25 de maio de 2017

Destruição ou conservação de património?


Entre os projectos que que tenho em mente concretizar “logo que possível”, está o de um ensaio sobre a formação e a consolidação da consciência patrimonial vimaranense, que é muito antiga e consistente. Sempre que se fala em projectos para obra nova que interfira com o património preexistente e com a configuração da cidade, logo se ergue um clamor de vozes contrárias. No que toca ao seu património, os vimaranenses adoptam, por regra, uma atitude irredutivelmente conservadora. Foi essa atitude que impediu a destruição da torre de menagem do castelo, no lavar dos cestos das guerras entre liberais e absolutistas, e que se concretizassem sucessivos projectos de visionários que pretendiam trazer o progresso a Guimarães por via de largas avenidas que se rasgariam derrubando muros e casario e rompendo caminho pelo centro histórico adentro. Geralmente, os defensores do progresso por via do camartelo e, mais tarde, do betão, lançavam esgares de desprezo sobre os inimigos do progresso, que pareciam desejar que Guimarães ficasse parada no tempo. Acontece que, olhando retrospectivamente a partir dos dias de hoje e de valores que agora são (quase) universalmente aceites, verificámos que, por regra, eram os conservadores que tinham razão. O exemplo que aqui deixo agora parece-me suficientemente elucidativo.
No início de 1925, para abrir espaço para a instalação dos novos Paços do Concelho, projectados pelo arquitecto Marques da Silva, por proposta de Mariano Felgueiras, foi derrubado um tramo da muralha que D. Dinis mandara erguer para proteger a vila de Guimarães. Pela mesma altura, abriu-se a rua do Condestável Nuno Álvares Pereira, para dar acesso da Estrada de Fafe ao interior do Centro Histórico, por Santa Clara. Para rematar essa amputação, formou-se um cotovelo,onde se abriu uma porta, nova, mas a-fingir-de-gótica, para dar acesso ao Internato Municipal, que funcionava no edifício do antigo convento de Santa Clara. por aqueles dias, ergueram-se públicos clamores em Guimarães contra a destruição daquele património. Um vimaranense que ama a sua terra escreveu, mandou imprimir e distribuiu profusamente no dia 17 de Janeiro um manifesto, para memória futura, com o título “Guimarães Saqueada!”, contra a destruição daquelas "memoráveis pedras para realizar um melhoramento local que talvez fique, como as obras de Santa Engrácia, sem nunca se concluir!”.
Um texto profético, que aqui se reproduz. 

Guimarães Saqueada!

A esta mesma hora, nestes frios e primeiros dias de ano que começa (e para nós, infelizmente, bem mal!) está-se destruindo ali na vizinha estrada de Fafe parte da histórica muralha de D. Dinis, derradeiro vestígio desse glorioso cinto ameado que outrora rodeava a cidade, como preciosa relíquia dum passado cheio de heroísmo e amor pátrio! Não vimos — é tarde de mais para o fazer! — lentar estorvara sua demolição, porque seria inútil qualquer esforço despendido agora para obstar a consecução daquela obra. Vimos tão somente (e seja-nos isso lícito, ao menos) lastimar comovida e publicamente tal acontecimento, que nos enche a alma de luto e amargura! Vimos, como vimaranense que ama a sua terra e a queria ver estimada, desabafar a dor da nossa consciência ante esse facto vandálico que se está praticando e que merece toda a nossa censura e repulsa! Vimos como que tecer-lhe o tristíssimo necrológio, para que depois de esse acto consumado o nosso coração possa rever as lágrimas que verteu!
É que esse resto de muralha não era só dos vimaranenses, mas sim de todos os portugueses que sabem prezar a sua Pátria e compreendem o alto significado histórico que representava esse padrão, não nos cabendo, portanto, o direito de lhe tocar, porque ele faz parte desse património comum de sagradas ruínas que, aqui e além, assim desmanteladas, representam ainda as nossas glórias passadas! Não nos cabia esse direito porque são brasões nobilíssimos da Raça, que os séculos enegreceram, a hera enramalhetava e o mesmo tempo tem respeitado! E deitam-se abaixo essas memoráveis pedras para realizar um melhoramento local que talvez fique, como as obras de Santa Engrácia, sem nunca se concluir! Mas a obra demolidora corre velozmente para ninguém que tenha olhos de ver possa comentar... Destrói-se porque assim se entendeu e o Estado consente, como tem consentido e promovido tanto acto de feroz destruição. É uma terrível debacle que ameaça tudo quanto possuímos de belo e enternecedor, motivo do nosso orgulho, razão da nossa própria existência! É bolchevismo moderno (entenda-se ignorância e estupidez) calcando as tradições imorredoiras dum povo que, daqui a dois dias, não tem história, não tem monumentos, não tem nada!... Queremos olhar para diante, mas se lançarmos um olhar retrospectivo encontraremos tantos erros nefastos, que o futuro se nos ensombrará com a projecção de nossos irremediáveis delitos cometidos! Andamos cavando o desprezo e a indiferença da gente civilizada, num retrocesso de ideias e realizações! Vergonha das vergonhas. Ontem assistimos à derrubação dos preciosos templos das Capuchinhas e Santa Clara, hoje à mutilação dos Paços dos Duque de Bragança e muralha medieva que o nosso sangue já tingiu!
Deus louvado, o que aí vai! Dir-se-ia que um vento mortal soprou sobre nós!... Quantas calamidades em tão curto prazo de tempo! A nossa terra está sendo alvo das mais ridículas e torpes transfigurações, num desabar ininterrupto das mais autênticas preciosidades, que eram todo o nosso desvanecimento! Abri os olhos, vimaranenses, e acordai, antes que apeteça dizer, como Herculano: “Isto dá vontade de morrer !...

Um vimaranense que ama a sua terra.

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