5 de maio de 2017

Ruas Antigas: rua dos Terceiros ou do Padre Gaspar Roriz

Pormenor da planta do engenheiro Almeida Ribeiro (1863-1867) referente ao espaço do terreiro de S. Francisco e do acesso ao Campo da Feira. A tracejado, as novas ruas que se propunha abrir. Fonte: AMAP.

A rua dos Terceiros, também foi conhecida por rua das Carvalhas de S. Francisco e rua de Donães. É a artéria irregular que hoje tem o nome do padre Gaspar Roriz. Não sabemos quando foi aberta, sendo certo que na planta de Guimarães da segunda metade do século XVI ainda não aparece. No século XIX já lá estava, com a designação de rua dos Terceiros. Ao que parece, esta via resultou de uma decisão da Câmara de 1846, que mandou abrir um caminho mais desafogado em direcção ao Campo da Feira. Em 1899, andou em obras de reconstrução e calcetamento.

O engenheiro Almeida Ribeiro, por perceber que havia necessidade de uma ligação entre S. Francisco e o Campo da Feira e considerar a Viela de Soalhães uma “péssima comunicação” entre aqueles dois espaços, projectou “uma rua de 10 metros de largura a partir do terreiro das Carvalhas em continuação com o alinhamento do Hospital de S. Francisco”. Traçada em linha recta, a nova artéria garantiria uma circulação mais fácil de S. Francisco ao Campo da Feira.

Durante décadas, este projecto esteve em cima da mesa. Em 1890, a Ordem Terceira de S. Francisco antecipou-se à iniciativa da Câmara, doando-lhe 144 metros quadrados de terreno que lhe pertencia e iniciando, desde logo, as demolições necessárias para que a nova rua seguisse o percurso traçado por Almeida Ribeira, que corria rente à Igreja.

Mas a obra nunca se realizaria. As obras de construção da Alameda, que implicaram a demolição do quarteirão de S. Dâmaso, levariam ao seu abandono em definitivo.

Esta rua tem o nome do padre Gaspar Roriz desde a manhã do dia 12 de Julho de 1936, data em que Guimarães rendeu uma expressiva homenagem ao multifacetado padre-artista que deixou marcas indeléveis no devir vimaranense das primeiras décadas do século XX. Naquela manhã, foi a sua irmã Maria de Oliveira Roriz, quem descerrou a lápide com o seu nome, entre acordes de música, revoadas de pombas, estralejar de foguetes e os aplausos da vasta multidão queque se juntou para participar na cerimónia.


Gaspar Roriz, o padre-artista

O Padre Gaspar da Costa Roriz é uma das figuras incontornáveis das primeiras décadas do século XX em Guimarães. Nascido na rua de D. João I no dia 30 de Agosto de 1865, filho de um mestre barbeiro, nunca esqueceu a sua origem humilde nem deixou de amar a terra que o viu nascer. Sacerdote e eminente orador sagrado, era frequentemente requisitado para abrilhantar solenidades religiosas nos lugares mais diversos. Mas os seus dotes oratórios não se limitavam a actos sagrados, sendo senhor de uma verve prodigiosa com que animava todo o género de eventos, públicos ou privados. Foi jornalista (em 1899 era redactor principal do Eco de Guimarães; em 1908 fundou o Regenerador, de que era director e proprietário), professor do Liceu, poeta, dramaturgo, encenador, conferencista, político, comissário da Ordem Terceira de S. Francisco de Guimarães. Grande conversador, era presença imprescindível nas tertúlias do seu tempo, onde se destacava pela cultura, pela devoção patriótica à sua cidade e pela finura da sua ironia. Padre-artista lhe chamou um dia um colega de ofício.

Gaspar Roriz foi um dos grandes animadores das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau, desde o seu ressurgimento em 1895. Escreveu pregões, compôs e ensaiou os textos das danças, dedicou diversas composições poéticas às festas. Dedicou-lhes também o Auto da Saudade, que compôs em 1920. Não foi por acaso que foi a Associação dos Antigos Estudantes do Liceu de Guimarães, então dirigida por António Faria Martins, a tomar a iniciativa de comemorar o centenário do seu nascimento, em 1965.

O seu nome é também indissociável das festas Gualterianas, ou não fosse ele o autor da letra do Hino da Cidade de Guimarães, composto por Aníbal Vasco Leão para as festas de 1906, e o inventor da Marcha Gualteriana, que saiu à rua pela primeira vez nas festas de 1907.

Mas o que mais distinguia o Padre Roriz era a sua dedicação a Guimarães, a sua paixão pela terra natal. Por aqui, todos sabiam que a porta da sua casa nunca deixava de se franquear alegremente a quem a ela batia e dizia a senha: Por Guimarães!

A última grande cerimónia em que discursou em público foi aquando da celebração do oitavo centenário da Batalha de S. Mamede, em 1928. Nesse dia, quando soaram os clarins de um pelotão de cavalaria, vestidos como os soldados de Afonso Henriques, acompanhando o içar da bandeira na torre de menagem do castelo, e a multidão explodia em vivas e aplausos, pelo rosto do Padre Roriz corriam lágrimas de que A. L. de Carvalho foi testemunha.

A notícia da sua morte cobriu Guimarães de luto no dia 7 de Março de 1932.
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