22 de junho de 2017

"Podendo indicar", indica ou não indica?


Já está disponível, para discussão pública, o Estudo prévio sobre estacionamento automóvel na área urbana central de Guimarães, que resulta da anunciada encomenda de um estudo de viabilidade para a instalação de um parque de estacionamento subterrâneo no Largo República do Brasil e Alameda. É um documento importante, a que já fiz uma primeira leitura e sobre o qual tentarei dar a minha opinião, assim que a tiver melhor formulada, depois de uma análise mais atenta e de ouvir o que pensam algumas pessoas com quem costumo conversar sobre assuntos desta natureza.

Desta leitura inicial deixo aqui uma primeira nota.

De um estudo com esta natureza, que se propõe analisar o estacionamento no centro urbano de Guimarães, esperava que viesse carregado de dados numéricos, resultantes de medições e de contagens e que permitissem a análise de fluxos de tráfego, a quantificação das entradas e saídas de veículos, a avaliação da oferta de estacionamento disponível, a sua ocupação média, as variações da procura consoante as horas do dia, o comportamento dos automobilistas, nomeadamente a dimensão da sua disposição para pagar para estacionar (Willingness to Pay, no jargão dos estudos de viabilidade). Estes indicadores devem ser construídos a partir de instrumentos adequados, nomeadamente contagens de fluxo de tráfego, estatísticas de ocupação da oferta de aparcamento disponível ou inquéritos aplicados a potenciais utilizadores.

Por outras palavras, seria expectável que um estudo desta natureza partisse da avaliação da oferta para a estimativa da procura, presente e futura. Algo que facilmente se ilustraria com meia dúzia de tabelas e de gráficos. Mas, ao que se percebe, não foi esse o modelo de análise que os autores utilizaram. Em matéria de quantificação, o que encontrámos neste estudo é muito vago e impreciso. É certo que lá estão números que nos dizem da dimensão da oferta disponível. Mas nada nos dizem, em termos mensuráveis, acerca da sua taxa de ocupação ou da sua adequação ou desadequação à procura existente.

Do que afirmo, fica um exemplo, retirado da página 7 do documento:

A resposta à necessidade dos residentes tem sido acautelada através da criação de ruas e de pequenas bolsas de estacionamento de acesso condicionado, no entanto a capacidade instalada encontra-se preenchida podendo indicar um défice face à procura existente.
O que se diz quando se escreve “podendo indicar um défice face à procura existente” é que não se tem base sustentável para afirmar se há, ou se não há, défice face à procura existente.

Será que faz sentido avançar com a proposta de construção de novos parques sem que esteja inequivocamente demonstrada e quantificada a sua necessidade?

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