12 de maio de 2016

Guimarães e o seu Campo da Feira em 1864


Igreja de Nossa Senhora da Consolação em Guimarães. Gravura de Coelho, sobre desenho de Nogueira da Silva a partir de fotografia de autor desconhecido. Arquivo Pitoresco, 1864, p. 93.


Poucas terras de província têm um passeio tão lindo e ameno como este da ponte do campo da Feira. Recordámo-nos com muita saudade de algumas horas que aí passámos em noites de luar, contemplando o quadro majestoso das árvores anosas que assombram o rio; dos grandes chorões que se debruçam sobre as estátuas dos apóstolos; dos bosques que se levantam em trono, vestindo as colinas por detrás da igreja; e do templo, cercado de tantos verdores e mostrando, como em triunfo, as estátuas dos evangelistas, que lhe fazem coroa. É delicioso, na verdade, ver os efeitos do luar através da folhagem de tão variados arvoredos, ao mesmo tempo que se ouvem o canto melodioso dos rouxinóis e o doce murmúrio das águas, correndo brandamente no rio por cima dos seixos, e caindo na taça de um chafariz perto da ponte. E todavia, tais são os nossos hábitos caseiros, que nas próprias noites de estio se vê ermo, ou quase só, um lugar tão aprazível e de tanta fresquidão.
(Vilhena Barbosa, in Arquivo Pitoresco, vol. VII, Lisboa, 1864, p. 94)

Em 1864, Inácio de Vilhena Barbosa publicou na revista Arquivo Pitoresco um texto em que descreve as duas épocas de prosperidade passada de Guimarães (a primeira à volta da corte de Afonso Henriques e da fama milagrosa de Nossa Senhora da Oliveira, a segunda que teve como único motor a indústria — fabrico de ferragens, especialmente cutelaria, e de tecidos de linho e curtume de couros) e a sua evolução urbana. Depois de explicar sucintamente o processo de crescimento da antiga vila de Guimarães e o seu alargamento para fora dos muros que a protegiam desde a Idade Média, faz uma breve descrição da praça do Toural (que trataria mais desenvolvidamente num outro texto que ainda publicaria naquele ano) para se fixar com mais detalhe no campo da Feira, no mercado que lhe deu o nome, na ponte que transpunha o ribeiro de Santa Catarina, que ali tomava o nome do lugar, assumindo a dignidade de rio, e na igreja de Nossa Senhora da Consolação.
Um texto que se lê com prazer e, seguramente, com bastante proveito.

