20 de maio de 2017

A Igreja da Oliveira, por Jerónimo de Almeida

A igreja da Senhora da Oliveira de Guimarães no início do séc. XX. Na parede da torre, ainda são visíveis as marcas do antigo fontanário, desmontado em 1904.

Prosseguindo com as suas Breves considerações arqueológicas, Jerónimo Sampaio dedicou dois textos à igreja de Nossa Senhora da Oliveira, a Colegiada. No primeiro, que agora reproduzimos, publicado no jornal Alvorada de 11 de Março de 1911, aborda a história do monumento e das reconstruções e restauros de que foi objecto ao longo dos séculos, dando especial ênfase ao seu desamor pela “vandálica reforma” a que o Cabido mandara proceder na década de 1830, e que Alexandre Herculano disse ser obra da “torrente de barbária que alaga este país tão rico de recordações, recordações que tantos ânimos envilecidos pretendem fazer esquecer”, que tinha emparedado a identidade gótica da igreja, recobrindo-a com mármores fingidos e dourados, de que se livrou no restauro do início da década de 1970.

Breves considerações arqueológicas — IV

Nossa Senhora da Oliveira

O vetustíssimo templo erguido pela condessa Mumadona no ano de 919, proximamente, anterior, portanto, à fundação da nacionalidade portuguesa, foi sucessivamente reconstruído e beneficiado elo conde D. Henrique e seu filho D. Afonso, apesar das vicissitudes por que passou com os assaltos guerreiros de sarracenos e muçulmanos que, por duas vezes, o despojaram de preciosas relíquias, até ao reinado de D. Joao I, o qual, em comemoração da celebrada batalha de Aljubarrota, o mandou restaurar com sumptuosidade não inferior à do mosteiro da Batalha, em 1387. Assinala esta grandiosa restauração do monarca uma inscrição em pedra mármore, com caracteres góticos, no frontal da igreja, ao lado da porta principal e que está traduzida em caracteres latinos numa outra pedra sobreposta, ambas coroadas pelo escudo desse rei, sustentado por dois anjos.
Este templo que primitivamente era conhecido por Santa Maria de Guimarães foi lhe alterado o nome para Santa Maria da Oliveira, no ano de 1031, sendo tradição que a derivação deste título proveio de que nos começos do século XIV fora trazida de S. Torcato uma oliveira que se plantara junto da igreja e que secando a princípio, subitamente reverdecera, copando se de novas folhas, o que foi tido como um milagre, ligando-se assim o nome da árvore ao do Senhora a quem era consagrado o templo.
Conquanto a obra ordenada por D. João não atingisse o esplendor artístico da Batalha, antes fosse muito inferior, o certo é que a igreja por ele restaurada gozou dum grande prestígio entre as demais do país, constituindo mais uma bela manifestação desse primoroso estilo gótico, que na Idade Média levou ao apogeu a arquitectura ocidental.
Antes de entrar no estudo e apreciação da obra desse glorioso fundador, convém elucidar da vandálica reforma a que nos anos de 1830 mandou proceder o cabido, alegando que a fábrica da igreja ameaçava ruína.
Estava no espírito da época destruir o gracioso e rico estilo gótico — considerado bárbaro desde o período da renascença, até princípios do século passado, como o significa o próprio Rafael ao Papa Leão X — substituindo-o pelo clássico Luís XVI. Só posteriormente se reconheceu o merecimento artístico desse formoso estilo, que também se denominou ogival, pela forma lanceolada de seus arcos árabes, mas quando já enormes desastres, como este, se haviam cometido.
Vista parcial da nave central da igreja da Oliveira. À esquerda, como ficou depois do restauro da década de 1830. À direita, após o restauro de 1970-71, que devolveu o monumento à sua traça original. 

Procurando, pois, com o olhar torturado, destrinçar a obra arquitectónica do século XIV, da desastrosa restauração dos fins do século XVIII [aliás, década de 1830 - AAN], ir-se-ão pouco a pouco desvendando os irremediáveis e profundos golpes que o templo sofreu externamente, porque internamente não nos é dado sequer entrever as mutilações selvagens que lhe infligiram com o camartelo, para o cobrirem de madeira e cal!
Começando, assim, pela análise do claustro românico que corre ao lado da igreja, de nascente a sul, e que data do século XIII. anterior ainda à reedificação do Mestre de Avis, notar-se-á que se compõe de elegantes, embora pequenas, colunas, de curiosos e variadíssimos capitéis, com estilizações de folhas, espigas e carrancas. No grosso das paredes são abertos vários túmulos, entre os quais um maior tendo uma estátua jacente, com o hábito talar em que costumavam ser esculpidas. Existem ali duas capelas, uma de S. Brás, com o tecto abobadado e dois mausoléus também com estátuas de pedra (estando um deles tapado pelo altar!); e a de S. Pedro com porta e janelas de cada lado, formadas em arco, sendo estas de graciosos colunelos geminados.
A ligeira reparação que há poucos anos realizaram nesses claustros foi não só incompleta mas imperfeita, — pois que deixaram toda a cal que cobre as paredes, como também um friso de madeira imitando pedra que as guarnecem; um retábulo de madeira num dos túmulos que servira de altar; e cimentaram, enfim, o pavimento que devia ser lajeado!
Passando daqui ao interior da igreja, vê-se que é formada de três espaçosas naves divididas por altas colunas que deveriam ser lindos espécimes góticos, na folhagem de seus capitéis e elegância de suas ogivas, o que tudo foi mascarado e mutilado, sem dúvida, pela infeliz restauração no estilo da época, que, aliás, obedeceu a uma correcta factura. São-nos vedados, portanto, todos esses primores de arte, de que pelo país existem alguns exemplares como o mosteiro da Batalha e de Alcobaça, a Sé de Évora, etc., entre os quais estava incluída a nossa Colegiada. Também devem ter desaparecido os azulejos, representando milagres da Virgem, que revestiam as paredes porque, enfim, a obra de reconstrução foi completa, transformando o precioso templo medieval na igreja modernizada e dourada, que é a amargurada decepção dc todos aqueles que admiram e veneram as coisas de arte.
Jerónimo de Almeida

Alvorada, 11 de Março de 1911
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