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Efeméride do dia: O segredo do Conselheiro


13 de Setembro de 1886
Ao meio-dia falece no hospital da Misericórdia, em quarto particular onde foi entrado a expensas de caridosos amigos no dia 6 deste mês, o conselheiro José Cardoso Braga. Nascido no Porto, em 1809, filho de Manuel José Cardoso dos Santos e de D. Maria Rita Braga; cursando a Universidade de Coimbra, aí tomou o grau de bacharel. Foi secretário da administração geral de Évora, deputado duas vezes às cortes, governador civil dos distritos de Aveiro e Guarda, servindo este 3 vezes, e vogal da comissão da reforma das cadeias. Era agraciado com a carta de conselho, grau de cavaleiro da Conceição, comendador da mesma Ordem, da de Cristo e da de Isabel, a Católica, de Espanha. A sua carreira tão brilhante, teve grandes reveses, não se sabendo ao certo a causa mais que por conjecturas. Veio para esta cidade, ignorando-se também o motivo, onde residiu mais de 20 anos, ocupando-se em escrever para os jornais e vivendo do trabalho de algumas traduções e da caridade dos amigos, meio este por que no hospital esteve em quarto particular e teve um enterro decente. A bibliografia deste infeliz está bastante desenvolvida no n.º 23 da 40ª da “Religião e Pátria”, bissemanário que então se publicava nesta cidade. O encarregado ou encarregados da escrita hospitalar (grande estúpido ou estúpidos) na papeleta do quarto puseram-lhe profissão “jornaleiro” em vez de jornalista, e no assento de óbito, a fl. 136 v. do respectivo livro, “profissão mendigo, digo escritor público”, nada esclarece sobre a sua elevação. Ele andava com chapéu fino muito lustroso ou ensebado, bem como a sobre-casaca preta, que usava sempre, o que dava ocasião à gente baixa fazer-lhe alguma caçoada; pois ele só aceitava objectos de vestir, etc, sendo-lhe oferecidos por pessoas da alta sociedade, e recusava-os sendo por pessoas de classe média, negociantes, etc.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 252 v.)