Guimarães
Épocas da sua prosperidade passada; desenvolvimento da sua indústria e povoação; praça do Toural e o campo da Feira; a ponte do mesmo; igreja de Nossa Senhora da Consolação.
A cidade de Guimarães conta na sua história duas épocas de prosperidade, mui distantes uma da outra e procedentes de bem diversas causas. A primeira época deveu-a Guimarães aos próis e regalias de corte de D. Afonso Henriques; e, depois de despojada destas honras, aos imensos proventos que lhe resultaram do célebre santuário que encerra dentro em si. Logo que a espada vitoriosa do fundador da monarquia desafrontou as terras do Minho das correrias dos sarracenos, começaram os peregrinos e romeiros a afluir em maior escala ao templo de Nossa Senhora da Oliveira, cuja fama de milagrosa se estendia até à Galiza e Castela. Aos peregrinos seguiram-se de perto as ordens religiosas, que não tardaram a fundar aí alguns conventos de frades e de freiras, com que se aumentou e engrandeceu a povoação.
Como nesse tempo a guerra absorvia os principais cuidados e atenções da nação, sendo Portugal um verdadeiro campo de batalha, em que os nossos pelejavam de contínuo, não só com os moiros, mas também com os castelhanos e leoneses, as povoações importantes viam-se obrigadas a estarem recolhidas à sombra protectora de altas torres e muralhas ameiadas. A necessidade da defesa trazia-lhes a precisão de viverem apertadas no mais curto espaço que fosse possível, a fim de que, em caso de cerco, não faltassem braços para repelir o inimigo, nem ficasse sem guarnição ponto algum da muralha, o que sucederia se fora demasiadamente extensa.
Daqui se originou a edificação das cidades e vilas antigas em ruas estreitas e tortuosas. E, além da economia do espaço, ainda acrescia em favor desta construção poderem servir as ruas e casas de último ponto de defesa, quando o inimigo tinha escalado as muralhas e se dispunha a dar saque à povoação. Na verdade, muitos exemplos houve de encontrarem os vencedores afronta e morte onde só esperavam colher despojos.
Por conseguinte, o coração da cidade de Guimarães, que era a antiga vila que el-rei D. Dinis começou a cercar de muros, os quais D. Afonso IV concluiu e D. João I guarneceu de torres, era, e ainda hoje é na máxima parte, uma rede de ruas e vielas estreitas, tortuosas e pouco limpas. Reduziam-se então as suas praças a pequenos largos e acanhadíssimos terreiros, o principal dos quais era o de Nossa Senhora da Oliveira. O da Misericórdia ainda não existia; em seu lugar viam-se algumas casas e quintais.
Depois que el-rei D. João I lançou em África os fundamentos do comércio marítimo de Portugal, encetando com a tomada de Ceuta a gloriosa série das nossas conquistas de além-mar, principiou a segunda época da prosperidade de Guimarães. Porém, como esta teve por único motor a indústria, o seu maior desenvolvimento corresponde ao tempo em que o Brasil e a costa Ocidental da África portuguesa, já colonizados, entretinham activo comércio com a mãe pátria, alimentando e dando impulso aos três principais ramos da indústria manufactora de Guimarães — que consistem no fabrico das ferragens, especialmente cutelaria, nos tecidos de linho e no curtume de couros.
A separação do Brasil, e outras causas internas de decadência, puseram o termo a essa segunda época de prosperidade. Todavia, foi durante esse período, e pelo impulso do seu grande desenvolvimento industrial, que a vila, hoje cidade, de Guimarães, rompendo o cinto de muros que a apertava, se estendeu pelos campos vizinhos, onde formou novas ruas e praças, que são presentemente os seus melhores bairros. É verdade que à abertura destas ruas presidiu, em geral, o mau gosto antigo ou, diremos com mais acerto, o antigo uso, então desculpável, agora convertido em prática de mau gosto. Porém, em compensação, foram traçadas as praças com mão liberal.
A primeira que se fez foi a praça do Toural, que por estar na primitiva contigua à muralha e junto da porta chamada da Vila, acha-se actualmente no centro da povoação. É uma grande e nobre praça e pode chamar-se-lhe bela para uma cidade de província. Em grandeza não será muito inferior à nossa praça de D. Pedro. Adornam-na um elegante chafariz com duas taças e um cruzeiro não menos esbelto. Pelo lado de leste, por onde outrora corria a muralha, guarnecem-na dois quarteirões de casas de arquitectura regular e uniforme. Nos outros lados, são irregulares as edificações, mas entre estas vêem-se algumas casas de boa aparência.
O campo da Feira também ficava junto das muralhas, para o lado do sul, dando saída para ele a porta do seu próprio nome. Guarneceu-se de casas pouco a pouco, mas não lhe sucedeu como à praça do Toural, antes ficou sendo o extremo da vila, pois que esta estendeu-se, segundo o natural crescimento das povoações, para a parte de oeste ou poente, que é a mais alegre, porque a iluminam os últimos raios do sol.
É bastantemente espaçoso o campo da Feira e está tão agradavelmente situado que oferece aos habitantes o mais aprazível passeio e a mais bela saída da cidade.
Da porta do campo da feira e do lanço dos muros que corria entre as torres dos Cães e de Nossa Senhora da Guia, limitando o campo do lado do norte, não restam vestígios. Apenas ainda existe parte das muralhas para o lado de leste, seguindo da torre dos Cães para a porta da Freiria, ou de Santa Cruz, porém já fora do mesmo campo.
