14 de maio de 2016

O campo do Toural em 1864

O Toural em 1864. Gravura de Lima a partir de um desenho de Pedroso tirado a partir de uma fotografia (Arquivo Pitoresco, 1864, p. 217). Ao fundo, a praça era fechada pela igreja de S. Sebastião, de cuja demolição sobreviveu a torre, que foi reerguida na igreja de Creixomil. 


O tempo e os progressos da humanidade não tardaram a zombar da nova peia. A população transbordou por cima dos muros de D. Dinis e, como se procurasse compensação ao constrangimento em que vivera quase abafada pela estreiteza das ruas e pequenez dos terreiros, veio sentar-se em volta de um grande campo, mesmo contíguo às muralhas, para o lado de oeste. Destarte se formou a praça do Toural, conservando o nome antigo do campo que, por ser ali a feira do gado, lhe chamavam do Toural, que vale o mesmo que se dissessem — dos Touros.

                                                 Vilhena Barbosa, in Arquivo Pitoresco, vol. VII, Lisboa, 1864, p. 217.

De todos os textos de Inácio Vilhena Barbosa que aqui temos vindo a publicar, o que dedicou à descrição da praça do Toural é um dos mais interessantes e mais ricos em informação. Era uma praça de tal modo vasta e desafogada, especialmente quando comparada com as praças, pracetas, ruas e vielas do interior do espaço amuralhado, que se lhe chamava campo. Alguns de nós lhe temos chamado de sala de visitas, Vilhena Barbosa chama-lhe o Chiado de Guimarães, referindo-se especialmente à sua frente do lado do nascente, ali onde antes passou a velha muralha e agora está um quarteirão de casas sob um risco uniforme e de arquitectura regular, onde se reúnem diariamente os tafuis e passeantes, para matarem as horas de ócio, conversando e inquirindo novidades. Bem sabemos que persiste entre nós algum saudosismo do tempo em que o Toural tinha como praça central um jardim com os seus canteiros harmoniosamente desenhados, assim como noutros tempos outros suspiraram pelo jardim público cercado de grades que ali esteve nos finais da monarquia. Porém, a leitura deste texto e a observação da gravura que o acompanha ajudam a perceber que, no essencial, a recente intervenção no Toural lhe devolveu a sua antiga configuração de praça ampla e não confinada (e lá está o muito belo chafariz quinhentista a confirmá-lo ‑ apenas faltou, no outro topo da praça, o cruzeiro do Fiado que ainda lá estava quando Vilhena Barbosa conheceu o Toural).
Conta o historiador que, outrora, o Toural foi palco de pomposas festas, mas que naqueles dias acontecia ali semanalmente um espectáculo sem dúvida mais curioso, mais belo e mais civilizador: era o grande mercado de Guimarães, de todos os sábados, em que Guimarães teria a primazia a todos as povoações do reino, já que Vilhena Barbosa, que conhecia bem as terras deste país, estava convicto de que nenhuma outra possui um mercado semanal de tanta importância, tão concorrido de gente, de géneros, mercadorias e gados.