Na primeira semana de Setembro de 1886, deu entrada no Hospital da Misericórdia de Guimarães, um velho andrajoso, que foi registado como jornaleiro e que acabaria por falecer uma semana depois, no dia 13. No registo de óbito, no local onde deveria constar o seu ofício, ficaria escrito: profissão mendigo, digo escritor público. Chamava-se José Cardoso Braga, contava quase oitenta anos e os que o conheciam tratavam-no por Senhor Conselheiro. Aliás, a sua figura, metida dentro do seu fato coçado, lustroso, único e com o seu chapéu fino e ensebado era reconhecida em toda a cidade, não havendo criança que o não conhecesse. Tinha aparecido em Guimarães, sem se saber de onde vinha nem o que o chamava a esta cidade, em data de que já ninguém recordava, e por aqui ficou por mais de duas décadas. Que mistério se esconderia por baixo daquela figura, pobre no trajar e no modo de vida, mas que, pelo porte e pelo discurso, se percebia que vivera uma vida bem diferente daquela que levava em Guimarães?
O modo como vivia denunciava uma completa escassez de meios. E se não fora o seu trato distinto, a erudição que revelava na sua conversação, umas pequenas expansões com que às vezes quebrava a sua reserva habitual, e por fim as suas memórias, ninguém presumiria debaixo do vestuário coçado e menos limpo do pobre conselheiro um homem que já tinha ocupado cargos iminentes na administração, pública do país.
Vivia pobremente.
Escrevia artigos para jornais e fazia algumas traduções. Era este o trabalho que lhe proporcionava alguns pequenos recursos; o resto supria-o a caridade de muita gente, a quem este homem inspirava uma profundíssima compaixão.
Religião e Pátria, 15 de Setembro de 1886
O conselheiro Braga tinha uma conversa sedutora, variada e cheia de curiosidades que prendiam a atenção, escreveu por altura da sua morte o jornal, que acrescentou que conhecia os nossos homens políticos e analisava todos os seus actos com muito critério e erudição.
Todavia, quanto à sua vida íntima e à sua existência antes de vir exilar-se em Guimarães, era reservadíssimo. Pelo menos fora-o, até quase ao final dos seus dias, altura em que estava a publicar fragmentos das suas memórias inéditas, onde, a certa altura, faz uma declaração em que explica porque se decidiu a expor publicamente a sua vida
A publicação destes fragmentos das minhas memórias tem por fim principal instruir o público acerca daquela parte da minha vida em que andei envolvido na política activa como governador civil e deputado, encarregado de mais a mais de importantes comissões de serviço público.
Tem outro fim ainda. É uma resposta indirecta a vários indivíduos, sobretudo a um Buzaranho bem conhecido, que passando uma vez junto de mim disse para outros que o acompanhavam: E foi isto um governador civil!!!!! Pois, senhor Buzaranho, não foi um governador civil isto que agora aqui se vê, mas sim isto que agora aqui se lê.
Fora necessária a provocação insultuosa de um troglodita de compleição encorpada para que começasse a desvendar a sua vida no tempo em que gozava da consideração e do respeito que em geral são devidos aos homens públicos, mostrando que debaixo do vestuário coçado e menos limpo do pobre conselheiro um homem que já tinha ocupado cargos iminentes na administração pública do país.
José Cardoso Braga era natural do Porto, onde nasceu em 1809. O seu pai era um homem de negócios daquela cidade que, em 1803, residia na rua da Fábrica do Tabaco. Da mãe, Maria Rita Braga, recebera o seu último apelido. Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde seria investido no grau de bacharel em leis. Em 1836, já na vigência do setembrismo, o Ministro do Reino, Passos Manuel, nomeou-o para secretário da administração geral do Distrito de Évora, funções que desempenhou até Novembro do ano seguinte, tendo sido exonerado a seu pedido. Em 1838, foi investido no cargo de governador civil do distrito da Guarda, que desempenharia até Abril do ano seguinte. Entre 1840 e 1845 exerceria as mesmas funções no distrito de Aveiro.
Entretanto, foi eleito deputado pelo colégio eleitoral do Douro, nas eleições de 1842 e de 1846. Em 1858 foi nomeado vogal da comissão da reforma das cadeias, tendo publicado obra sobre questões prisionais. No ano seguinte, regressaria ao Governo Civil do distrito da Guarda, por nomeação de Fontes Pereira do Melo, onde esteve até ser exonerado pelo marquês de Loulé, em Agosto de 1860.
Entretanto, receberia diversas distinções honoríficas: foi agraciado com o grau de cavaleiro da ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, em 1836, com a comenda da Ordem de Cristo, em 1840, com o título de moço fidalgo da casa real com moradia, em 1845, ano em que também foi distinguido com carta régia de conselho, de onde lhe veio o título de conselheiro. Em 1860, receberia ainda a comenda da Ordem da Conceição e a comenda de Isabel, a Católica, de Espanha.
Num texto dos fragmentos das suas memórias, publicado no jornal na edição de 25 de Agosto de 1886 do jornal Religião e Pátria, referir-se-ia aos títulos e distinções que obteve no tempo em, que se dedicou a actividades públicas:
Com este meu génio recolhido nem eu mesmo sei como é que cheguei ainda a ser alguma coisa no mundo, pois que eu nunca pedi nada. As mercês que tenho recebido do chefe do Estado, título do conselho, foro grande de fidalgo cavaleiro, comendas de Cristo e Conceição, além de uma outra da rainha Isabel de Espanha, eu, à excepção da segunda graça, nada disto pedi, e se pedi o foro de fidalgo foi por certos motivos que não é para se referirem. Continuemos porém a nossa narração.
O que se passou entre os anos de 1860, em que cessaram as suas actividades de homem público, e cerca de 1865, altura em que aparece em Guimarães, permanece um mistério por decifrar.
Na nota necrológica que lhe dedicou o Religião e Pátria a 15 de Setembro de 1886, lê-se:
O traço que liga e explica a sucessão destas duas épocas tão distintas; este curto período de cinco anos em que o conselheiro Braga desceu das culminâncias do seu prestígio e da consideração a que o tinham elevado as suas notáveis aptidões, esse traço, esse curto período é que por enquanto ninguém conseguiu desvendar.
Em Guimarães, o conselheiro Braga viveu da caridade e dos textos que ia escrevendo ou traduzindo para os jornais, em especial para a imprensa local de Guimarães (Religião e Pátria, Imparcial, Espectador e Comércio de Guimarães).
Em 1836, já havia traduzido e publicado a obra de Charles Lucas, História do sistema penitenciário na Europa e nos Estados Unidos da América. No seu tempo de Guimarães, publicaria, entre outras obras, as suas traduções de Marcela, a lenda da felicidade, de Leopold Sacher-Masoch, livro saído do prelo em 1873, As últimas descobertas feitas no Egipto pelo snr. Mariette, no jornal Espectador, em 1883-1884.
José Cardoso Braga faleceu, após prolongado e pertinaz sofrimento, ao meio-dia de 13 de Setembro de 1886, no hospital da Misericórdia de Guimarães, onde, apesar da sua pobreza, estava internado num quarto particular, graças à influência dos seus amigos vimaranenses que, por iniciativa do comerciante Manuel José da Silva Miranda, promoveram uma subscrição cujo produto permitiu que o conselheiro tivesse um funeral digno, que levaria grande acompanhamento.
Ao ser dado à sepultura, o conselheiro Braga levou consigo o segredo da sua desdita, sobre o qual, desde então, se fez silêncio. O Religião e Pátria, explicaria porquê:
A reserva do conselheiro que algumas vezes se quebrou para levantar suspeitas que a sua vida pouco conhecida fazia às vezes aventar, manteve-se sempre completa e inquebrantável sobre este ponto.
Já que o desgraçado, a quem as correntes da fortuna impeliram tão diversamente, nunca deixou entrar o mais ligeiro raio do luz sobre esta parte misteriosa da sua vida, cabe-nos o dever de não fazer presunções nem estabelecer hipóteses.

Respeitemos o seu segredo

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