No grande mercado que se faz em Guimarães todos os sábados, e que é sem dúvida o mais importante mercado semanal de todo o reino, pois que ocupa várias praças, terreiros e ruas, concorrendo aí, de muitas léguas em redor, muitos gados, aves, cereais, frutas, loiças, vidros, diversidade de tecidos de lã, seda, linho, algodão, ferragens, etc., neste grande mercado, dizemos, a exposição dos gados tem o seu lugar no campo da Feira.
O fundo do campo, para onde o terreno desce com suave declive, apresenta um formoso panorama e um passeio delicioso. Corta-o em toda a largura um ribeiro, de humilde corrente, mas que leva água bastante para dar frescura ao lugar e viço às árvores frondosas que lhe orlam as margens. Como o ribeiro vai tomando o nome dos sítios por onde passa, chamasse aqui rio do campo da Feira.
Atravessa o ribeiro uma soberba ponte, que corresponde ao centro do campo. É larga, comprida, perfeitamente plana, e ao nível do campo. Junto às guardas, tem assentos de pedra. À entrada, levantam-se sobre altos pedestais as estátuas dos apóstolos S. Pedro e S. Paulo, e, à saída, as dos apóstolos S. Tiago Maior e S. Bartolomeu, todas de granito. Os lados da ponte são arborizados, e o próprio pavimento dela foi plantado com dois renques de árvores pela câmara municipal que serviu no biénio de 1860 a 1861, e da qual foi presidente o sr. visconde de Pindela.
A 9m,50 do fim da ponte, ergue-se a igreja de Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos. A primeira fundação deste templo é antiga, mas não sabemos a data, e só que um morador da vila, chamado Duarte Sodré, mandou construir aí uma capela consagrada à dita Senhora, para serviço da qual se instituiu uma irmandade com a mesma invocação, e que passa por ser uma das mais antigas confrarias da cidade.
A primitiva capela era pequena e precedida de uma grande alpendrada com assentos de pedra. No primeiro quartel do século XVIII, segundo nos parece, foi demolida a capelinha, e começada em seu lugar outra maior. Porém, ficaram as obras em meio, não chegando a dar-se princípio ao frontispício. Não obstante, colocou-se a imagem da Senhora no altar-mor e rendeu-se-lhe o culto costumado.
Passados anos, reconhecendo a irmandade os muitos inconvenientes e faltas de respeito que provinham ao templo de se achar incompleto e aberto e franco a toda a hora, determinou levantar uma parede para o fechar, o que executou em 1767. Mas ainda bem não tinha acabada esta obra, convencendo-se logo da insuficiência dela, resolveu fazer maior esforço, procedendo a uma reconstrução completa ou nova fundação. Foi encarregado do risco André Ribeiro Soares da Silva, natural de Braga, que exercia a arte por curiosidade e não como profissão. Solicitaram-se esmolas, que foram acudindo prontamente, e começaram-se as obras no ano de 1769, sendo juiz da irmandade Carlos António da Costa Cardoso Pereira.
Assim que se acabou o corpo da igreja, foi benzido e aberto ao culto em 16 de Outubro de 1785. A capela-mor, principiada em 1789, só ficou concluída em 1798. Ao presente está em construção uma das torres.
Conduz ao adro do templo uma larga escadaria, guarnecida de balaustradas de pedra. A frontaria da igreja é nobre e de aspecto agradável. É construída de granito, que é a pedra do país; e decoram-na as estátuas dos quatro evangelistas. Interiormente está ornada com singeleza, mas com muito asseio. As despesas do culto correm por conta da irmandade, que aí faz celebrar as suas festas com bastante solenidade.
Desta igreja saía uma procissão de passos na quarta dominga de quaresma. Cremos que ainda dura este uso. O que supomos acabada é uma prática que constituía uma prerrogativa, da qual esta igreja gozou por muitos anos, e desde o tempo em que era apenas uma pequena capela. Consistia esta prática em irem todos os anos, no domingo de Ramos, os cónegos da insigne e real colegiada de Nossa Senhora da Oliveira em procissão ao templo de Nossa Senhora da Consolação, para aí celebrarem a bênção dos ramos.
No primeiro domingo de Agosto faz-se uma feira de bestas neste sítio, servindo a ponte para a exposição e corrida das cavalgaduras.
Poucas terras de província têm um passeio tão lindo e ameno como este da ponte do campo da Feira. Recordámo-nos com muita saudade de algumas horas que aí passámos em noites de luar, contemplando o quadro majestoso das árvores anosas que assombram o rio; dos grandes chorões que se debruçam sobre as estátuas dos apóstolos; dos bosques que se levantam em trono, vestindo as colinas por detrás da igreja; e do templo, cercado de tantos verdores e mostrando, como em triunfo, as estátuas dos evangelistas, que lhe fazem coroa. É delicioso, na verdade, ver os efeitos do luar através da folhagem de tão variados arvoredos, ao mesmo tempo que se ouvem o canto melodioso dos rouxinóis e o doce murmúrio das águas, correndo brandamente no rio por cima dos seixos, e caindo na taça de um chafariz perto da ponte. E todavia, tais são os nossos hábitos caseiros, que nas próprias noites de estio se vê ermo, ou quase só, um lugar tão aprazível e de tanta fresquidão.
A nossa gravura é cópia de uma fotografia, cujo autor ignorámos.
I. DE VILHENA BARBOSA

[in Arquivo Pitoresco, vol. VII, Lisboa, 1864, pp. 92-94]
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