O Toural
Por duas vezes foi cingida de muros a antiga vila de Guimarães. A primeira cerca foi obra do conde D. Henrique, segundo parece mais provável, ou, pelo menos, foi por este príncipe reformada e aumentada. Com os privilégios e mais vantagens que lhe provinham de ser assento da corte, tanto prosperou e cresceu, que, passado século e meio, tinha a povoação rebentado o cinto com que a apertaram na infância, estendendo-se por fora das muralhas.
Então traçou-lhe el-rei D. Dinis nova e mais larga cerca, que abrangesse dentro em si todas as casas. Não bastou o seu reinado para levar a cabo esta empresa. Continuou-a, porém, seu filho, D. Afonso IV, que a concluiu; e el-rei D. João I aperfeiçoou-a e robusteceu-a, adicionando-lhe altas torres ameiadas, com que ficaram melhor defendidas as diversas portas da vila.
O tempo e os progressos da humanidade não tardaram a zombar da nova peia. A população transbordou por cima dos muros de D. Dinis e, como se procurasse compensação ao constrangimento em que vivera quase abafada pela estreiteza das ruas e pequenez dos terreiros, veio sentar-se em volta de um grande campo, mesmo contíguo às muralhas, para o lado de oeste. Destarte se formou a praça do Toural, conservando o nome antigo do campo que, por ser ali a feira do gado, lhe chamavam do Toural, que vale o mesmo que se dissessem — dos Touros.
No princípio foi-se guarnecendo de casas pelos lados de oeste e do sul, deixando inteiramente livre a muralha da vila, que limitava o campo pela parte de leste, entrando um pouco pela do norte. Assim se conservou até ao primeiro quartel do século XVIII; porém nesse espaço de tempo, que não foi menos de dois séculos, fizeram-se consideráveis melhoramentos na dita praça, tais como um formoso chafariz, fabricado em 1588, um esbelto cruzeiro, erigido em 1650, e assentos de pedra junto da muralha, em todo o seu comprimento.
Este lanço de muro ficava entre a torre da alfândega e a torre de S. Domingos, chamada em eras anteriores de Nossa Senhora da Piedade, em razão de uma capela com esta invocação que estava próximo dela. Erguia-se a primeira destas duas torres na extremidade do campo para o lado sul e a segunda no extremo do norte, fazendo aí um ângulo com a porta também chamada antigamente de Nossa Senhora da Piedade e depois porta da Vila. A torre que a defendia tinha recebido o seu novo nome do convento de S. Domingos, da ordem dos pregadores, que fora fundado perto do campo do Toural e da sobredita torre.
Até ao período do século XVIII acima referido, as casas desta praça eram quase todas de alpendrada sobre colunas de pedra, ao uso antigo. Nos fins, porém, desse mesmo século e no começo do seguinte, que é a época de maior prosperidade de Guimarães, pelo grande desenvolvimento da sua indústria fabril e do seu comércio de exportação para o Brasil, procedeu-se à construção de prédios, que deram à praça do Toural um novo e mais grandioso aspecto.
Foi demolido até aos alicerces todo o lanço de muros da cerca de D. Dinis e em seu lugar se edificaram dois quarteirões, compostos de diferentes propriedades, mas sob um risco uniforme e de arquitectura regular relativa a cada quarteirão, com lojas, sobrelojas, e mais dois andares no quarteirão maior, e três no mais pequeno, correndo-lhes pela frente um largo passeio lajeado.
Onde estava a torre de S. Domingos, ao norte, construiu-se outro prédio, parecido com estes, e nesse mesmo lado se edificaram outros ao diante. A porta da Vila e a porta Nova, também denominada postigo de Sampaio, desapareceram, deixando franca passagem a duas ruas que entram na praça. A primeira daquelas ruas, que conduz ao terreiro da Misericórdia* e à rua Sapateira e praça de Nossa Senhora da Oliveira**, conserva o nome de porta da Vila.
Os outros lados da praça não apresentam regularidade de construções; todavia, foram-se reformando as velhas casas de alpendrada e contam alguns edifícios de boa aparência.
A praça do Toural é bastantemente vasta. Não sabemos a medida da sua extensão, mas parece-nos, se não nos falha a memória, que não será muito inferior à da nossa praça de D. Pedro, sendo também pouco menos larga do que esta.
