haverá.

Leitor amigo, permite que não prossigamos na descrição, porque a tristeza nos veda e impossibilita. Calcula somente que um edifício enorme incendiou-se dentro de 15 minutos, estando repleto de gente.

A desolação que causou esta catástrofe nesta cidade, é enorme, e o telégrafo tem trabalhado constantemente a saber de famílias e amigos desta cidade.
[continua]

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