6 de junho de 2017

Quando a terra treme

"Senhor Jesus dos Terramotos que se venera na sua Ermida do Campo de Ourique", gravura de Manuel de Sousa Godinho, 2.ª metade do séc. XVII. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Hoje tremeu a terra em Guimarães, facto muito raro entre nós. Por aqui, quando se fala em terramotos, fala-se, quase sempre, de ocorrências em lugares distantes. Nestas terras, a actividade sísmica é muito moderada. Até onde alcança a nossa memória histórica, não encontrámos relatos de um único sismo catastrófico ou que tenha provocado danos mais significativos do que umas rachadelas em paredes menos robustas. Curiosamente, é a partir de Guimarães que a escritora Suzanne Chantal inicia a sua magnífica obra sobre a vida em Portugal no tempo do Marquês de Pombal:

Apesar de ser ainda bastante cedo e de a estação já ir adiantada, fazia tanto calor que o jumento resfolegava e tropeçava nas pedras do caminho em mau estado. O capuchinho transpirava abundantemente sob o hábito de burel. Por que razão havia de ter ouvido a missa na capela privativa da quinta? O seu jovem discípulo queria, porém, nesse dia de Todos-os-Santos, honrar a memória do seu protector e padrinho e decidiu ir rezar no mui sagrado santuário de Nossa Senhora da Oliveira. Também ele cavalgava a montada, silencioso e abatido pelo insólito calor. Não chovera durante todo o Verão; não havia uma sombra no caminho, um rebento verde nos campos pelados. A luz era a tal ponto transparente que se viam os campanários de Guimarães destacando-se no horizonte com uma nitidez de ponta seca.
De repente, um rumor surdo. Dir-se-ia uma tempestade: mas o céu não tinha uma só nuvem. Ou uma carroça carregada: mas o caminho estava deserto.
O capuchinho persignou-se. Não se tratava de uma vertigem devida ao jejum. Viu oscilar, ao longe, o campanário de Santa Eulália. Do ribeiro próximo subiu bruscamente um cheiro tão forte a enxofre e salitre que o frade teve de tapar o nariz.
O cavalo do jovem fidalgo empinou-se. O ar, imóvel e pesado, estava irrespirável. Inquieto, o cavaleiro desmontou e, debaixo da bota, sentiu a terra tremer.
CHANTAL, Suzanne – “A vida quotidiana em Portugal ao tempo do terramoto”. Lisboa: Edições Livros do Brasil, [19--], p. 11-12.

O terramoto de 1 de Novembro de 1755 sentiu-se em Guimarães, mas sem causar estragos significativos. Sabe-se que o Convento de S. Domingos  ficou com um sino rachado, mas o maior dano terá sido o susto que invadiu as gentes e que cresceu nos dias que se seguiram, à medida que iam chegando notícias das devastações no Sul do País, em especial na capital do Império, que ficou atapetada de cadáveres e de ruínas. Um frade do Convento da Costa escreveu um breve apontamento, que João Lopes de Faria transcreveu nas suas Efemérides Vimaranenses:
Memorável será para todos os séculos o dia de todos os Santos do ano de 1755 pelo terramoto com que o céu atemorizou a todo Portugal, e grande perda de vidas, e fazenda, que houve em Lisboa, e suas vizinhanças. Por todo o ano adiante continuaram, ainda que não com a violência e estrago do primeiro. Em todo o Reino se fizeram procissões de penitência. Em Guimarães saiu o Cabido descalço. Os estudantes saíram também com a imagem de N. Pe. (S. Jerónimo penitente) que nos vieram pedir para isso, que alguns Monges acompanharam e pregaram, em S. Dâmaso, donde saiu a procissão, à porta da Colegiada, no terreiro de Sta. Clara, no do Carmo, no da Misericórdia, no Toural, no das Dominicas, e outra vez no Toural, para a parte de S. Dâmaso, aonde se recolheu a procissão.
Há registo de outras manifestações de actividade sísmica em Guimarães. No dia 31 de Março de 1761 houve susto, com um tremor de terra que trouxe à memória o grande terramoto de 1755. No dia seguinte, a Irmandade de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos fez sair a imagem do Senhor dos Passos, numa procissão de penitência que percorreu as ruas da vila, para que movidos os corações dos pecadores e emenda de suas culpas, fazendo penitência delas, aplaquem a ira de Deus, que por causa delas nos ameaça com estes tão tenebrosos avisos, em acção de graças por não permitir que do dito terremoto resultasse dano considerável a criatura alguma desta vila e suas vizinhanças.
Na década de 1830 o cónego vimaranense Pereira Lopes registou dois terramotos, um na noite de 20 de Agosto de 1837, algum tanto violento, porém de pouca duração, outro na madrugada do primeiro dia de Julho de 1837, rápido, mas violento, que não causou qualquer estrago, a que se seguiram três grandes trovoadas sobres esta vila que apresentaram um aspecto medonho, não visto já há muitos tempos, assustando sobremaneira os habitantes da mesma, caindo nos arrabaldes da vila bastantes raios e faíscas, que não causaram algum dano mais do que a algumas árvores.
No mais, os registos constam apenas de pequenos abalos e de manifestações de solidariedade dos vimaranenses para com as vítimas de terramotos acontecidos noutras paragens, de que serão exemplo as manifestações de apoio às vítimas do grande terramoto da Andaluzia do dia de Natal de 1884 ou do sismo do Ribatejo de 23 de Abril de 1909, o mais devastador do século XX português.
Por aqui, a terra é calma.

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