Levanta-se o cruzeiro quase na extremidade do norte. Assenta a cruz sobre uma esbelta e alta coluna de ordem coríntia, se bem nos lembrámos, cuja base está colocada em um patim, de onde descem para a praça cinco degraus. No pedestal em que repoisa a haste da cruz, lê-se a seguinte inscrição: Esta obra mandou fazer o juiz e irmandade de Nossa Senhora do Rosário no ano de 1650.
Corresponde ao cruzeiro, no lado oposto da praça, o chafariz, que é de forma tão elegante e delicada que podia servir de adorno no meio de qualquer jardim. Cai a água de duas taças para um tanque cercado de assentos. As taças, e as mui delgadas colunas que as sustentam e separam, são cobertas de lavores que, apesar de esculpidos no granito, produzem belo efeito. Sobre a taça superior, serve de remate ao chafariz uma esfera de bronze doirado, coroando dois escudos igualmente de bronze, colocados um contra o outro, nos quais se vêem pintadas as armas reais em um deles e uma águia coroada no outro.
A nossa gravura, copiada de uma fotografia, representa esta parte da praça, em que avulta o chafariz. À esquerda vêem-se os dois quarteirões de que acima falámos. A estampa mostra dois prédios do maior e parte do mais pequeno. As lojas destes quarteirões são ocupadas quase todas por mercadores de panos de lã e de sedas. É aqui, nas lojas e no passeio de lajedo que corre junto delas, que se reúnem diariamente os tafuis e passeantes, para matarem as horas de ócio, conversando e inquirindo novidades. É o Chiado de Guimarães.
Outrora, quando o comércio dos linhos, das cutelarias e dos curtumes de coiros espalhava profusamente entre o povo de Guimarães riqueza e alegria, faziam-se amiúde pomposas festas na praça do Toural. Aproveitavam-se todas as solenidades e quaisquer pretextos de regozijo público para se fazerem danças populares com esquisitas invenções de vestuário, cavalhadas, fogo de vistas e outras diversões, cujo aparato era realçado pela grandeza da praça e pela multidão dos espectadores.
Hoje nada disto se faz mas, em seu lugar, vê-se ali semanalmente um espectáculo sem dúvida mais curioso, mais belo e mais civilizador. É o grande mercado de Guimarães, de todos os sábados. Neste ponto leva esta cidade a primazia a todos as povoações do reino. Cremos que nenhuma outra possui um mercado semanal de tanta importância, tão concorrido de gente, de géneros, mercadorias e gados. A praça do Toural apresenta nesses dias um panorama encantador e pitoresco, pela variedade dos produtos ali expostos à venda e pela diversidade e cores garridas dos trajos das camponesas ou lavradeiras, como lhes chamam em todo o Minho. Enche-se a maior parte da praça com loiça de barro e de pó de pedra, de indústria nacional, mas de diferentes procedências; de loiça fina inglesa; de objectos de vidro; cutelaria; ferragens; utensílios de uso doméstico; espelhos e perfumarias; instrumentos agrários, etc. No restante da praça, em volta do chafariz, estão dispostos hortaliças, frutas, aves, ovos, queijos, etc.
Mas não se julgue que a isto fica limitado o mercado. O vizinho terreiro da Misericórdia é todo ocupado com barracas arruadas, em que se vende panos de lã, sedas, chitas, cassas, e outras fazendas de lã, linho e algodão, de indústria estrangeira e nacional, fato feito para os dois sexos, colchas, cobertores, etc. No terreiro de S. Sebastião, também vizinho, que se comunica com a praça do Toural pelo sul, e no espaçoso terreiro de S. Francisco, imediato a este, faz-se a feira de cereais e legumes e das suas variadas preparações. Aí se vende por grosso, em sacas, e por miúdo, mui diferentes qualidades de trigo, centeio, milho e suas respectivas farinhas; feijões e grão-de-bico, pão cozido de variadíssimas formas e de todo o género de cereais, pão-de-ló, biscoitos e outros doces. No vasto campo da Feira*** e nas ruas que o comunicam com o terreiro de S. Francisco, faz-se a exposição de gados, em que abunda o vacum.
Concorrem, pois, a este grande mercado, milhares de expositores e compradores de muitas léguas em redor da cidade.
I. DE VILHENA BARBOSA.
[in Arquivo Pitoresco, vol. VII, Lisboa, 1864, pp. 217-218]


Partilhar:

0 comentários: