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O Terreiro da Misericórdia em 1863

O Terreiro da Misericórdia em Guimarães (a partir de fotografia de Antero Frederico de Seabra). Arquivo Pitoresco, 1863, p. 345.

A gravura que ilustra o texto sobre o terreiro da Misericórdia, que Vilhena Barbosa publicou em 1863 no Arquivo Pitoresco reproduz uma fotografia de Antero Frederico de Seabra (1821-1883). É uma perspectiva de sul para norte do terreiro, dominada pela casa de Tadeu Luís António Lopes da Fonseca Carvalho e Camões, Senhor de Abadim e Negrelos, mentor da Academia Vimaranense, hoje conhecida por casa dos Carvalhos ou dos Mota Pregos. Mostra, ao fundo, as ruínas do Paço dos Duques e o Castelo de Guimarães. Do lado direito da imagem, aparece um dos passos da paixão da Via-Sacra de Guimarães que acreditámos ser o mesmo que o Passo da Porta da Vila, que em 1802, aquando da demolição da torre de S. Domingos e do pano de muralha do Toural, foi removido para o adro da igreja de S. Sebastião. Ao seu lado, ainda com o tanque original, a fonte de “João Primeiro rei do Reino Unido”, um monumento singular onde se guarda a memória do efémero Reino Unido de Portugal e do Brasil, instaurado em 1815 por D. João VI, ainda príncipe regente, aquando da elevação do Brasil à condição de reino, e abolido pelos liberais de 1820. O edifício que preenche o espaço onde actualmente está implantado o monumento a João Franco é a antiga cadeia da Correição de Guimarães.

Terreiro da Misericórdia em Guimarães
Está situado este terreiro, presentemente, no coração da cidade, próximo da grande praça do Toural. Outrora era contíguo às muralhas e à porta chamada da Vila, que desapareceu há muito, deixando o nome ao lugar que ocupava, que é a boca de uma das ruas por onde se entra na dita praça do Toural.
Começando-se a edificação da igreja da Misericórdia no ano de 1585, na rua Sapateira, que vai da praça Maior, onde se ergue a antiquíssima igreja da colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, até à porta da Vila, resolveram os irmãos daquela santa confraria fazer um largo em frente do templo que andavam construindo. Compraram, pois, várias moradas de casas com seus quintais, e obtiveram outras, como esmolas, dos seus proprietários, para tão santo e caridoso instituto. Foi no terreno dessas casas e quintais que se fez o terreiro da Misericórdia.
O templo teve por principal fundador a Pedro de Oliveira, natural de Guimarães; porém a confraria já existia muito anteriormente ao começo desta obra, e congregava-se no claustro da colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, na capela de S. Brás, que ficou com o nome de Misericórdia Velha.
Não é notável a igreja por belezas arquitectónicas ou riquezas de ornatos. Exteriormente é um dos muitos edifícios de pesadas formas e desengraçados ornamentos, que a arquitectura clássica, ou do renascimento, levantou em o nosso país. Interiormente o que tem de melhor, artisticamente falando, é a obra de talha doirada que lhe guarnece as suas capelas. Tem junto a si o hospital dos expostos.
Ao sair da igreja dão os olhos de frente no formoso painel que a nossa gravura representa. É um lindo e pitoresco apinhoado de edificações de diferente género, e de variados tipos de arquitectura, coroadas ou divididas e orladas de arvoredo.
No pavimento do terreiro vê-se, do lado direito, uma fonte e uma capela, ou passo do Senhor Jesus; e no fundo um palácio de bom prospecto, propriedade e morada do sr. Manuel Coelho da Mota Prego. Esta casa, edificada ou reconstruída no século passado, não chegou a concluir-se. Devia crescer sobre o pátio onde tem o portão de entrada, e rematar em uma torre igual à que lhe forma o ângulo oposto.
Na parte mais alta da gravura avultam dois grandes monumentos da antiguidade: o castelo da condessa D. Mumadona, onde tiveram a sua corte o conde D. Henrique de Borgonha e sua mulher a rainha D. Teresa, e onde nasceu o nosso primeiro rei; e o palácio dos duques de Bragança. Já tratámos destes monumentos em outro lugar*. A fachada do palácio, que a estampa representa, é a única das suas quatro frontarias que se conserva toda de pé e com telhado. Esta parte do edifício serve de quartel ao batalhão ou destacamento que costuma estacionar em Guimarães. Para este fim tem tido diversas reparações e reconstruções parciais, em que lhe alteraram alguma coisa as suas feições primitivas.
A gravura que publicámos é cópia de uma excelente fotografia do sr. Seabra. Este cavalheiro, filho do digno par o sr. António Luís de Seabra, tem prestado um verdadeiro serviço às artes e ao país, dedicando-se com aplicação e zelo ao estudo da fotografia, em que tem adquirido notável aperfeiçoamento, procurando coligir nos seus trabalhos fotográficos os principais monumentos, as povoações mais importantes, os lugares históricos e paisagens pitorescas do reino, e com especialidade das províncias do Minho e da Beira. As suas fotografias até hoje publicadas constituem já uma grande colecção, que honram o artista pelo mérito do trabalho, e muitas também que fazem honra a Portugal pelos objectos que representam, uns ricos de arte, outros riquíssimos de tradições gloriosas, e não poucos cheios da formosura e das graças mais risonhas com que a natureza, quando pródiga, costuma adornar os seus quadros.
O sr. Seabra ofereceu a suas Majestades, o sr. D. Luís I, e sra. D. Maria Pia de Sabóia, por ocasião da visita que fizeram ao Minho no outono passado, um lindo álbum das suas fotografias. Faremos conhecer aos nossos leitores alguns destes trabalhos, posto que a gravura em madeira mal pode dar ideia das miudezas que a fotografia deixa ver com toda a clareza.

I. DE VILHENA BARBOSA.
* Vid. pág. 33 do vol. IV e 204 do vol. V.

[in Arquivo Pitoresco, vol. VI, Lisboa, 1863, pp. 345-346.]

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